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<title>Gerald Thomas &amp; Dry Opera Company</title>
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<body>
<table style="margin:0 auto;" class="main"  cellspacing="0" cellpadding="0">
<tr><td class="header" align="left" height="100" style="background-image:url('/images/hd-press.jpg')">
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<tr>
<td class="press2">
<H1>Programa Roda Viva - TV Cultura-SP 1988</H1>
<p class="subhead">
Gerald Thomas<br>
16/5/1988<br>
Nesta conversa, o autor e diretor tece cr�ticas ao teatro brasileiro, conta para quem cria suas produ�es teatrais, revela os nomes da dramaturgia brasileira que admira e relata suas experi�ncias na Anistia Internacional</p>
<p>
<p align="justify"><font size="3"><strong>Ant&ocirc;nio Carlos Ferreira:</strong> Boa noite. N&oacute;s estamos come&ccedil;ando o programa <strong>Roda Viva</strong> que &eacute; transmitido, simultaneamente, pela R&aacute;dio Cultura AM de S&atilde;o Paulo e retransmitido pelas TVs educativas do Rio Grande do Sul, de Minas Gerais, Esp&iacute;rito Santo, Mato Grosso do Sul, Bahia e Piau&iacute;. O entrevistado desta noite &eacute; o autor e diretor teatral Gerald Thomas. Gerald Thomas, trinta e tr&ecirc;s anos, nasceu no Rio de Janeiro, foi criado em Londres onde come&ccedil;ou a carreira no teatro e na pintura. Trabalhou tamb&eacute;m em Nova Iorque no teatro La MaMa [Experimental Theatre], dirigindo, agora, no Brasil e ainda em Nova Iorque. Gerald Thomas se tornou, em pouco tempo, e ao mesmo tempo, um dos mais aplaudidos e criticados diretores de teatro de vanguarda do pa&iacute;s. Entre os trabalhos mais conhecidos fez <em>Eletra com Creta</em> [1986] e dirigiu tamb&eacute;m [a &oacute;pera] <em>Navio fantasma</em> [1987] de Wagner e agora est&aacute; apresentando a <em>Trilogia Kafka </em>[pe&ccedil;as baseadas nos textos do escritor theco <font color="#ff0000"><font color="#000000">Franz Kafka</font><font color="#000000"> (1883-1924), considerado um dos principais escritores da literatura moderna. Sua obra retrata as ansiedades e a aliena&ccedil;&atilde;o do homem do s&eacute;culo XX. As mais famosas foram escritas entre 1913 e 1921. S&atilde;o essas: <em>A metamorfose</em>, <em>O processo</em>, <em>O castelo</em>, <em>O foguista</em>]</font></font>. Um conjunto de tr&ecirc;s pe&ccedil;as: <em>Uma metamorfose</em>, <em>Um processo </em>e <em>Praga,</em> que est&atilde;o sendo encenadas, alternadamente, no teatro Ruth Escobar, aqui de S&atilde;o Paulo. Gerald Thomas ser&aacute; entrevistado esta noite por: Mario Prata, escritor, roteirista e autor de teatro; Vivien Lando, cr&iacute;tica e diretora de teatro; Aimar Labaki, cr&iacute;tico de arte da <em>Folha de S. Paulo</em>; Maria Am&eacute;lia Rocha Lopes, jornalista do programa <em>Metr&oacute;polis</em>, da TV Cultura; Kleber de Almeida, editor do Caderno de S&aacute;bado do <em>Jornal da Tarde</em>; M&aacute;rio Mazetti, diretor de teatro; Edelcio Mosta&ccedil;o, cr&iacute;tico de teatro da revista <em>Isto &Eacute; </em>e presidente da Associa&ccedil;&atilde;o Paulista de Cr&iacute;ticos de Arte [APCA]; Ilka Marinho Zanotto, cr&iacute;tica de teatro do Caderno Dois do <em>Estado de S. Paulo</em>. O cartunista Paulo Caruso vai fazer alguns desenhos ao longo do nosso programa, que ser&atilde;o mostrados durante a entrevista. Na nossa plat&eacute;ia est&atilde;o alguns convidados da produ&ccedil;&atilde;o de <strong>Roda Viva</strong>. Este programa n&atilde;o est&aacute; sendo feito ao vivo, ele foi gravado. Gerald Thomas, eu estou aqui com o cat&aacute;logo da pe&ccedil;a, da <em>Trilogia Kafka</em> e tem uma p&aacute;gina aqui dedicada &agrave; cr&iacute;tica, n&eacute;? O amor da cr&iacute;tica &agrave; voc&ecirc;. Eu vou ler algumas cr&iacute;ticas...</font></p>

<p align="justify"><font size="3"><strong>Gerald Thomas: </strong>Ant&ocirc;nio. &Eacute; o amor com um risco...</font></p>
<p align="justify"><font size="3"><strong>Ant&ocirc;nio Carlos Ferreira</strong>: O amor com um risco. Eu vou mostrar aqui algumas cr&iacute;ticas. Vivien Lando, que est&aacute; aqui ao meu lado, disse o seguinte: &ldquo;Viu o galo cantar e n&atilde;o sabe onde&rdquo;; outra cr&iacute;tica: &ldquo;Falso ingl&ecirc;s, inventor do teatr&atilde;o de vanguarda dos anos sessenta, embusteiro, impostor&rdquo;. Tem uma do M&aacute;rio Henrique Simonsen, economista e, de vez em quando, cr&iacute;tico de &oacute;pera, dizendo o seguinte do <em>Navio fantasma</em>: &quot;A parte c&ecirc;nica &eacute; um exerc&iacute;cio do absurdo, e qualquer um faz absurdos, eu tamb&eacute;m posso imaginar coisas ex&oacute;ticas. Por exemplo, passar a lua-de-mel com um badejo&quot;. Outra cr&iacute;tica: &quot;&Eacute; o primeiro besteirol brasileiro de luxo com texto de teatro&quot;. E mais algumas cr&iacute;ticas, que est&atilde;o aqui colocadas, como frases entreouvidas em corredores de teatro, mesas de bares etc. &quot;&Eacute; um megaloman&iacute;aco com sintomas esquizofr&ecirc;nicos&quot;. &quot;&Eacute; o inventor do FMI no teatro brasileiro&quot;. &quot;Era um garoto t&atilde;o precoce que virou senil aos trinta anos&quot;. E outra aqui: &quot;Quem &eacute; essa inglesinha para vir aqui cantar de galo em nosso terreiro&quot;. Gerald, como &eacute; que voc&ecirc; recebe essas cr&iacute;ticas todas? O que voc&ecirc; fez no teatro para receber essa ira toda, pelo menos, de parcela da cr&iacute;tica de teatro brasileira.</font></p>

<p align="justify"><font size="3"><strong>Gerald Thomas: </strong>Olha, eu recebo de tal forma que eu publico no meu pr&oacute;prio programa. Quer dizer, esse programa &eacute; do espet&aacute;culo, n&atilde;o &eacute; uma... Foi coletado pelos anos a&iacute; de trabalho. E a gente... Eu acho curioso, eu me vejo na terceira pessoa. Eu n&atilde;o me levo muito a s&eacute;rio nesse sentido de... Gerald Thomas que sai nos jornais e esse que vai ao ar na televis&atilde;o &eacute; uma outra figura, n&atilde;o tem muita preocupa&ccedil;&atilde;o com o... N&atilde;o tem muita rela&ccedil;&atilde;o com o diretor de teatro, a pessoa que est&aacute; ligada, de uma forma e outra, &agrave; cultura ou &agrave; est&eacute;tica, enfim, &agrave; criatividade. Eu acho que &eacute; curioso exaltar de forma t&atilde;o repentina e t&atilde;o voraz, a xenofobia de um pa&iacute;s como o Brasil. Que, geralmente, voc&ecirc; v&ecirc; que um pa&iacute;s que se sente por baixo e que est&aacute;, literalmente, por baixo, vai sempre exacerbar esses pseudodotes nacionalistas e xenof&oacute;bicos para tentar levantar a moral de alguma forma.</font></p>

<p align="justify"><font size="3"><strong>Ant&ocirc;nio Carlos Ferreira: </strong>Voc&ecirc; acha que essa cr&iacute;tica aqui, o fundo dela...</font></p>
<p align="justify"><font size="3"><strong>Gerald Thomas:</strong> N&atilde;o, a&iacute; t&ecirc;m v&aacute;rias.</font></p>
<p align="justify"><font size="3"><strong>Ant&ocirc;nio Carlos Ferreira: </strong></font><font size="3">Eu sei. Dessas cr&iacute;ticas, o que existe de fundo, seria o qu&ecirc;? O fato de voc&ecirc; n&atilde;o ser bem brasileiro. Ter nascido aqui, mas ter feito a sua educa&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica fora daqui. &Eacute; isso que est&aacute; por tr&aacute;s?</font></p>

<p align="justify"><font size="3"><strong>Gerald Thomas:</strong> Eu acho, &eacute; como eu estava dizendo, muitas coisas. Uma, obviamente, tem a ver com isso. A primeira coisa que acontece... Veja o seguinte, &eacute; &oacute;bvio, ningu&eacute;m precisa ficar tecendo teses em cima disso. Mas o Brasil est&aacute; em plena decad&ecirc;ncia financeira e h&aacute; uma certa decad&ecirc;ncia moral que acompanha isso. Junto com isso, dentro disso, existe um teatro fragilizado pela pr&oacute;pria mediocridade e falta de criatividade dos &uacute;ltimos vinte anos, vamos dizer, desde talvez o <a href="javascript:;" onmouseover="return overlib('O Teatro Oficina foi criado em 1958 por um grupo de estudantes da Escola de Direito do Largo de S&atilde;o Francisco, em S&atilde;o Paulo, entre eles o diretor Jos&eacute; Celso Martinez Corr&ecirc;a, considerado hoje a grande figura do teatro escola. Distinguiu-se de outras companhias teatrais por ousadias c&ecirc;nicas e por ter absorvido v&aacute;rias vertentes das artes c&ecirc;nicas internacionais, dando-lhes um cunho eminentemente brasileiro. A primeira grande realiza&ccedil;&atilde;o do elenco ocorreu em 1963, com a pe&ccedil;a &lt;i&gt;Pequenos burgueses&lt;/i&gt;, de G&oacute;rki, dirigida por Jos&eacute; Celso. Por&eacute;m, foi a estr&eacute;ia de &lt;i&gt;O rei da vela&lt;/i&gt;, em 1967, que elevou a condi&ccedil;&atilde;o de companhia para escola, trazendo para o teatro id&eacute;ias do movimento art&iacute;stico brasileiro - Oswald de Andrade e a antropofogia - que repercutiram em outras artes, como m&uacute;sica e cinema. O Oficina continua inovador e pol&ecirc;mico no in&iacute;cio do s&eacute;culo XXI.', ABOVE, RIGHT, WIDTH, '280');" onmouseout="return nd();" style="cursor: default; text-decoration: none; color: #F00; z-index: 2; text-align: left;">Teatro Oficina</a>. [Ent&atilde;o] o poder aquisitivo vai diminuindo. Uma das primeiras coisas que &ldquo;dan&ccedil;am&rdquo;, em termos da prioridade do p&uacute;blico &eacute; pagar, seja l&aacute; o que for. Quer dizer, esse tipo de sociedade, esse tipo de sistema financeiro vai criando um ran&ccedil;o rigoroso dentro dessas classes, que v&atilde;o se desprivilegiando. No caso do teatro &eacute; muito dif&iacute;cil. Eu sei que a barra &eacute; muito pesada, e noventa e poucos porcento da classe teatral se refugia atr&aacute;s desse conceito para justificar a montagem de pe&ccedil;as f&aacute;ceis, comerciais, comediazinhas, de entendimento brutal, vamos dizer...<br />

</font></p>
<div align="justify">
<p><font size="3"><strong>Maria Am&eacute;lia Rocha Lopes: </strong>Gerald, diante disso, que espa&ccedil;o voc&ecirc; ocupa no teatro nacional?</font></p>
<p><font size="3"><strong>Gerald Thomas:</strong> Mas eu n&atilde;o tinha acabado de falar ainda o que eu... Espera a&iacute;, deixa-me acabar de falar esse neg&oacute;cio.</font></p>
<p><font size="3"><strong>Maria Am&eacute;lia Rocha Lopes:</strong></font><font size="3"> Ent&atilde;o, ap&oacute;s, se voc&ecirc; puder me responder, eu agrade&ccedil;o.</font></p>

<p><font size="3"><strong>Gerald Thomas:</strong> Est&aacute; bom. Ent&atilde;o, vem uma pessoa de fora. Eu j&aacute; cheguei no Brasil, vamos dizer, com algumas reportagens pr&eacute;vias do meu trabalho em Nova Iorq<font color="#000000">ue de [Samuel] B</font><font color="#ff0000"><font color="#000000">eckett</font><em><font color="#000000"> </font></em><font color="#000000">q</font></font>ue n&atilde;o &eacute; um trabalho brasileiro. Eu n&atilde;o estou fazendo samba em Nova Iorque. Enfim, &eacute; Beckett, [um dos fundadores do <a href="javascript:;" onmouseover="return overlib('Como o pr&oacute;prio nome diz, o Teatro do Absurdo prop&otilde;e revelar o inusitado, mostrando as mazelas humanas e tudo que &eacute; considerado �normal� pela sociedade cujos valores morais s&atilde;o os principais respons&aacute;veis pelas crises e desgra&ccedil;as dos indiv&iacute;duos. S&atilde;o considerados fundadores do Teatro do Absurdo, Eugene Ionesco (1909-1994), romeno de nascimento, naturalizado franc&ecirc;s, autor da primeira pe&ccedil;a do g&ecirc;nero, &lt;i&gt;A cantora careca&lt;/i&gt;, que rejeitava o nome do movimento, dizendo que era um teatro realista que tratava da condi&ccedil;&atilde;o humana. O outro &eacute; Samuel Beckett (1906-1989), irland&ecirc;s que passou boa parte da vida em Paris, pr&ecirc;mio Nobel de literatura de 1969, autor do cl&aacute;ssico &lt;i&gt;Esperando Godot&lt;/i&gt; que conta a hist&oacute;ria de dois personagens que esperam ansiosos por ajuda numa terra onde nada acontece de inovador, onde tudo se repete sem cessar, obrigando os angustiados personagens a tentar iludir a tristeza e frustra&ccedil;&atilde;o. Esses e os outros textos do g&ecirc;nero abusam da ironia, intensificam neuroses e loucuras de personagens, surpreendem e divertem espectadores, promovendo a reflex&atilde;o. Al&eacute;m disso, todo o contexto foi inovador - como os objetos c&ecirc;nicos, a ilumina&ccedil;&atilde;o densa e ut&oacute;pica, al&eacute;m dos figurinos - influenciando autores de v&aacute;rias gera&ccedil;&otilde;es e contribuindo para a evolu&ccedil;&atilde;o do pensamento.', ABOVE, RIGHT, WIDTH, '280');" onmouseout="return nd();" style="cursor: default; text-decoration: none; color: #F00; z-index: 2; text-align: left;">Teatro do Absurdo</a>] um irland&ecirc;s recluso em Paris que revolucionou o teatro na d&eacute;cada de 1950. &Eacute; profundamente exclusivista, &eacute; profundamente herm&eacute;tico para o chamado grande p&uacute;blico. E quando eu cheguei para fazer <em>Quatro vezes Beckett </em>[<em>Four times Beckett</em>]<em> </em>no Rio de Janeiro, a imprensa j&aacute; estava me dando um destaque que os locais, vamos dizer, que os diretores locais n&atilde;o estavam conseguindo. &Eacute; claro que cria uma... dentro de uma classe que se baseia em ego&iacute;smo, em idolatria &agrave;s avessas, em ran&ccedil;o pessoal - nessa teoria do <font color="#000000">Oscar Wilde </font>[(1854-1900) escritor irland&ecirc;s. Escreveu entre outros o romance <em>O retrato de Dorian Gray</em> e novelas como <em>O fantasma de Canterville</em>] - de voc&ecirc; ver o teu colega fracassar para voc&ecirc; mesmo poder, de alguma forma, dar certo. Imagina o atrito que isso cria... Fora isso, existe uma peculiaridade bem brasileira que &eacute; de receber qualquer coisa com; &quot;Hum! Hum! Imagina se eu vou&quot;. A diferen&ccedil;a &eacute; que eu fiquei, eu fui ficando. N&atilde;o foi um evento isolado. S&atilde;o oito espet&aacute;culos no Brasil at&eacute; agora, em um espa&ccedil;o de dois anos e meio. Esse tipo de produ&ccedil;&atilde;o... e &oacute;peras no meio disso, n&atilde;o &eacute;? As montagens s&atilde;o meio &ldquo;oper&iacute;sticas&rdquo;. Ent&atilde;o, cada vez mais, isso &eacute; um choque para as pessoas que n&atilde;o conseguem fazer. O ran&ccedil;o vem muito da classe teatral. O p&uacute;blico, esse que responde as enquetes diariamente, depois do espet&aacute;culo... ou a cr&iacute;tica mesmo, pega os cr&iacute;ticos de teatro, n&atilde;o sentem isso na maioria. Agora, a classe teatral, essas coisas entreouvidas a&iacute;, vem de pessoas da classe teatral. &Eacute; &oacute;bvio. Eu tomei o lugar deles. Isso... Eu acho que nenhuma revolu&ccedil;&atilde;o &eacute; sem sangue.</font></p>

<p><font size="3"><strong>Ant&ocirc;nio Carlos Ferreira: </strong>Gerald Thomas, o fato de voc&ecirc; ter colocado no cat&aacute;logo n&atilde;o pode parecer que voc&ecirc; tamb&eacute;m est&aacute; &ldquo;curtindo&rdquo; a id&eacute;ia de que voc&ecirc; pode ser um autor maldito e que, portanto, isso seria o &quot;marketing Gerald Thomas&quot;.</font></p>

<p><font size="3"><strong>Gerald Thomas:</strong> Pode ser, claro. Essa hist&oacute;ria de marketing &eacute; muito engra&ccedil;ada. Marketing &eacute; uma coisa que soa como marketing. Em dois meses est&aacute; fracassado. &Eacute; uma campanha que se faz. Ela tem cheiro de marketing, ela tem sabor de marketing, portanto, n&atilde;o vigora. Vigora o tempo que o marketing traz. Se eu estou h&aacute; dois anos e meio, literalmente, trabalhando, trabalhando, estreando, escrevendo, dirigindo oito espet&aacute;culos, j&aacute; n&atilde;o se trata mais uma quest&atilde;o de marketing. Quer dizer, eu acho que, agora, &eacute; o trabalho em si. S&oacute; que as pessoas que fizeram a cr&iacute;tica desse marketing, agora, est&atilde;o em um beco mais ou menos sem sa&iacute;da. E a&iacute;? Como &eacute; que a gente sai dessa?</font></p>

<p><font size="3"><strong>Mario Prata:</strong> Gerald! Posso falar?</font></p>
<p><font size="3"><strong>Gerald Thomas:</strong> <font color="#ff0000"><font color="#000000"><em>Oui, oui. Parle.</em></font></font></font></p>
<p><font size="3"><strong>Mario Prata:</strong> &Eacute; o seguinte: eu queria te confessar em primeiro lugar, que eu tinha um preconceito com voc&ecirc;. Esse preconceito que voc&ecirc; falou, essa &ldquo;bichisse&rdquo; a&iacute;. Eu fazia parte dessa &ldquo;bichisse&rdquo;. At&eacute; que fui ver o espet&aacute;culo <em>Metamorfose</em> e fiquei &ldquo;desbundadamente&rdquo; apaixonado pelo seu trabalho, pelo seu casamento com Daniela [Thomas, destacada cen&oacute;grafa, criou o ambiente da biblioteca, considerado marcante,&nbsp;em que se desenrolam as pe&ccedil;as da&nbsp;<em>Trilogia de Kafka</em>], eu acho que &eacute; uma das coisas mais bonitas que eu j&aacute; vi em teatro, sempre. E assim, apaixonado, eu fui para minha casa, para ler o programa, que est&aacute; na m&atilde;o de todo mundo aqui, e notei uma coisa, voc&ecirc; est&aacute; falando em marketing a&iacute;. No teu programa, o nome Gerald Thomas aparece cento e sete vezes. Voc&ecirc; acha que voc&ecirc; ainda precisa disso? De colocar o nome cento e sete vezes no teu programa.</font></p>

<p><font size="3"><strong>Gerald Thomas:</strong> N&atilde;o acho. Em uma das cr&iacute;ticas em rela&ccedil;&atilde;o ao programa... O programa foi entregue ao editor, eu estava escrevendo, dirigindo, iluminando e fazendo as trilhas sonoras de tr&ecirc;s espet&aacute;culos simultaneamente. Al&eacute;m de dirigir um por telefone para Nova Iorque. Eu n&atilde;o tive tempo de fazer esse programa. Esse programa foi entregue para um jornalista chamado Edmar Pereira, que, literalmente, compilou e registrou...</font></p>
<p><font size="3"><strong>Mario Prata:</strong> Ali&aacute;s, o programa &eacute; &oacute;timo. &Eacute; muito bom. Mas tem esse detalhe, achei que ficou agressivo. Acho que voc&ecirc; n&atilde;o... Se fosse seu primeiro espet&aacute;culo <em>Quatro vezes Beckett</em>, mas hoje, como voc&ecirc; falou, voc&ecirc; est&aacute; reconhecido at&eacute; pela cr&iacute;tica e pelo p&uacute;blico. Vai l&aacute; e &eacute; o sucesso, como voc&ecirc; falou, do jovem intelectual. E voc&ecirc; falou outra coisa a&iacute;, s&oacute; para complementar a pergunta, que voc&ecirc; &eacute; dois - tem o que faz o trabalho e o que fala. E o que fala, talvez por isso eu tivesse esse preconceito, porque o que fala me assustava muito, parecia muito a <em>Folha Ilustrada</em>. A impress&atilde;o que a <em>Folha Ilustrada</em> me d&aacute; &eacute; que ela foi feita para humilhar o leitor, porque eu n&atilde;o entendo, &agrave;s vezes, eu pego a <em>Folha Ilustrada </em>e n&atilde;o consigo... &Eacute; t&atilde;o &ldquo;p&oacute;s&rdquo;, que passou, n&eacute;? [risos] E voc&ecirc;, &agrave;s vezes tamb&eacute;m. Voc&ecirc; passava eu n&atilde;o entendia o que voc&ecirc; falava. Eu n&atilde;o vou ver o espet&aacute;culo desse sujeito, porque eu n&atilde;o vou entender. E o teu espet&aacute;culo &eacute; a coisa mais clara, mais simples do mundo. N&atilde;o &eacute;, n&atilde;o &eacute;... Inclusive, o que falam de voc&ecirc;, o que a cr&iacute;tica fala de voc&ecirc;, eles complicam. Acho que eles complicam um pouco o seu trabalho. Ele &eacute; bem simples, &eacute; quase teatro infantil. Isso &eacute; um elogio, n&atilde;o &eacute; uma &ldquo;picha&ccedil;&atilde;o&rdquo;. Parei.</font></p>

<p><font size="3"><strong>[risos]</strong></font></p>
<p><font size="3"><strong>Ant&ocirc;nio Carlos Ferreira:</strong> Ele n&atilde;o tem pergunta.</font></p>
<p><font size="3"><strong>Mario Prata: </strong>N&atilde;o. A pergunta era das cento e sete vezes do programa que...</font></p>
<p><font size="3"><strong>Gerald Thomas:</strong> Eu acho um absurdo tanto quanto voc&ecirc; acha. E se a gente tivesse tido tempo de fazer uma edi&ccedil;&atilde;o... Se eu tivesse passado os olhos nisso, antes dele ser impresso, eu tamb&eacute;m faria a mesma coisa. &Eacute; aquela coisa, quer dizer, as pessoas aqui disseram assim: se ele fosse ao vivo, como sempre &eacute;, ele entra no ar &agrave;s nove sem a menor complica&ccedil;&atilde;o t&eacute;cnica, sendo gravado, ele atrasou quarenta e cinco minutos. &Eacute; a mesma coisa em rela&ccedil;&atilde;o a tudo que &eacute; o &ldquo;pr&eacute;&rdquo; de uma estr&eacute;ia. O programa &eacute;, talvez, a &uacute;ltima preocupa&ccedil;&atilde;o que se tenha. Principalmente porque foi uma coisa rodada, literalmente, na madrugada da estr&eacute;ia, ningu&eacute;m viu. Quando viu, j&aacute; est&aacute; tarde demais, j&aacute; tem dez mil exemplares, t&ecirc;m que ser vendido.</font></p>

<p><font size="3"><strong>Ant&ocirc;nio Carlos Ferreira:</strong> Maria Am&eacute;lia. Por favor.</font></p>
<p><font size="3"><strong>Maria Am&eacute;lia Rocha Lopes:</strong> Gerald, agora posso?</font></p>
<p><font size="3"><strong>Gerald Thomas:</strong> Agora, voc&ecirc; pode.</font></p>

<p><font size="3"><strong>Maria Am&eacute;lia Rocha Lopes:</strong> Obrigada pela concess&atilde;o especial! Em uma das entrevistas suas que li, publicada em jornal, voc&ecirc; dizia, espero que seja verdade, estava ali escrito, entre aspas, voc&ecirc; disse que o teatro nacional era um muzak [palavra usada para se referir &agrave;&nbsp;m&uacute;sica de elevador, de supermercado, considerada uma m&uacute;sica&nbsp;alienada e alienante],&nbsp;em geral &eacute; um muzak. A&iacute;, completando &agrave;quela primeira pergunta, quando interrompi a sua resposta, que espa&ccedil;o voc&ecirc; ocupa dentro desse muzak?</font></p>

<p><font size="3"><strong>Gerald Thomas</strong>: Eu n&atilde;o me incluo dentro disso. Se me inclu&iacute;rem dentro disso, eu n&atilde;o posso fazer nada. Quer dizer, isso cabe aos acad&ecirc;micos, historiadores. E tem uma frase que eu uso na pe&ccedil;a <em>Um processo</em>, que eu falo assim: &ldquo;eu acho que deve se tratar o academicismo como leitura subversiva. Vai-se a ela &agrave;s escondidas, toda vez que a oportunidade surge&rdquo;. Eu acho que n&atilde;o cabe a mim determinar o espa&ccedil;o, nem sequer tomar conhecimento disso.</font></p>
<p><font size="3"><strong>Maria Am&eacute;lia Rocha Lopes: </strong>Mas, quando voc&ecirc; fala que o que se v&ecirc; no teatro nacional &eacute; muzak, e voc&ecirc; n&atilde;o se inclui nele, voc&ecirc; j&aacute; deve estar sabendo que posi&ccedil;&atilde;o voc&ecirc; tem, se voc&ecirc; n&atilde;o &eacute; aquilo, alguma outra coisa voc&ecirc; &eacute;.</font></p>

<p><font size="3"><strong>Gerald Thomas:</strong> N&atilde;o, n&atilde;o, n&atilde;o. Eu fa&ccedil;o uma exclus&atilde;o do que eu chamo teatro experimental. Se esse teatro experimental &eacute; financiado ou &eacute; experimental com dois peda&ccedil;os de madeira e uma luz, aquela coisa, isso tamb&eacute;m n&atilde;o cabe a mim definir. O que eu digo &eacute;: onde existe pensamento, onde existe o debate do pensamento, o debate de consci&ecirc;ncias que &eacute;, em pr&aacute;tica, o que a gente vive, que &eacute; chamado de filosofia atrav&eacute;s dos anos, atrav&eacute;s dos mil&ecirc;nios. Quando acontece isso, ligado &agrave; criatividade, &agrave; inventividade, &agrave; obsess&atilde;o de uma pessoa querendo falar [...] - que eu acho que o teatro &eacute; a respeito disso, desde os gregos &eacute; a respeito disso. Ent&atilde;o, o teatro tem esses aspectos psicossom&aacute;ticos, psicanal&iacute;ticos, terap&ecirc;uticos, agressivos. Quando eu vejo isso acontecer, e existem [muitos] diretores no Brasil que fazem isso. Eu j&aacute; n&atilde;o me incluo nesses noventa e tantos por cento que &eacute; m&uacute;sica de elevador ou muzak, como eles falam. Se uma coisa ficou clara nesses dois anos e meio que eu estou no Brasil &eacute; que, realmente, eu falo exatamente aquilo que eu quero falar; eu n&atilde;o tenho o menor problema de diplomacia. Eu acho que o teatro que &eacute; feito no Brasil, ou melhor, 92,5% do teatro que &eacute; feito no Brasil, uma agress&atilde;o, um desrespeito ao pensamento cont&iacute;nuo de uma sociedade. Em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; pol&iacute;tica, filosofia, cultura, economia e seja l&aacute; o que for. &Eacute; uma agress&atilde;o, &eacute; um desrespeito. N&atilde;o est&aacute; diferente da Volkswagen do Brasil, da Chevrolet do Brasil, da Ford do Brasil de fabricarem um carro de qualidades inferiores ao que eles produzem nos pa&iacute;ses de onde eles v&ecirc;m, e cobrar um pre&ccedil;o mais caro do que o que eles fabricam no pa&iacute;s de onde eles v&ecirc;m. Quer dizer, &eacute; a mesma coisa o tempo todo. Ou seja, &eacute; a explora&ccedil;&atilde;o da classe m&eacute;dia, n&atilde;o &eacute;? E eu n&atilde;o tenho a menor rela&ccedil;&atilde;o com a classe m&eacute;dia, na verdade eu repito sempre aquela coisa que pode j&aacute; parecer muito chata, eu n&atilde;o tomo muito conhecimento do meu p&uacute;blico, no sentido de que eu n&atilde;o sei quem s&atilde;o, realmente. Quando eu digo que fa&ccedil;o teatro para poucas pessoas, eu me preocupo com poucas pessoas, eu me preocupo com vinte pessoas, a opini&atilde;o dessas vinte pessoas conta demais. Quer dizer, eu enxergo, eu reconhe&ccedil;o vinte, trinta, quarenta pessoas na plat&eacute;ia. O resto eu n&atilde;o sei se s&atilde;o de classe m&eacute;dia, ou se s&atilde;o estudantes que vieram de Marte, ou se s&atilde;o fabricadores de massa de tomate. Eu n&atilde;o sei quem s&atilde;o, e nem quero saber. Dessa maneira eu me isolo, mais ou menos, do lado de c&aacute; do palco.</font></p>

<p><font size="3"><strong>Ant&ocirc;nio Carlos Ferreira:</strong> Ilka, por favor, a sua pergunta.</font></p>
<p><font size="3"><strong>Ilka Marinho Zanotto:</strong> Primeiro eu quero perguntar ao Mario se <em>Metamorfose</em> &eacute; a primeira obra de Gerald que voc&ecirc; v&ecirc;?</font></p>
<p><font size="3"><strong>Mario Prata: </strong>Foi a &uacute;nica.</font></p>

<p><font size="3"><strong>Ilka Marinho Zanotto:</strong> Bem, sorte sua, em outros dois casos, porque eu s&oacute; vi tr&ecirc;s. Um foi <em>Eletra com Creta</em> (1986), outro <em>Carmem com filtro</em> (1989) e, agora, <em>Metamorfose</em> [Faz parte de uma s&eacute;rie de tr&ecirc;s pe&ccedil;as teatrais baseada na obra de Kafka: <em>Um processo</em>, <em>Uma metamorfose</em> e <em>Praga</em>]. Eu n&atilde;o vi <em>Quatro vezes Beckett</em> (1986), n&atilde;o vi <em>Quartett (1986)</em> e n&atilde;o vi [a &oacute;pera] <em>O navio fantasma</em> (1987). Ent&atilde;o, acontece que esses outros tr&ecirc;s...</font></p>

<p><font size="3"><strong>Gerald Thomas:</strong> E n&atilde;o viu <em>Um processo</em>.</font></p>
<p><font size="3"><strong>Ilka Marinho Zanotto</strong>: Principalmente. <em>Quatro vezes Beckett</em> sei de fonte limpa, pois a fonte &eacute; S&aacute;bato Magaldi [cr&iacute;tico teatral] que &eacute; extraordinariamente bom. <em>Eletra com Creta </em>e <em>Carmem com filtro,</em> o que me irritava n&atilde;o &eacute; a parte artesanal, visual, pl&aacute;stica, formal de iluminador, de artista, etc, que tem o Gerald, e &eacute; ineg&aacute;vel, tanto os cen&aacute;rios dele quanto...o que me irritava profundamente era um texto que era um &quot;nonsense&quot; deliberado, porque ele pretendia dizer e n&atilde;o dizia, n&atilde;o tinha l&oacute;gica, era il&oacute;gico. Tanto que o t&iacute;tulo da minha ficha no Caderno Dois<em> </em>[suplemento de domingo do jornal <em>O Estado de S. Paulo</em>]<em>,</em> que n&atilde;o fui eu que pus, foi bestial&oacute;gico, tedioso e etc. Ent&atilde;o, era essa parte que me irritava. Em<em> Metamorfose</em> houve o respeito do texto de Kafka, e mesmo o que o Gerald acrescentou estava, n&atilde;o s&oacute; com senso, como ligado ao contexto, como foi um espet&aacute;culo bel&iacute;ssimo. Eu, ontem, realmente, me rendi &agrave; arte do Gerald, porque pela primeira vez, no meu ver... N&atilde;o vi <em>Um Processo</em>, estava...</font></p>

<p><font size="3"><strong>Mario Prata</strong>: Porque eu via tamb&eacute;m essa cr&iacute;tica, eu acho que o texto...</font></p>
<p><font size="3"><strong>[risos]</strong></font></p>
<p><font size="3"><strong>Gerald Thomas: </strong>Eu acho que fracassei.</font></p>
<p><font size="3"><strong>Ilka Marinho Zanotto:</strong> &Eacute;. Exatamente.</font></p>
<p><font size="3"><strong>Gerald Thomas:</strong> Vou ter que tirar de cartaz.</font></p>

<p><font size="3"><strong>Ilka Marinho Zanotto:</strong> N&atilde;o. S&oacute; deixa-me falar da<em> Metamorfose</em> para terminar. Achei um espet&aacute;culo que tem uma respira&ccedil;&atilde;o bel&iacute;ssima, como de um animal vivo, inclusive, os blecautes, voc&ecirc; sente aquela pulsa&ccedil;&atilde;o do verdadeiro espet&aacute;culo, da verdadeira obra de teatro. Eu n&atilde;o acho que o Gerald seja assim um inovador absoluto, porque como na outra cr&iacute;tica, que eu fiz quest&atilde;o de dizer, e reagindo a sua posi&ccedil;&atilde;o na imprensa, em dizer que n&oacute;s est&aacute;vamos cinq&uuml;enta anos atrasados, &eacute;ramos tupiniquins e n&atilde;o conhec&iacute;amos nada. E eu tenho o maior respeito pelo que n&oacute;s fazemos no Brasil. Eu reagi querendo mostrar as fontes do Gerald, e que eu assisti a todas. Porque eu j&aacute; tenho uma idade que me permitiu com as viagens, assistir a tudo isso que informa. N&atilde;o quero com isso dizer que ele esteja colonizado, quero dizer que ele assimilou muit&iacute;ssimo bem, todas essas influ&ecirc;ncias, que v&atilde;o do Tadeusz Kantor [(1915-1990), artista polon&ecirc;s, pintor, cen&oacute;grafo e encenador. Criou espet&aacute;culos que ficaram&nbsp; conhecidos mundialmente, como <em>A classe morta</em>] ao Richard Foreman [respons&aacute;vel pela cria&ccedil;&atilde;o do teatro de imagens e do movimento performativo - microfones, cassetes, fios, cordas, objetos], do Ontological-</font><font size="3">Hysterical</font><font size="3"> Theater [em Nova Iorque]. Inclusive, o que ele escreve parece muito com os manifestos do Richard Foreman, s&oacute; que dentro da loucura do Richard, h&aacute; uma logicidade. Eu procurei, assim, exaustivamente nos textos do Gerald, essa logicidade e n&atilde;o encontrei. Encontrei um Heiner M&uuml;ller [(1930-1959), um dos mais importantes dramaturgos da Rep&uacute;blica Democr&aacute;tica Alem&atilde;; recebeu os pr&ecirc;mios Heinrich Mann (1959) e Kleist (1990). Suas principais pe&ccedil;as de teatro s&atilde;o:<em> Quartett</em> e <em>Hamletmachine</em>] que n&atilde;o chega a ser.... Ent&atilde;o, Gerald, foram os textos que me grilaram. E minha cr&iacute;tica, talvez, tenha sido mais contundente por causa da [sua] posi&ccedil;&atilde;o diante do que se faz aqui. Eu achei que n&atilde;o estava se respeitando o trabalho de criadores imensos que n&oacute;s temos, como Antunes Filho, Naum Alves de Souza, Fl&aacute;vio Rangel [tr&ecirc;s destacados diretores de teatro brasileiros], nos seus tempos idos e outras pessoas. Quer dizer, n&oacute;s fizemos j&aacute; muita... E, principalmente gente do interior. Eu vou &agrave; festivais nacionais por a&iacute;, e vejo o pessoal de Vital Santos de Caruaru, [Pernambuco] a turma da Gralha Azul de Santa Catarina, tem gente incr&iacute;vel do teatro do Par&aacute;, do T&aacute;cito Borralho, da Cobra Norato...</font></p>

<p><font size="3"><strong>Mario Prata: </strong>Londrina.</font></p>
<p><font size="3"><strong>Ilka Marinho Zanotto:</strong> Ent&atilde;o, tem gente incr&iacute;vel fazendo teatro nesse Brasil, que eu acho uma falta de respeito dizer isso. Agora, hoje, ele me deu uma porcentagem bem mais adequada, noventa e dois v&iacute;rgula tantos por cento...</font></p>
<p><font size="3"><strong>Mario Prata:</strong> Mas hoje ele falou que &eacute; um falando, e um fazendo. Estou me referindo a um fazendo, que eu achei, realmente...</font></p>
<p><font size="3"><strong>Ilka Marinho Zanotto:</strong> N&atilde;o. Foi maravilhoso. <em>Metamorfose</em>, eu acho que est&aacute; o Kafka ali. Eu achei uma interpreta&ccedil;&atilde;o moderna, adequada, aderente ao significado de Kafka. E, exatamente, eu acho que a contradi&ccedil;&atilde;o que havia antes est&aacute; aqui, expl&iacute;cita aqui. Eu n&atilde;o sei quem escreveu... Se foi o Edmar Pereira...</font></p>

<p><font size="3"><strong>Gerald Thomas:</strong> Os telespectadores...</font></p>
<p><font size="3"><strong>Ilka Marinho Zanotto:</strong> &ldquo;A constata&ccedil;&atilde;o da precariedade, superficialidade e formalidade da linguagem &eacute; uma das bases do seu teatro. Junto com sua paix&atilde;o pelas artes pl&aacute;sticas, os livros e a m&uacute;sica&rdquo;. O que &eacute; que s&atilde;o os livros, sen&atilde;o a linguagem.</font></p>

<p><font size="3"><strong>[interrompida]</strong></font></p>
<p><font size="3"><strong>Ilka Marinho Zanotto:</strong> Se a linguagem &eacute; prec&aacute;ria, formal e superficial. Ent&atilde;o, os livros o que s&atilde;o? Que paix&atilde;o por livros? O que o livro tem? Que a linguagem aqui n&atilde;o &eacute; entendida como meio, &eacute; entendida como antes, fala ingl&ecirc;s, alem&atilde;o, etc. A l&iacute;ngua falada ou escrita, ent&atilde;o, &eacute; esse paradoxo vivo que ele tenta alimentar, ou que ele &eacute;, e que talvez seja at&eacute; fascinante. Mas &eacute; o que irrita no momento em que ele se coloca como porta-voz &uacute;nico do verdadeiro teatro. Na hora em que ele reconhece que noventa e dois v&iacute;rgula por cento n&atilde;o &eacute;, mas que existe gente fazendo o verdadeiro teatro, ent&atilde;o, eu estou de acordo com ele.</font></p>

<p><font size="3"><strong>Gerald Thomas: </strong>O Brasil n&atilde;o tem uma tradi&ccedil;&atilde;o de debate. Quer dizer, voc&ecirc;s n&atilde;o ag&uuml;entam neste pa&iacute;s uma figura que &eacute;, inclusive, uma esp&eacute;cie de bobo da corte. Voc&ecirc;s n&atilde;o ag&uuml;entam uma pessoa que tem vis&atilde;o, obsess&atilde;o e que sofre. Eu n&atilde;o posso falar pelo <font color="#000000">Jo&atilde;o Goulart</font> [(1919 -1976) presidente do Brasil entre 1961 e 1964. Foi deposto da dirig&ecirc;ncia do pa&iacute;s por meio de um golpe militar organizado pelo ex&eacute;rcito brasileiro em 1964], eu at&eacute; gostaria de tentar. Eu talvez voltasse vinte, vinte e quatro anos no tempo. Eu falo por mim. Eu n&atilde;o autorizo e desautorizo absolutamente nada. Se eu consigo criar paralelos na imprensa que me ap&oacute;iam, e que embarcam nisso, s&oacute; quer dizer que eu estou tendo algum respaldo. Agora, o direito de dizer &eacute; uma coisa que voc&ecirc; n&atilde;o assimilou no exterior.<br />

</font></p>
<p><font size="3"><strong>Ilka Marinho Zanotto:</strong> Como o direito de dizer, assim mesmo...</font></p>
<p><font size="3"><strong>Gerald Thomas</strong>: O direito de dizer o que quiser, quer dizer...</font></p>
<p><font size="3"><strong>Ilka Marinho Zanotto:</strong> No momento que voc&ecirc; fala que todo o teatro brasileiro &eacute; de besteirol, &eacute; besteirinha, eu n&atilde;o aceito.</font></p>

<p><font size="3"><strong>Gerald Thomas:</strong> Ent&atilde;o, est&aacute;! Eu falei noventa e dois por cento, ent&atilde;o est&aacute;! S&oacute; para te irritar mais ainda, ent&atilde;o agora eu vou dizer cento e quarenta e dois por cento, e da&iacute;? Que import&acirc;ncia tem isso? Se cada um diz o que quer, voc&ecirc; entende? Agora, olha que engra&ccedil;ado, quer dizer, eu falo essas coisas e te irrito e voc&ecirc; est&aacute; aqui e est&aacute; todo mundo aqui, debatendo isso...</font></p>

<p><font size="3"><strong>Ilka Marinho Zanotto:</strong> Eu acho importante o seu trabalho, o de ontem, fant&aacute;stico.</font></p>
<p><font size="3"><strong>Gerald Thomas:</strong> N&atilde;o. N&atilde;o &eacute; o meu trabalho. O que voc&ecirc; est&aacute; debatendo agora, pela primeira vez, talvez, chega na televis&atilde;o o debate sobre a fragilidade do teatro brasileiro. Ent&atilde;o, de uma certa forma, gra&ccedil;as a eu ter dito isso, h&aacute; dois anos e meio e agora, &eacute; que est&aacute; se debatendo isso, que pode virar um grande debate nacional.</font></p>

<p><font size="3"><strong>Ilka Marinho Zanotto:</strong> N&atilde;o &eacute; verdade, Gerald. Gerald, n&atilde;o &eacute; verdade.</font></p>
<p><font size="3"><strong>Ant&ocirc;nio Carlos Ferreira:</strong> Um momentinho. Gerald, tem muita gente agora querendo fazer perguntas. Ent&atilde;o, vamos fazer uma ordem, a Vivien que pediu primeiro, depois o M&aacute;rio, depois Labaki.</font></p>

<p><font size="3"><strong>Vivien Lando:</strong> Gerald, ent&atilde;o, eu queria saber, voltando um pouco naquele papo anterior...</font></p>
<p><font size="3"><strong>Gerald Thomas: </strong>Qual papo anterior?</font></p>
<p><font size="3"><strong>Vivien Lando: </strong>Que voc&ecirc; estava falando, voc&ecirc; vai entender. Quando voc&ecirc; est&aacute; criando um texto, dirigindo, etc, montando um espet&aacute;culo e citando, [voc&ecirc; faz] uma s&eacute;rie de cita&ccedil;&otilde;es no meio, n&atilde;o &eacute;? Voc&ecirc; est&aacute; citando porque voc&ecirc; quer, porque &eacute; uma esp&eacute;cie de descarrego, ou para as pessoas entenderem, ou por outros motivos?</font></p>

<p><font size="3"><strong>Gerald Thomas: </strong>&Eacute; um descarrego meu. A Ilka falou em Heiner M&uuml;ller. &Eacute; muito engra&ccedil;ado quando as pessoas de fora comentam coisas familiares. Heiner M&uuml;ller &eacute; uma pessoa com quem eu trabalho constantemente. Eu fiz a premi&egrave;re americana de <em>Quartett </em>e trouxe para o Brasil tamb&eacute;m. E &eacute; ineg&aacute;vel, &eacute; ineg&aacute;vel a influ&ecirc;ncia do Heiner M&uuml;ller sobre o meu trabalho, inclusive eu vim de Beckett, que &eacute; o reducionista m&aacute;ximo, ao exagerador m&aacute;ximo que &eacute; o Heiner M&uuml;ller. Quer tossir? Pode tossir. Quer tossir?</font></p>

<p><font size="3"><strong>Vivien Lando: </strong>N&atilde;o.</font></p>
<p><font size="3"><strong>Gerald Thomas: </strong>N&atilde;o. &Eacute;...</font></p>
<p><font size="3"><strong>Ant&ocirc;nio Carlos Ferreira:</strong> Thomas, s&oacute; um momentinho, por favor. Eu gostaria que voc&ecirc; explicasse quem &eacute; Heiner M&uuml;ller para o telespectador.</font></p>

<p><font size="3"><strong>Gerald Thomas: </strong>Heiner M&uuml;ller &eacute;...</font></p>
<p><font size="3"><strong>Ant&ocirc;nio Carlos Ferreira:</strong> N&oacute;s estamos em televis&atilde;o. O p&uacute;blico &eacute; bem mais amplo do que os vinte que voc&ecirc; reconhece na plat&eacute;ia.</font></p>

<p><font size="3"><strong>Gerald Thomas</strong>: Heiner M&uuml;ller veio do&nbsp; Berliner Ensemble [companhia de teatro alem&atilde; fundada por Brecht], trabalhou diretamente com o Brecht [Bertolt Brecht (1898-1956) dramaturgo, poeta e encenador. Brecht foi respons&aacute;vel por aprofundar o m&eacute;todo de interpreta&ccedil;&atilde;o do teatro &eacute;pico, que &eacute; uma das grandes teorias de interpreta&ccedil;&atilde;o do s&eacute;culo XX. Algumas de suas principais obras s&atilde;o: <em>Um homem &eacute; um homem</em>, <em>M&atilde;e coragem e seus filhos </em>e <em>A vida de Galileu</em>], era um poeta que, aos dezessete anos chegou para o Brecht e falou: &quot;eu queria trabalhar com voc&ecirc;. Essas s&atilde;o as minhas poesias&quot;. O Brecht leu as poesias e falou... Falou exatamente o que a Ilka est&aacute; dizendo para mim: &ldquo;Voc&ecirc; n&atilde;o presta para escrever, &eacute; um absurdo&rdquo;. Ali&aacute;s, eu estou em boa companhia: [Gustave] Flaubert [(1821-1880) escritor franc&ecirc;s. &Eacute; autor das obras: <em>A tenta&ccedil;&atilde;o de santo Antonio</em> (1874), <em>Educa&ccedil;&atilde;o sentimental</em> (1869), entre outros], Samuel Beckett e Oswald de Andrade [(1890-1954) escritor, ensa&iacute;sta e dramaturgo brasileiro. Foi um dos grandes nomes do modernismo liter&aacute;rio], todos receberam isso na cara, de que os textos n&atilde;o t&ecirc;m l&oacute;gicas. O Brecht falou assim: &ldquo;As suas poesias s&atilde;o um fracasso, voc&ecirc; n&atilde;o d&aacute; para escrever, mas escuta. Faz um favor para mim, traduza a obra completa de Shakespeare para o alem&atilde;o&rdquo;. E o Heiner ficou... bom... foi uma das melhores coisas que aconteceu com ele. Aos dezessete anos e meio ele estava traduzindo a obra completa de Shakespeare para o alem&atilde;o, algumas das coisas, como <em>Coriolano</em> [<em>A trag&eacute;dia de Coriolano</em>]. Depois o Brecht montou - foi uma das montagens mais influentes no teatro de hoje - &eacute; fragmentado [...] E a partir de 1968, 1969, quando o Heiner M&uuml;ller, que &eacute; da Alemanha Oriental [at&eacute; hoje], conseguiu um passe livre, come&ccedil;ou a transitar pela Alemanha Ocidental e trabalhar numa cidade do norte alem&atilde; chamada Bochum, e em Bremen, e em Frankfurt e come&ccedil;ou a dar uma vaz&atilde;o um pouco mais material. Come&ccedil;ou a explorar o espa&ccedil;o dele mais materialmente. Come&ccedil;ou a tomar, talvez o lugar, n&atilde;o tomou ainda, mas come&ccedil;ou a tomar o lugar que Samuel Beckett teve at&eacute;... tem at&eacute; hoje. O Beckett ainda &eacute; o maior teatr&oacute;logo vivo e n&atilde;o ser&aacute; substitu&iacute;do porque, ao contr&aacute;rio dos brasileiros, eu n&atilde;o acho que tenha que ter uma pessoa e o resto tenha que fracassar para que essa uma pessoa exista. Existe lugar para todos, n&atilde;o &eacute;? Mas o Heiner M&uuml;ller est&aacute; chegando bem perto da import&acirc;ncia, da influ&ecirc;ncia dele no mundo. Ent&atilde;o, Heiner &eacute; um fragmentista e &eacute; uma pessoa que me causou muito impacto por incestuar a B&iacute;blia com Shakespeare, com Flaubert, com o Dante [Alighieri], com o pr&oacute;prio Beckett, com o Brecht, enfim, tudo. Uma frase em cada coisa. &Eacute; claro, Ilka, que eu n&atilde;o cheguei perto do Heiner M&uuml;ller. Se eu tivesse chegado perto do Heiner M&uuml;ller, eu provavelmente estaria sentado em um programa desses, em Frankfurt. Eu n&atilde;o sei se seria mais ou menos agrad&aacute;vel, mas enfim. &Eacute; claro, essas pequenas coisas s&atilde;o &oacute;bvias, mas enfim, &eacute; o descarrego que importa para mim. Eu acho que &eacute; atrav&eacute;s de uma met&aacute;fora, que esse descarrego promove, &eacute; um erro para as pessoas. Eu acho um erro para as pessoas julgarem texto desassociado de cen&aacute;rio, desassociado de luz, de movimenta&ccedil;&atilde;o c&ecirc;nica de atores, de respira&ccedil;&atilde;o, de vassoura, de cabelo, de p&oacute; no palco, de fuma&ccedil;a -&nbsp; &eacute; tudo uma coisa s&oacute;. Eu vou me estender nessa resposta. Perd&atilde;o, mas voc&ecirc; n&atilde;o vai cortar n&atilde;o, de jeito nenhum. Sen&atilde;o, eu saio daqui, arranco o microfone e vou embora. &Eacute;... Est&aacute; vendo? Met&aacute;fora &eacute; o que eu estou querendo fazer. O texto tem pouqu&iacute;ssima import&acirc;ncia, ou melhor, tem import&acirc;ncia no percentual dos ingredientes que comp&otilde;em o teatro. Se s&atilde;o sete ingredientes, ele tem um s&eacute;timo de import&acirc;ncia. Se s&atilde;o vinte, ent&atilde;o ele tem um vig&eacute;simo em import&acirc;ncia. O texto n&atilde;o &eacute; em si uma coisa que deveria ser publicada e lida isoladamente. Agora, com essa &ldquo;verborragia&rdquo;, essa &ldquo;hemorragia verbal&rdquo; de palavras, mais uma determinada imagem, que, &agrave;s vezes, &eacute; o pr&oacute;prio contr&aacute;rio do que eu estou dizendo verbalmente, mais uma luz que &eacute; o pr&oacute;prio contr&aacute;rio do que eu estou dizendo cenicamente, eu viso imprimir na pessoa uma met&aacute;fora e, sem d&uacute;vida nenhuma, eu consigo isso. Disso n&atilde;o h&aacute; a menor d&uacute;vida.</font></p>

<p><font size="3"><strong>Vivien Lando: </strong>Pois &eacute;! Mas a&iacute; s&oacute; para complementar. Voc&ecirc; faz por voc&ecirc; e pressup&otilde;e que voc&ecirc; vai falar direto com a alma do espectador, sem ser julgado analiticamente, &eacute; isso?</font></p>

<p><font size="3"><strong>Gerald Thomas:</strong> Eu juro para voc&ecirc; que n&atilde;o pressuponho muita coisa. &Eacute; mais uma tradi&ccedil;&atilde;o, talvez, que n&atilde;o seja muito plaus&iacute;vel no Brasil pela precariedade financeira. A minha rela&ccedil;&atilde;o com o meu teatro &eacute; muito parecida com a rela&ccedil;&atilde;o de um pintor com a tela dele. Ele n&atilde;o est&aacute; muito... - eu acho, pelo menos, eu espero realmente que n&atilde;o esteja - muito preocupado com a exposi&ccedil;&atilde;o que vem depois. &Eacute; muito o contr&aacute;rio de Marcel Duchamp [(1887-1968) pintor e escultor. Inventor do <em>ready made</em>], que pegava um urinol, botava, fazia daquilo um<font color="#000000"> </font><font color="#ff0000"><font color="#000000"><em>ready made</em> [atitude anti-arte, que marcou o <a href="javascript:;" onmouseover="return overlib('Terminada a Primeira Guerra Mundial, o contexto da Europa - esfacelada e arruinada - n&atilde;o era animador. Na arte surge o dada&iacute;smo, como express&atilde;o do desencanto e da desilus&atilde;o e marcado por uma forte cr&iacute;tica &agrave; concep&ccedil;&atilde;o de progresso e acumula&ccedil;&atilde;o de riquezas. Embora tenha come&ccedil;ado em Zurique, o movimento tornou-se internacional e se expandiu para lugares como Berlim, Hanover e Paris. A palavra &quot;dada&quot;, que em franc&ecirc;s significa &quot;cavalo de pau&quot;, foi tomada ao acaso pelos dada&iacute;stas para criar um contra-senso na escultura e pintura. O lema era produzir arte numa atmosfera anti-arte, subvertendo as conven&ccedil;&otilde;es art&iacute;sticas. Marcel Duchamp, Max Ernst e Jean Arp s&atilde;o alguns de seus principais representantes.', ABOVE, RIGHT, WIDTH, '280');" onmouseout="return nd();" style="cursor: default; text-decoration: none; color: #F00; z-index: 2; text-align: left;">movimento dada&iacute;sta</a></font><font color="#000000">]</font></font><font color="#000000"> </font>e tinha uma preocupa&ccedil;&atilde;o de manifesto com aquela coisa toda. Eu tenho uma rela&ccedil;&atilde;o muito &iacute;ntima com o teatro que eu fa&ccedil;o. Como aquilo vai ser assimilado pelo p&uacute;blico n&atilde;o &eacute; mais preocupa&ccedil;&atilde;o minha, em termos, quer dizer, no momento em que ele est&aacute; sendo concebido, isso n&atilde;o &eacute; levado em considera&ccedil;&atilde;o. Eu levo isso em considera&ccedil;&atilde;o as dez e quarenta e cinco da noite, quando o espet&aacute;culo terminou, a&iacute; sim.</font></p>

<p><font size="3"><strong>Ant&ocirc;nio Carlos Ferreira: </strong>Gerald, voc&ecirc; tem total liberdade para responder aqui, n&atilde;o entendi, inclusive, a sua insinua&ccedil;&atilde;o antes de responder a pergunta. O programa <strong>Roda Viva</strong> &eacute; um programa... a caracter&iacute;stica b&aacute;sica dele &eacute; a liberdade. Eu s&oacute; estou preocupado com que todas as pessoas aqui presentes, fa&ccedil;am, pelo menos uma pergunta na primeira parte do programa.</font></p>

<p><font size="3"><strong>Gerald Thomas:</strong> Uma s&oacute; hein!</font></p>
<p><font size="3"><strong>Ant&ocirc;nio Carlos Ferreira:</strong> M&aacute;rio Masetti, por favor.</font></p>
<p><font size="3"><strong>M&aacute;rio Masetti:</strong> Eu queria. Eu n&atilde;o consegui descobrir at&eacute; agora a simplicidade que o Mario Prata viu nos seus espet&aacute;culos, mas, inegavelmente, eu acho uma coisa da maior import&acirc;ncia. Eu acho profundamente importante. O que me preocupa um pouco &eacute; o outro lado, e a Ilka tentou levantar os outros noventa e tantos por cento de potencial de teatro no Brasil, que eu acho que est&aacute; sendo deixado um pouco de lado, n&atilde;o s&oacute; por voc&ecirc;, mas por toda uma certa preocupa&ccedil;&atilde;o como a vanguarda, entre aspas, vamos falar assim, que est&aacute; deixando de lado e est&aacute; afastando dos teatros um p&uacute;blico mais popular, vamos dizer assim, um p&uacute;blico mais... que estaria vendo hoje o jogo Corinthians e o Palmeiras, e n&atilde;o este programa. Ent&atilde;o, eu queria saber um pouco mais detalhada essa parte. Se existe mesmo [ou] se n&atilde;o existe mesmo essa sua preocupa&ccedil;&atilde;o com o p&uacute;blico de teatro e, segundo, como voc&ecirc; v&ecirc; o ator inserido no seu trabalho. Eu falo isso em fun&ccedil;&atilde;o, um pouco, dos espet&aacute;culos que eu vi, que... eu sinto que tem muito trabalho de ator, mas n&atilde;o &eacute; o trabalho realizado pelo ator, &eacute; um trabalho que o ator executa a partir de uma solicita&ccedil;&atilde;o sua, digamos assim. N&atilde;o sei se eu consegui ser claro, eu n&atilde;o tenho muita intimidade de falar com a c&acirc;mera.</font></p>

<p><font size="3"><strong>Gerald Thomas: </strong>Olha, deixa eu dizer uma coisa, &eacute; engra&ccedil;ado quando se bate nessa tecla, o teatro brasileiro! Meu Deus! Ningu&eacute;m percebe at&eacute; hoje, ou percebeu, me parece, que a coisa &eacute;<font color="#000000"> </font><font color="#000000">ecol&oacute;gica,</font> independe de mim. Meu Deus do c&eacute;u! Se eu tiver a for&ccedil;a de matar o teatro brasileiro, se voc&ecirc;s est&atilde;o realmente t&atilde;o preocupados, ent&atilde;o, eu acho que Deus me deu uma for&ccedil;a que eu ainda n&atilde;o conhe&ccedil;o. Eu sei que eu sou um escolhido por Deus, de uma forma ou de outra, mas n&atilde;o tanto, n&atilde;o como censor, pelo menos, n&atilde;o &eacute;? Ou n&atilde;o como uma autoridade. Mas pare&ccedil;o ter esse efeito sobre as pessoas. Agora, a ecologia tem que ser respeitada, ou <font color="#000000">Darwin [</font>(1809-1882), bi&oacute;logo e naturalista brit&acirc;nico que se notabilizou pela teoria sobre a evolu&ccedil;&atilde;o das esp&eacute;cies por meio da sele&ccedil;&atilde;o natural] tem que ser respeitado - o que &eacute; bom fica, o que n&atilde;o &eacute; bom desaparece. Se est&aacute; todo mundo, desesperadamente tentando salvar alguma coisa, &eacute; porque essa coisa est&aacute; enferma, ou n&atilde;o? Claro que sim. Se n&atilde;o, isso n&atilde;o seria assunto. Quer dizer, se a coisa virou assunto da maneira como &eacute;, &eacute; t&atilde;o &oacute;bvio...</font></p>

<p><font size="3"><strong>M&aacute;rio Masetti:</strong> Eu acho que a gente vive em uma sociedade que tem uma s&eacute;rie de coisas em volta que alijam outras coisas. Ent&atilde;o, de repente, eu acho que existe toda uma m&iacute;dia, todo um processo ali de marketing, a gente mesmo falou sobre isso, que, de repente, p&otilde;e de lado uma outra perspectiva do teatro.</font></p>
<p><font size="3"><strong>Gerald Thomas:</strong> Eu n&atilde;o acho que m&iacute;dia seja marketing. Isso &eacute; desrespeitar a m&iacute;dia. Marketing &eacute; uma coisa colateral. O marketing pode ter uma impress&atilde;o muito forte sobre a m&iacute;dia, pode ter at&eacute; um suborno sobre a m&iacute;dia. Mas, m&iacute;dia &eacute; m&iacute;dia. Ela existiu em todas as sociedades, desde que a gente se conhece por...</font></p>

<p><font size="3"><strong>M&aacute;rio Masetti:</strong> Estou querendo discutir o acesso a essa m&iacute;dia. &Eacute; s&oacute; isso.</font></p>
<p><font size="3"><strong>Gerald Thomas:</strong> O acesso a essa m&iacute;dia &eacute; decidido pelos editores, pelos donos de jornais, pelos pauteiros, que dizer, eu duvido, sinceramente, duvido que os grandes jornais... voc&ecirc; vai conseguir se impor atrav&eacute;s da coisa chamada marketing, culturalmente falando. Isso &eacute; coisa de divulgador, eles t&ecirc;m um certo impacto para aquele espa&ccedil;o reservado &agrave; divulga&ccedil;&atilde;o. O resto &eacute; vontade filos&oacute;fica, ideol&oacute;gica de um editor de jornal. Esse aspecto de &quot;denegrir&quot; as poucas coisas que existem dentro de uma sociedade, que tornam ela plaus&iacute;vel e vi&aacute;vel no dia a dia, &eacute; tamb&eacute;m uma peculiaridade de que eu n&atilde;o gosto muito nesse pa&iacute;s. Ao contr&aacute;rio de ficar reclamando e de ser um<font color="#000000"> </font><font color="#000000">Tel&ecirc; Santana [t&eacute;</font>cnico da sele&ccedil;&atilde;o brasileira em 1982 e 1986] nos bares brasileiros e decidir como &eacute; que a sele&ccedil;&atilde;o jogaria, eu tenho um efeito real sobre essa sociedade, na medida em que eu participo dela ativamente. Mais ainda do que a maior parte dos diretores e dos criadores de teatro nesse pa&iacute;s, n&atilde;o em qualidade s&oacute;, mas em termos de quantidade tamb&eacute;m. Ent&atilde;o, esse condicional - como eu faria para ser presidente da Rep&uacute;blica ou como eu faria se eu fosse de teatro, eu sou e digo exatamente o que penso. Eu acho que a sociedade s&oacute; teria a lucrar, se todas as pessoas expressassem a sua opini&atilde;o, e substanciassem a sua opini&atilde;o com trabalho por tr&aacute;s. &Eacute; claro que falar s&oacute; por falar, n&atilde;o existe. Tua pergunta: se eu realmente n&atilde;o me preocupo com o p&uacute;blico... &Eacute; uma pergunta que poderia demorar, a resposta podia demorar horas. Preocupa&ccedil;&atilde;o: eu estou fazendo uma pe&ccedil;a, meu Deus! Ser&aacute; que est&aacute; iluminado, e a d&eacute;cima fila vai ver? N&atilde;o. N&atilde;o tenho essa preocupa&ccedil;&atilde;o. Preocupa&ccedil;&atilde;o: &ldquo;posteriori&rdquo;, quando eu leio as pesquisas que as pessoas escrevem, a maior preocupa&ccedil;&atilde;o do mundo para ver onde esta met&aacute;fora est&aacute; chegando. Algumas me deprimem profundamente, outras me alegram profundamente. Ent&atilde;o, como tudo, n&atilde;o existe uma coisa monol&iacute;tica, &ldquo;n&atilde;o me preocupo com o p&uacute;blico&rdquo;. Preocupo-me em algumas coisas e em outras n&atilde;o. E a outra? Faz a tua pergunta. Era? </font></p>

<p><font size="3"><strong>M&aacute;rio Masetti:</strong> Sobre o trabalho de ator.</font></p>
<p><font size="3"><strong>Gerald Thomas:</strong> Sobre o trabalho de ator, &eacute; o seguinte: eu uso o ator da forma mais exaustiva poss&iacute;vel. Agora, para que as pessoas entendam um pouco meu teatro. Essas que est&atilde;o vendo pelo v&iacute;deo e n&atilde;o foram ver. Existe o trabalho de <font color="#ff0000"><font color="#000000">ator origin&aacute;rio de</font> <font color="#000000">Stanislavski [(1863-1938) ator russo, um dos fundadores do Teatro de Arte de Moscou, criador do Sistema Stanislavski de atua&ccedil;&atilde;o realista. Entre suas obras destacam-se <em>Minha vida na arte </em>e <em>A prepara&ccedil;&atilde;o do autor</em>]</font></font>, origin&aacute;rio do que a Uni&atilde;o Sovi&eacute;tica depositou no Ocidente, no continente Europeu. Esse trabalho &eacute; feito atrav&eacute;s de uma busca emotiva de mem&oacute;ria de sensa&ccedil;&otilde;es, onde o ator busca sensa&ccedil;&otilde;es da vida real e tenta transmitir aquele momento decorado, um texto que n&atilde;o foi feito por ele, uma dire&ccedil;&atilde;o que n&atilde;o &eacute; feita por ele, repetidamente nove horas da noite, todo dia, ele tenta substanciar aquilo com alguma emo&ccedil;&atilde;o real. Alguma coisa que leve ele... que fa&ccedil;a plaus&iacute;vel que ele diga aquilo da forma que ele tem que dizer. J&aacute; no meu teatro, a coisa &eacute; bem diferente. &Eacute; essa &ldquo;verborragia&rdquo; que n&atilde;o tem essa subst&acirc;ncia. Uma frase &eacute; do James Joyce [(1882-1941) escritor irland&ecirc;s. Escreveu <em>Dublinenses</em> (1914), que re&uacute;ne 15 contos que focalizam a cidade, e os romances <em>Retrato do artista quando jovem</em> (1916), <em>Ulisses</em> (1922) e <em>Finnegans wake</em> (1939) entre outras obras], a outra frase &eacute; um pl&aacute;gio de Beckett, a outra frase &eacute; um pl&aacute;gio de Heiner M&uuml;ller, a outra coisa &eacute; uma coisa direta, vindo da B&iacute;blia ou de Dante. N&atilde;o tem como viajar com tantas coisas ao mesmo tempo. Essa coisa de linguagem, que foi impressa na minha vida desde pequeno. A l&iacute;ngua portuguesa, por exemplo, eu n&atilde;o posso me esquecer que eu ouvi a palavra beterraba pela primeira vez dentro de uma piscina e achei o som estranh&iacute;ssimo, beterraba... eu estava inundado. Eu estava submerso. At&eacute; hoje, a palavra beterraba est&aacute; acompanhada por algumas toneladas de litros de &aacute;gua para mim. Voc&ecirc; entende? Isso &eacute; uma impress&atilde;o. Isso, dentro da arte, se chama <a href="javascript:;" onmouseover="return overlib('Movimento art&iacute;stico e cultural iniciado em Paris no s&eacute;culo XIX depois que o quadro &lt;i&gt;Le d&eacute;jeuner sur l�herbe&lt;/i&gt;, de &Eacute;douard Manet (1823-1883) foi recusado pelo sal&atilde;o de Paris. Com pinceladas soltas, Manet retratou um nu feminino no parque em atitude natural. Os jovens artistas, exclu&iacute;dos do sal&atilde;o oficial passaram a expor suas obras no Salon d&ecirc;s Refus&eacute;s (Sal&atilde;o dos Recusados), local que viria a ser marco do movimento. Nascia ent&atilde;o, uma nova vis&atilde;o conceitual sobre a natureza que se insurgia contra o estilo acad&ecirc;mico e tradicional e procurava mudar o padr&atilde;o cl&aacute;ssico de composi&ccedil;&atilde;o de um quadro. Inspirados nas fotografias, os impressionistas passaram a dar &ecirc;nfase &agrave; luz e ao movimento. Geralmente, as telas eram pintadas ao ar livre para que o pintor pudesse capturar melhor as nuances da luz e da natureza. Claude Monet &eacute; considerado o fundador do impressionismo. O movimento s&oacute; adquiriu esse nome � impressionismo � em 1874 e entre os pintores que se destacam est&atilde;o Pierre-Auguste Renoir, Edgar Degas, Toulouse-Lautrec e a pintora Berthe Morisot.', ABOVE, RIGHT, WIDTH, '280');" onmouseout="return nd();" style="cursor: default; text-decoration: none; color: #F00; z-index: 2; text-align: left;">impressionismo</a>. O resultado disso, como se coloca isso nos lugares pode ser abstrato, pode ser expressionista, pode ser [movimento] dada&iacute;sta, pode ser o que voc&ecirc; quiser. Eu prefiro a linha impressionista, porque d&aacute; total liberdade de voc&ecirc; colocar o que voc&ecirc; quiser l&aacute;. Para isso, o ator teria que passar pela mesma experi&ecirc;ncia emp&iacute;rica que &eacute; a minha, o que &eacute; imposs&iacute;vel. Ningu&eacute;m vive a mesma vida duas vezes, quanto mais duas pessoas vivendo uma s&oacute;. Ent&atilde;o, n&atilde;o adianta tentar decodificar uma coisa, cuja decodifica&ccedil;&atilde;o &eacute; muito interior, &eacute; muito minha. J&aacute; que eu n&atilde;o jogo com entendimento imediato, racional daquela coisa e sim em um plano mais anal&oacute;gico, mais metaf&oacute;rico. Ent&atilde;o, n&atilde;o adianta o ator querer levar o trabalho dele para esse lado, quer dizer, o lado do emotivo. S&atilde;o milh&otilde;es de coreografias no meu espet&aacute;culo, </font><font size="3">&eacute; de vital import&acirc;ncia </font><font size="3">onde a cabe&ccedil;a est&aacute; em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; corcunda que ele est&aacute;, eu chamo aquilo de postura de p&oacute;s-mil&ecirc;nio. A sombrancelha, em dado momento, tem que levantar em contraste com uma determinada palavra. Muitos atores acham isso profundamente dif&iacute;cil. Eu acho um desafio fascinante para o ator. E se voc&ecirc; conversar com grande parte dos atores com quem eu trabalhei, eles, no final, pelo menos, a n&atilde;o ser que eles mintam para mim profundamente, se sentem profundamente fascinados. S&oacute; os atores que n&atilde;o conseguem entrar nesse tipo de trabalho...</font></p>

<p><font size="3"><strong>M&aacute;rio Masetti:</strong> V&atilde;o para os bares falar mal.</font></p>
<p><font size="3"><strong>Gerald Thomas:</strong> V&atilde;o para aos bares falar mal.</font></p>
<p><font size="3"><strong>Ant&ocirc;nio Carlos Ferreira: </strong>Aimar Labaki</font></p>
<p><font size="3"><strong>Aimar Labaki: </strong>Tr&ecirc;s perguntas. Primeira: quem s&atilde;o as vinte pessoas para quem voc&ecirc; faz e com quem voc&ecirc; pode conversar neste pa&iacute;s? E quem s&atilde;o os 8% que fazem teatro &agrave; s&eacute;rio no pa&iacute;s? Segunda coisa... deixa-me terminar, sen&atilde;o depois voc&ecirc; me corta...</font></p>

<p><font size="3"><strong>Gerald Thomas:</strong> S&atilde;o tr&ecirc;s perguntas, subdivididas em tr&ecirc;s, n&atilde;o &eacute;?</font></p>
<p><font size="3"><strong>Aimar Labaki: </strong>Segunda, quando voc&ecirc; diz que n&atilde;o est&aacute; preocupado com a plat&eacute;ia, porque n&atilde;o te importa se na d&eacute;cima fileira est&atilde;o vendo ou n&atilde;o. Voc&ecirc; est&aacute; mentindo e voc&ecirc; pode estar confundindo o p&uacute;blico leigo, porque, ao contr&aacute;rio, voc&ecirc; tem um apuro t&eacute;cnico inigual&aacute;vel no pa&iacute;s. Tanto que voc&ecirc; chega ao requinte de avisar o p&uacute;blico que na primeira, na segunda fileira ou nas bases, eles n&atilde;o v&atilde;o ver direito. Ent&atilde;o, n&atilde;o &eacute; verdade o que voc&ecirc; disse. Terceiro lugar, quando voc&ecirc; diz que se tivesse chegado a Heiner M&uuml;ller, voc&ecirc; estaria em Frankfurt, voc&ecirc; est&aacute; querendo dizer que o pa&iacute;s, para voc&ecirc;, o Brasil &eacute; um trampolim para a tua carreira l&aacute; fora, quer dizer, se voc&ecirc; n&atilde;o tem? Desculpa, se voc&ecirc; est&aacute; fazendo e n&atilde;o tem di&aacute;logo aqui, ent&atilde;o, por que voc&ecirc; faz aqui?</font></p>

<p><font size="3"><strong>Gerald Thomas:</strong> A primeira parte da pergunta &eacute; para quem eu fa&ccedil;o teatro.</font></p>
<p><font size="3"><strong>Aimar Labaki:</strong> E quem s&atilde;o os 8% s&eacute;rios.</font></p>
<p><font size="3"><strong>Gerald Thomas: </strong>Para ser absolutamente real com voc&ecirc;. Eu fa&ccedil;o teatro para as pessoas que debatem teatro. Quer dizer, eu fa&ccedil;o teatro, n&atilde;o tanto assim para a classe teatral, mas para os te&oacute;ricos de teatro.</font></p>

<p><font size="3"><strong>Aimar Labaki:</strong> Voc&ecirc; pode nomear?</font></p>
<p><font size="3"><strong>Gerald Thomas: </strong>N&atilde;o. Eu n&atilde;o vou nomear. Mas s&atilde;o cr&iacute;ticos de teatro. S&atilde;o pessoas envolvidas em artes c&ecirc;nicas, em artes em geral. Artistas. Pessoas envolvidas com debate filos&oacute;fico constante de: para onde ir, de onde viemos e para onde vamos. Dentro da quest&atilde;o... A &uacute;nica coisa que me preocupa &eacute; filosofia, e depois, em uma outra inst&acirc;ncia, poesia. O resto n&atilde;o tem a menor import&acirc;ncia. Atrav&eacute;s de qual canal isso sai: pode ser pintura, pode ser cinema, pode ser teatro, m&uacute;sica, n&atilde;o importa. Eu dialogo com essas pessoas e imprimo uma impress&atilde;o metaf&oacute;rica mais leiga, mais abrangente, mais sensorial no resto da plat&eacute;ia. Eu n&atilde;o tenho d&uacute;vida disso. Sen&atilde;o o meu teatro estaria vazio, e n&atilde;o est&aacute;. Est&aacute; cheio, isto &eacute; ineg&aacute;vel. Os 8% do teatro que eu acho que est&aacute; sendo feito de interessante neste pa&iacute;s, n&atilde;o sei se vale &agrave; pena nomear tamb&eacute;m, mas existe.</font></p>

<p><font size="3"><strong>Aimar Labaki: </strong>Se n&atilde;o a conversa vai continuar vaga, se voc&ecirc; n&atilde;o fala em nomes.</font></p>
<p><font size="3"><strong>Gerald Thomas:</strong> Ah! Mas eu, minha gente! Est&aacute; bom. Bia Lessa [atriz e diretora. Junto com Gerald Thomas liderou o teatro de imagens nos anos 1980] no Rio de Janeiro; Ulysses Cruz [diretor. Montou pe&ccedil;as importantes nos anos 1980 entre elas: <em>O coronel dos coron&eacute;is</em>, de Maur&iacute;cio Segall (1981), e o musical <em>Lola Moreno</em> (1982). Nos anos 1990 passou a dirigir novelas para rede Globo de televis&atilde;o] em S&atilde;o Paulo; Antunes Filho [diretor de teatro, montou, entre outros espet&aacute;culos, <em>Macuna&iacute;ma</em> na d&eacute;cada de 1970, <em>Nelson 2 Rodrigues</em>, na d&eacute;cada de 1980, e renovou-se a cada&nbsp; lan&ccedil;amento, incorporando as mais diversas influ&ecirc;ncias, do <a href="javascript:;" onmouseover="return overlib('Corrente formada por artistas que buscavam mais intensamente a interioriza&ccedil;&atilde;o da cria&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica do que sua exterioriza&ccedil;&atilde;o. Predominam os valores emocionais sobre os intelectuais, e a obra de arte &eacute; pensada como proje&ccedil;&atilde;o de uma reflex&atilde;o individual e subjetiva. O expressionismo se diferencia do movimento realista por n&atilde;o estar interessado na idealiza&ccedil;&atilde;o da realidade, mas em sua apreens&atilde;o pelo sujeito. Guarda, por&eacute;m, com esse movimento semelhan&ccedil;as, como, por exemplo, a vis&atilde;o anti-rom&acirc;ntica. S&atilde;o considerados expressionistas grupos como &lt;i&gt;Die br&uuml;cke&lt;/i&gt; (A ponte), &lt;i&gt;Der blaue&lt;/i&gt; reiter (O cavaleiro azul) e o fauvismo � do termo &lt;i&gt;les fauves&lt;/i&gt; (as feras) - adeptos da espontaneidade na cria&ccedil;&atilde;o, empregando em suas obras cores vivas. Um dos principais representantes dessa corrente foi Henri Matisse.', ABOVE, RIGHT, WIDTH, '280');" onmouseout="return nd();" style="cursor: default; text-decoration: none; color: #F00; z-index: 2; text-align: left;">expressionismo</a> alem&atilde;o e filosofia oriental &agrave; f&iacute;sica moderna]; Cac&aacute; Rosset [criador do grupo de teatro Ornitorrinco que mescla m&uacute;sica ao vivo, circo e representa&ccedil;&otilde;es nos espet&aacute;culos] eu respeito. Apesar de eu n&atilde;o me encantar pelo [seu] teatro, mas &eacute; uma pessoa respeit&aacute;vel. &Eacute; um teatro inteligente. &Eacute; uma figura inteligente. N&atilde;o sei, nomes me escapam no momento, mas enfim. E agora, &eacute; claro, n&atilde;o estou citando algum que deveria ser citado e fica profundamente chato isso.</font></p>

<p><font size="3"><strong>Aimar Labaki:</strong> N&atilde;o, mas o simples fato de voc&ecirc; citar algu&eacute;m j&aacute; &eacute; bom.</font></p>
<p><font size="3"><strong>Gerald Thomas:</strong> O que mais voc&ecirc; estava falando? Era o...</font></p>

<p><font size="3"><strong>Aimar Labaki:</strong> Segundo...</font></p>
<p><font size="3"><strong>Gerald Thomas:</strong> Que &eacute; uma mentira? N&atilde;o. N&atilde;o &eacute;. N&atilde;o &eacute; no sentido seguinte. A minha preocupa&ccedil;&atilde;o &eacute; visibilidade f&iacute;sica. &Eacute; claro que eu quero que seja visto. Eu n&atilde;o quero... n&atilde;o me interessa como aquilo &eacute; visto. Voc&ecirc; entende a diferen&ccedil;a? &Eacute; qualitativa. Mais uma vez &eacute; quantitativa nossa discuss&atilde;o, e n&atilde;o deveria entrar nisso. Quando eu n&atilde;o quero que as pessoas sentem na primeira nem na segunda fila ou nas laterais ou nas &uacute;ltimas do balc&atilde;o, eu estou sendo espec&iacute;fico. Elas est&atilde;o comprando um produto pela metade. Agora, as pessoas que est&atilde;o frontais, como se o ator est&aacute; iluminado, ou n&atilde;o est&aacute; iluminado, ou tem um facho de luz em um outro lado que n&atilde;o do lado do ator, isso a&iacute; n&atilde;o tem a menor import&acirc;ncia para mim. Isso n&atilde;o tem import&acirc;ncia para mim. N&atilde;o. A terceira parte da sua pergunta, n&atilde;o se esque&ccedil;a, eu vim de l&aacute; para c&aacute;, eu n&atilde;o estou me lan&ccedil;ando aqui para voltar para l&aacute;. Eu tenho uma carreira em Londres, fr&aacute;gil, p&eacute;ssima, muito pequena, sem import&acirc;ncia nenhuma. Na Alemanha, incidentes isolados de muito grande repercuss&atilde;o, muito mais em fun&ccedil;&atilde;o do... [inaud&iacute;vel, possivelmente Julian Beck (1925-1985) fundador do The Living Theater, companhia de teatro sediada em Nova Iorque que se opunha &agrave; l&oacute;gica comercial dos espet&aacute;culos da Broadway e tinha influ&ecirc;ncias do escritor, dramaturgo e diretor de teatro Antonin Artaud]<font color="#ff0000"> <font color="#000000">ter estado em uma dessas pe&ccedil;as e ter morrido durante a pe&ccedil;a</font></font><font color="#000000">. E a pe&ccedil;a, eu ter juntado a fragilidade real de uma pessoa com um texto</font> fr&aacute;gil, sobre fragilidade real do Beckett. N&atilde;o tenho d&uacute;vidas sobre isso. N&atilde;o &eacute; a minha genialidade, entre aspas, que me fez um pouquinho conhecido na Alemanha. E em Nova Iorque onde eu tenho um trabalho no [teatro] La MaMa e no Theater of New York City bastante constante. O trabalho no Brasil n&atilde;o me serve em absolutamente nada para voltar para l&aacute;. Porque nada que &eacute; feito aqui, tem o menor respaldo l&aacute; fora. Estou dizendo, se eu fosse Heiner M&uuml;ller, eu estaria em Frankfurt. &Eacute; t&atilde;o real o que eu estou dizendo. Voc&ecirc; est&aacute; entendendo? Eu dialogo em portugu&ecirc;s.</font></p>

<p><font size="3"><strong>Aimar Labaki:</strong> Voc&ecirc; preferiria fazer em Frankfurt &agrave; fazer em S&atilde;o Paulo?</font></p>
<p><font size="3"><strong>Gerald Thomas:</strong> Claro que n&atilde;o. Eu poderia ter ficado em Frankfurt em 1985, trabalhar l&aacute; agora.</font></p>
<p><font size="3"><strong>Ant&ocirc;nio Carlos Ferreira:</strong> E o que voc&ecirc; est&aacute; fazendo aqui? &Eacute; a pergunta &oacute;bvia, ent&atilde;o.</font></p>

<p><font size="3"><strong>Gerald Thomas: </strong>O que eu estou fazendo no Brasil?</font></p>
<p><font size="3"><strong>Ant&ocirc;nio Carlos Ferreira:</strong> Por que voc&ecirc; est&aacute; fazendo teatro aqui?</font></p>
<p><font size="3"><strong>Gerald Thomas:</strong> Eu acho o Brasil... Meu Deus do c&eacute;u! Primeiro, eu sou parte brasileiro. Voc&ecirc; v&ecirc; pelo meu sotaque que eu sou carioca, n&atilde;o &eacute;? Eu adoro este pa&iacute;s, s&oacute; que eu tenho um ponto de vista muito cr&iacute;tico. Eu acho que uma sociedade flui e progride criticamente, n&atilde;o &eacute; bajuladoramente, n&atilde;o &eacute; todo mundo se alisando mutuamente dizendo: &quot;Meu Deus! Que horror! &Eacute; real! Que pena! Que maravilha como seria!&quot;&nbsp; Isso tamb&eacute;m &eacute; &oacute;bvio. Porque eu estou no Brasil tamb&eacute;m &eacute; &oacute;bvio. Eu tenho uma import&acirc;ncia enorme nesse pa&iacute;s e dou uma import&acirc;ncia enorme a este pa&iacute;s para a minha vida. Al&eacute;m do mais, encontrei aqui uma companhia de teatro com a qual a minha rela&ccedil;&atilde;o &eacute; fant&aacute;stica. Tenho um lugar no teatro brasileiro que n&atilde;o tenho em outros pa&iacute;ses. N&atilde;o sei se &eacute;... n&atilde;o &eacute; por causa da minha genialidade, entre aspas, mas por causa da defici&ecirc;ncia do lugar. E, enfim, tenho uma rela&ccedil;&atilde;o bastante sensorial com esse pa&iacute;s. Como tenho certeza que todo o mundo aqui tem. Poucas pessoas admitem isso.</font></p>

<p><font size="3"><strong>Kleber de Almeida</strong>: &Eacute; o seguinte. Voc&ecirc; tem uma posi&ccedil;&atilde;o cr&iacute;tica em rela&ccedil;&atilde;o ao pa&iacute;s. Mas, ao mesmo tempo, voc&ecirc; pretende que o seu teatro atinja um n&uacute;mero restrito de pessoas. Voc&ecirc; n&atilde;o acha que h&aacute; uma contradi&ccedil;&atilde;o nisso?</font></p>

<p><font size="3"><strong>Gerald Thomas</strong>: Acho.</font></p>
<p><font size="3"><strong>Kleber de Almeida:</strong> Ent&atilde;o, explica isso.</font></p>
<p><font size="3"><strong>Gerald Thomas</strong>: Eu adoro contradi&ccedil;&otilde;es. N&atilde;o tenho d&uacute;vidas que o meu teatro s&oacute; atinge uma parcela m&iacute;nima da popula&ccedil;&atilde;o. Seria rid&iacute;culo constatar o contr&aacute;rio. Quer dizer, eu n&atilde;o fa&ccedil;o, nem farei, nem em uma sociedade no plural como &eacute; a Europa, eu faria um teatro para milhares, milhares de pessoas. Basta lembrar um pouco a hist&oacute;ria e ver que a pe&ccedil;a que mais influenciou a hist&oacute;ria recente do teatro foi <em>Esperando Godot </em>de Beckett. Que estreou em 1953 em Paris e foi feita para 75 pessoas, das quais trinta e tr&ecirc;s e meia, saiam no primeiro ato, no primeiro intervalo. E que a exposi&ccedil;&atilde;o de <font color="#000000">Marcel Duchamp</font>, nos Estados Unidos em 1911 teve uma freq&uuml;&ecirc;ncia baix&iacute;ssima. No entanto, eu tenho no&ccedil;&atilde;o de que s&atilde;o poucas cabe&ccedil;as, essas cabe&ccedil;as v&atilde;o influenciar outras cabe&ccedil;as, e outras e a &aacute;rvore geneal&oacute;gica vai se alastrando dessa forma.</font></p>

<p><font size="3"><strong>Maria Am&eacute;lia Rocha Lopes:</strong> Gerald. As suas pe&ccedil;as t&ecirc;m um forte impacto visual. Pelo menos foi que eu senti assistindo. Eu queria saber se sem a Daniela Thomas, esse teatro, seu espet&aacute;culo, seria o mesmo. </font></p>
<p><font size="3"><strong>Gerald Thomas:</strong> N&atilde;o sei. Provavelmente n&atilde;o. Obviamente n&atilde;o, n&atilde;o seria.</font></p>
<p><font size="3"><strong>Maria Am&eacute;lia Rocha Lopes: </strong>Obviamente n&atilde;o, mas, seria, sei l&aacute;, teria a mesma qualidade. A sua presen&ccedil;a, acho, que &eacute; t&atilde;o forte, t&atilde;o marcante. Eu queria saber. As pessoas podem ser trocadas assim e se manter o mesmo espet&aacute;culo.</font></p>

<p><font size="3"><strong>Gerald Thomas:</strong> N&atilde;o, n&atilde;o. O trabalho da Daniela &eacute; &uacute;nico nesse sentido, &eacute; bastante particular. Como, por exemplo, o trabalho da Bete Coelho, ineg&aacute;vel. Quer dizer, ser&aacute; que eu conseguiria fazer <em>Um processo</em> sem a Bete Coelho? Talvez at&eacute;... sair&iacute;a alguma coisa, mas nada parecido com o que est&aacute;. Ser&aacute; que eu conseguiria fazer o <em>Navio fantasma</em> sem o Wagner. &Eacute; &oacute;bvio que n&atilde;o. Quer dizer, o que &eacute; hist&oacute;rico j&aacute; existe. Se um dia eu fizer uma pe&ccedil;a sem a Daniela, a&iacute; vamos ver como &eacute; que faz, n&atilde;o &eacute;? N&atilde;o sei, eu acho que n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel no momento.</font></p>

<p><font size="3"><strong>Maria Am&eacute;lia Rocha Lopes:</strong> Que peso tem em um espet&aacute;culo, a presen&ccedil;a da Daniela? Quer dizer, ela faz cen&aacute;rios e figurinos. No total, o resultado disso seria, 70% da Daniela, 30% de Gerald Thomas.</font></p>
<p><font size="3"><strong>Gerald Thomas</strong>: N&atilde;o. &Eacute; dif&iacute;cil, porque o pr&oacute;prio processo de cria&ccedil;&atilde;o j&aacute; &eacute; incestuoso e j&aacute; &eacute; dilu&iacute;do dentro dessa porcentagem toda. N&atilde;o &eacute;, ela... eu digo para ela: &ldquo;aten&ccedil;&atilde;o, fa&ccedil;a cen&aacute;rios e figurinos, vai e eu te encontro no dia da estr&eacute;ia&rdquo;. Claro que n&atilde;o, milhares de conversas, corre&ccedil;&otilde;es, eu sou pintor, n&atilde;o &eacute;? Eu tenho uma est&eacute;tica muito espec&iacute;fica e a est&eacute;tica final &eacute; dada pela luz. Se eu apontar uma luz geral para aquele cen&aacute;rio, eu n&atilde;o sei se voc&ecirc; vai achar a mesma coisa. Se eu der uma luz espec&iacute;fica, um costura junto com o outro, voc&ecirc; entende? Um faz a coisa em virtude do outro. Eu digo a mesma coisa, fa&ccedil;o a luz porque tenho aquele cen&aacute;rio que ela faz. Mas o processo de cria&ccedil;&atilde;o &eacute; muito m&uacute;tuo, nesse sentido. </font></p>

<p><font size="3"><strong>Mario Prata:</strong> Gerald. Dentro disso, antes de come&ccedil;ar o espet&aacute;culo, voc&ecirc; est&aacute; com a preocupa&ccedil;&atilde;o. Voc&ecirc; est&aacute; com o figurino em degrad&ecirc; no ar, que &eacute; meio a cor do teu espet&aacute;culo, &eacute; meio a tua cor. Ela estava falando da Daniela. E... voc&ecirc; est&aacute; com um isqueiro amarelo que voc&ecirc; est&aacute; preocupad&iacute;ssimo escondendo, desde que voc&ecirc; chegou. Voc&ecirc; chegou a perguntar para o Tonico [Ant&ocirc;nio Carlos Ferreira] se o isqueiro n&atilde;o ia destoar. Ele, acho, n&atilde;o ouviu ou n&atilde;o acreditou. Eu estou acreditando, porque voc&ecirc; est&aacute; preocupad&iacute;ssimo com esse amarelo, est&aacute; tapado, ent&atilde;o...</font></p>

<p><font size="3"><strong>Ant&ocirc;nio Carlos Ferreira:</strong> Eu ouvi e sei que n&atilde;o atrapalha em nada.</font></p>
<p><font size="3"><strong>Mario Prata</strong>: E, &eacute; a s&eacute;rio essa preocupa&ccedil;&atilde;o sua, eu estou vendo que &eacute; s&eacute;rio isso. &Eacute; poss&iacute;vel um dia ter um amarelo vivo em um espet&aacute;culo teu? Da cor do seu isqueiro?</font></p>

<p><font size="3"><strong>Gerald Thomas:</strong> Se fosse para colocar o amarelo em justaposi&ccedil;&atilde;o cr&iacute;tica, talvez. &Eacute; como ele &eacute;, como cor n&atilde;o. Eu n&atilde;o vejo o mundo &ldquo;coloridamente&rdquo;, eu vejo o mundo em preto e branco ou em cinza mesmo. Eu acho que &eacute; uma postura filos&oacute;fica...</font></p>
<p><font size="3"><strong>Mario Prata:</strong> Eu, inclusive, vim de preto e branco em sua homenagem. Eu escolhi o figurino, &eacute; verdade.</font></p>

<p><font size="3"><strong>Gerald Thomas:</strong> E eu estou meio de cinza que, na televis&atilde;o parece azul, n&atilde;o &eacute;? Quer dizer, eu tenho problemas com cor.</font></p>
<p><font size="3"><strong>Mario Prata: </strong>E essa preocupa&ccedil;&atilde;o de cor, evidentemente a Daniela tamb&eacute;m tem a mesma preocupa&ccedil;&atilde;o, ao contr&aacute;rio do pai dela que s&oacute; trabalha com cor.</font></p>
<p><font size="3"><strong>Maria Am&eacute;lia Rocha Lopes:</strong> Mas quem &eacute; o pai dela?</font></p>

<p><font size="3"><strong>Mario Prata:</strong> O pai dela &eacute; o Ziraldo [cartunista. Criador de personagens famosos como o Menino maluquinho] .</font></p>
<p><font size="3"><strong>Gerald Thomas</strong>: Bastante opostos. A prop&oacute;sito, eu acho que a tend&ecirc;ncia &eacute;... vamos dizer, existe nessa falta de cor uma coisa que se chama &agrave;s vezes erroneamente de niilismo, n&atilde;o &eacute;? Mas eu acho que se voc&ecirc; aponta uma cor dentro desse neg&oacute;cio todo, ela tem uma import&acirc;ncia vital; que ela n&atilde;o teria em um espet&aacute;culo de bananas, e abacaxis, e ma&ccedil;&atilde;s.</font></p>

<p><font size="3"><strong>Mario Prata</strong>: Porque o isqueiro est&aacute; lindo na tua m&atilde;o, esse isqueiro amarelo! &Eacute; verdade, te d&aacute; um brilho.</font></p>
<p><font size="3"><strong>Ant&ocirc;nio Carlos Ferreira:</strong> Ele escondeu o isqueiro dentro do... dentro do ma&ccedil;o de cigarros.</font></p>
<p><font size="3"><strong>Mario Prata:</strong> N&atilde;o, ele est&aacute; desde o come&ccedil;o do programa preocupado com esse amarelo.</font></p>

<p><font size="3"><strong>Gerald Thomas:</strong> &Eacute; que j&aacute; me basta o vermelho. Eu estou circundado por vermelho de todos os lados. Agora, realmente, predomina o preto e branco, n&atilde;o &eacute;? &Eacute; incr&iacute;vel, engra&ccedil;ado [olha para cima]. N&atilde;o, tem um rosa l&aacute; em cima.</font></p>
<p><font size="3"><strong>Ant&ocirc;nio Carlos Ferreira:</strong> Eu gostaria, agora, que o Ed&eacute;lcio fizesse a sua pergunta.</font></p>

<p><font size="3" color="#000000"><strong>Ed&eacute;lcio Mosta&ccedil;o:</strong> Bem, sem nenhuma ironia com os presentes, mas eu acho que n&oacute;s estamos um pouco parodiando um espet&aacute;culo que est&aacute; em cartaz, &eacute; <em>O encontro de Descartes e Pascal</em> [de Jean-Claude Brisville]. Com um Pascal presente e v&aacute;rios Descartes. Eu acho que existem l&oacute;gicas muito diferenciadas entre o mundo da cria&ccedil;&atilde;o e o mundo da recep&ccedil;&atilde;o da obra de arte n&atilde;o &eacute;? Ent&atilde;o, h&aacute; uma s&eacute;rie de perguntas que eu gostaria de fazer, acho que elas est&atilde;o ligadas mais &agrave; l&oacute;gica da cria&ccedil;&atilde;o. Uma delas &eacute; a seguinte: no seu espet&aacute;culo <em>Uma metamorfose</em>, todas as personagens l&ecirc;em muito, al&eacute;m do qu&ecirc;, a pe&ccedil;a se passa dentro de uma grande biblioteca, assim como toda a trilogia. Ou seja, a imagem da biblioteca &eacute; muito forte. Eu gostaria de saber o que as personagens l&ecirc;em. Lembra-me muito a grande biblioteca m&iacute;tica do Borges [biblioteca que escondia o texto perdido da <em>Po&eacute;tica</em> de Arist&oacute;teles]. Para quem leu <em>O nome da rosa</em> [Humberto Eco], deve se lembrar que a grande trag&eacute;dia dessa biblioteca &eacute; a inexist&ecirc;ncia do livro da Com&eacute;dia de Arist&oacute;teles, n&atilde;o &eacute;? Talvez o que explique toda a trag&eacute;dia inerente a essa... </font></p>

<p><font size="3" color="#000000"><strong>Gerald Thomas:</strong> E labir&iacute;ntica.</font></p>
<p><font size="3" color="#000000"><strong>Ed&eacute;lcio Mosta&ccedil;o:</strong> Ent&atilde;o, eu gostaria de saber o que as suas personagens l&ecirc;em? Ou que livros faltariam na biblioteca de Kafka.</font></p>
<p><font size="3" color="#000000"><strong>Gerald Thomas:</strong> Olha, tem um livro que est&aacute; sempre aberto em cima da mesa que &eacute; <em>A import&acirc;ncia da T&aacute;lia na psican&aacute;lise</em>. Na verdade, &eacute; uma parte de uma enciclop&eacute;dia, e eu tirei, arranquei a p&aacute;gina fora e coloquei <em>A import&acirc;ncia da t&aacute;lia na psican&aacute;lise</em>. Tem um livro de agricultura e tem um de Descartes, passeando por l&aacute;, de vez em quando pegam ele, de vez em quando roubam ele. Ah! E tem um... Mas esse &eacute; no <em>Processo</em>, no <em>Metamorfose</em> n&atilde;o. No <em>Processo</em> tem o Bertoldo, que &eacute; uma par&oacute;dia do Bertold Brecht, est&aacute; lendo um livro que foi publicado por Ekhard Shaw, que &eacute; um ator de Brecht, sobre como o Brecht foi assassinado nos outros pa&iacute;ses. Ent&atilde;o, ele ri dessa coisa e diz assim: &ldquo;apesar de tudo, dizem que o senhor ainda sofre de algum respeito em outros pa&iacute;ses&rdquo;. E livros em geral. Acho que tem um dicion&aacute;rio.</font></p>

<p><font size="3" color="#000000"><strong>Ed&eacute;lcio Mosta&ccedil;o: </strong>E que livros n&atilde;o existem na biblioteca.</font></p>
<p><font size="3" color="#000000"><strong>Gerald Thomas:</strong> N&atilde;o existem? Ah, Eu n&atilde;o sei. Acho que tem tudo. Tem a carta original de Pero Vaz de Caminha sobre o descobrimento do Brasil. Tem toda a obra de Beckett. Todo o Dante [Alighieri] est&aacute; l&aacute;; tem at&eacute; o Heiner M&uuml;ller em alem&atilde;o, mas isso os atores n&atilde;o pegam para ler, isso eu te garanto. Tem...</font></p>

<p><font size="3" color="#000000"><strong>Ed&eacute;lcio Mosta&ccedil;o:</strong> A sua obra, inclusive voc&ecirc;, colocando essas coisas, refor&ccedil;a o aspecto que eu sempre achei dela, de ser fortemente narc&iacute;sica. Voc&ecirc;... Eu acho que <em>Metamorfose</em>, nesse sentido, &eacute; o seu pior espet&aacute;culo, porque eu acho que ele &eacute; o espet&aacute;culo que menos... &Eacute; mais redundante. &Eacute; o espet&aacute;culo que mais reafirma uma s&eacute;rie de siglas que j&aacute; est&atilde;o presentes em outros espet&aacute;culos. E nesse sentido, ent&atilde;o eu te pergunto...</font></p>

<p><font size="3" color="#000000"><strong>Gerald Thomas:</strong> Mas, e o <em>Processo</em>? O que voc&ecirc; acha do <em>Processo</em>?</font></p>
<p><font size="3" color="#000000"><strong>Ed&eacute;lcio Mosta&ccedil;o:</strong> O que voc&ecirc; pretende fazer daqui para frente? Qual seria o pr&oacute;ximo passo, al&eacute;m dessa trilogia da <em>Metamorfose</em>?</font></p>

<p><font size="3" color="#000000"><strong>Gerald Thomas:</strong> Eu te confesso...</font></p>
<p><font size="3" color="#000000"><strong>Ed&eacute;lcio Mosta&ccedil;o:</strong> Voc&ecirc; vai continuar se repetindo?</font></p>
<p><font size="3" color="#000000"><strong>Gerald Thomas:</strong> Eu n&atilde;o sei. N&atilde;o, eu n&atilde;o acho que <em>Metamorfose</em> esteja me repetindo. Ao contr&aacute;rio, eu acho que eu n&atilde;o estou me repetindo. Eu acho que existe uma... existe uma certa falha de ter tentado uma linha que eu nunca tentei antes. Na verdade, eu exagerei na procura da extravag&acirc;ncia nesse sentido, que &eacute; um pensamento de princ&iacute;pio meio e fim, e Aristot&eacute;lico, que conta uma hist&oacute;ria e tem poucas intrus&otilde;es &quot;shakespeareanas&quot; e &quot;becketianas&quot;, enfim. Mas &eacute; muito respeitoso, vamos dizer, &agrave; linha geral determinada pelo autor Franz Kafka no livro <em>A metamorfose</em>. &Eacute; exatamente o contr&aacute;rio do que voc&ecirc; est&aacute; dizendo. &Eacute; por, talvez, ter tentado ir longe demais numa coisa sobre a qual eu n&atilde;o tenho dom&iacute;nio. E voc&ecirc; v&ecirc;, a Ilka j&aacute; acha o meu melhor que ela viu at&eacute; hoje. &Eacute; terr&iacute;vel que n&atilde;o exista uma verdade no mundo. &Eacute; horr&iacute;vel que n&atilde;o existe uma verdade monol&iacute;tica. Eu brigo com isso todos os dias. Eu adoraria acordar de manh&atilde; um dia, e perceber que uma coisa &eacute;. &Eacute; aquilo. &Eacute; uma coisa literal. N&atilde;o &eacute; o caso. Eu acho que... bom.</font></p>

<p><font size="3" color="#000000"><strong>Ilka Marinho Zanotto:</strong> N&atilde;o, eu acho que isso de ele se repetir. Eu acho uma qualidade, porque dizem que o grande autor &eacute; o autor de um s&oacute; livro, a vida inteira. Quer dizer, isso mostra que ele tem uma marca, um estilo, um car&aacute;ter. E eu achava que n&atilde;o estava completo esse car&aacute;ter e que na <em>Metamorfose</em> houve essa simbiose. Quer dizer, houve a obra total, ele chegou l&aacute;. Inclusive, o ator da <em>Metamorfose</em>, voltando ao [M&aacute;rio] Mazetti, eu acho que pela primeira vez, o ator do Gerald Thomas, apesar de todo o trabalho inaudito das outras vezes que disseram, o ator nas outras pe&ccedil;as, nos outros espet&aacute;culos - que eu vi dois - era como uma cor, voc&ecirc; mesmo disse, era um elemento a mais, n&atilde;o era o principal e como para mim o teatro - eu ainda sou muito aristot&eacute;lica - &eacute; o ator no palco, eu acho que nessa <em>Metamorfose</em> o ator, de repente, &eacute; um ser delineado, &eacute; uma criatura de fic&ccedil;&atilde;o completa e que est&aacute; no palco fazendo o que ele sabe o que est&aacute; fazendo, sem ser s&oacute; por determina&ccedil;&atilde;o, como disse o Mazetti, do diretor, s&oacute; um rob&ocirc;. Por mais que fossem magn&iacute;ficos esses rob&ocirc;s, eu sentia falta de algo, dessa alma digamos assim, do esp&iacute;rito que est&aacute; l&aacute; na <em>Metamorfose.</em></font></p>

<p><font size="3" color="#000000"><strong>Gerald Thomas</strong>: Que engra&ccedil;ado, essa coisa...</font></p>
<p><font size="3" color="#000000"><strong>Ilka Marinho Zanotto:</strong> Agora, quando voc&ecirc; entra, Gerald... Isso que eu te pergunto. Ent&atilde;o, a primeira pergunta &eacute; a seguinte: em <em>Metamorfose</em> mudamos n&oacute;s ou mudou voc&ecirc;? Mudaram as manh&atilde;s ou mudou o...?</font></p>

<p><font size="3" color="#000000"><strong>Gerald Thomas:</strong> N&atilde;o. Acho que mudamos todos, n&atilde;o &eacute;? E...</font></p>
<p><font size="3" color="#000000"><strong>Ilka Marinho Zanotto:</strong> Embora seja o mesmo, &eacute; diferente entende? O mesmo plasticamente, aquela [sua] beleza formal, que est&aacute; l&aacute; - o pintor est&aacute; l&aacute; - a luz, important&iacute;ssima no espet&aacute;culo, a respira&ccedil;&atilde;o, o ritmo. Agora, de repente, entra a outra parte, que eu acho essencial. Agora, outra coisa que eu pergunto: &eacute; quando voc&ecirc; interv&eacute;m, de repente me parece, assim, que no &quot;finzinho&quot; do espet&aacute;culo voc&ecirc; diz: &ldquo;Meu Deus! Eu fiz, de repente, um teatro de ator, um teatro de a&ccedil;&atilde;o. Vamos quebrar tudo!&rdquo; E bota aqueles textos discutindo minimalismo numa discuss&atilde;o est&eacute;tica que, nesse momento, o p&uacute;blico, pela primeira vez, se mexe. Eu acho que o p&uacute;blico ali fica... Ou se incomoda ou se cansa, e voc&ecirc; entra e voc&ecirc; ali. Eu achei uma contradi&ccedil;&atilde;o no seguinte: a tua entrada &eacute; um naturalista, seria um observador. A gente percebe que &eacute; o Gerald observando, o que ele est&aacute; fazendo, seria uma das interpreta&ccedil;&otilde;es poss&iacute;veis. Mas voc&ecirc; entra como Gerald mesmo. Voc&ecirc; n&atilde;o entra como um naturalista teatral. Faltou-me a teatraliza&ccedil;&atilde;o dentro da sua veracidade. Voc&ecirc; foi verista somente. Seria [como] a Ilka subir no palco, de repente ali, escrevendo aquilo que aconteceu sem representar a Ilka, me faltou essa decalagem, me faltou essa media&ccedil;&atilde;o naquele momento. Eu pergunto por qu&ecirc;? Qual &eacute; a fun&ccedil;&atilde;o tua no palco, exatamente? N&atilde;o aquela que voc&ecirc; me disse que n&atilde;o gosta e por isso est&aacute; l&aacute;.</font></p>

<p><font size="3" color="#000000"><strong>Gerald Thomas:</strong> &Eacute; exatamente, &eacute; exatamente o que &eacute; lido pelo p&uacute;blico. &Eacute; ineg&aacute;vel que a pessoa que est&aacute; l&aacute; sou eu. Eu n&atilde;o preciso me transfigurar para estar l&aacute; como uma outra coisa, voc&ecirc; entende? Eu n&atilde;o preciso me dublar. A minha presen&ccedil;a &eacute; reconhecida por, pelo menos, oitenta pessoas que est&atilde;o l&aacute;. Isso n&atilde;o precisa de nenhum adorno, n&atilde;o precisa de nenhuma artificialidade. Eu n&atilde;o precisaria entrar caracterizado de nada al&eacute;m do que eu j&aacute; sou, que sou eu mesmo. J&aacute; que eu sou o autor, e diretor, e iluminador daquilo, n&atilde;o tem porqu&ecirc; eu entrar caracterizado de coisa alguma. Ent&atilde;o, se eu estou de jeans eu entro de jeans, se eu estou de cal&ccedil;a preta eu vou de cal&ccedil;a preta. Quer dizer, &eacute; um coment&aacute;rio anti-naturalista, por mais anti-naturalista que esse coment&aacute;rio anti-naturalista possa parecer para voc&ecirc;.</font></p>

<p><font size="3" color="#000000"><strong>Ilka Marinho Zanotto:</strong> E por que voc&ecirc; me disse antes, que voc&ecirc; s&oacute; est&aacute; l&aacute; enquanto voc&ecirc; n&atilde;o gostar do espet&aacute;culo. No momento em que voc&ecirc; passar a gostar do espet&aacute;culo, voc&ecirc; sai de l&aacute;.</font></p>

<p><font size="3" color="#000000"><strong>Gerald Thomas: </strong>Eu falei isso para voc&ecirc;?</font></p>
<p><font size="3" color="#000000"><strong>Ilka Marinho Zanotto:</strong> Falou, claro.</font></p>
<p><font size="3" color="#000000"><strong>Gerald Thomas: </strong>N&atilde;o</font></p>
<p><font size="3" color="#000000"><strong>[...]:</strong> Falou, sou testemunha.</font></p>
<p><font size="3" color="#000000"><strong>[Risos]</strong></font></p>

<p><font size="3" color="#000000"><strong>Gerald Thomas:</strong> Eu acho <em>Metamorfose </em>um espet&aacute;culo que ainda est&aacute; muito incompleto. Eu tenho tr&ecirc;s espet&aacute;culos. Um entra em cartaz agora, mas tem dois em cartaz j&aacute; em p&eacute;, e um est&aacute; ensaiando. Eu j&aacute; considero como tudo em cartaz, mas enfim. Tem <em>Um processo,</em> que &eacute; o espet&aacute;culo mais maduro que eu j&aacute; fiz at&eacute; hoje, com resolu&ccedil;&otilde;es c&ecirc;nicas das mais complicadas. Na medida em que um palco vazio, inteiramente vazio, &eacute; uma das coisas mais complicadas que um diretor tem que lidar. Ele &eacute; o espet&aacute;culo mais complexo no sentido de interpreta&ccedil;&atilde;o, de desdobramento de interpreta&ccedil;&atilde;o, de resolu&ccedil;&atilde;o verbal para esse desdobramento de interpreta&ccedil;&atilde;o, de ilumina&ccedil;&atilde;o, de trilha, e da import&acirc;ncia da trilha, na medida em que, por exemplo... <em>Um processo</em> lida com a invas&atilde;o. Coloco no in&iacute;cio uma sinfonia bel&iacute;ssima de C&eacute;sar Franck [(1822-1890) compositor], ningu&eacute;m sabe disso, mas a sinfonia foi composta pelo C&eacute;sar Franck como a poss&iacute;vel invas&atilde;o da B&eacute;lgica pela Fran&ccedil;a - ele era Belga. Isso s&oacute; quer dizer que existe uma verdade cronol&oacute;gica em algum canto do universo, ningu&eacute;m precisa saber disso. E <em>Um processo</em> tem muito [da &oacute;pera]<em> Parsifal</em> do Wagner, o que &eacute; a trajet&oacute;ria do <em>Parsifal</em> sen&atilde;o a tomada de consci&ecirc;ncia atrav&eacute;s dos obst&aacute;culos que ele encontra, por uma invas&atilde;o de consci&ecirc;ncia, n&atilde;o &eacute;?</font></p>

<p><font size="3" color="#000000"><strong>ILka Marinho Zanotto:</strong> Certo.</font></p>
<p><font size="3" color="#000000"><strong>Gerald Thomas: </strong>Quer dizer, s&atilde;o essas brincadeiras auto-incestuosas e incestuosas para o p&uacute;blico em geral, que solidificam um espet&aacute;culo para mim. Complicam muito durante o processo de ensaio e, depois, como eu ensaio, bem ou mal, &eacute; uma quest&atilde;o minha. Eu acho que <em>Um processo</em> est&aacute; extremamente maduro. &Eacute; um espet&aacute;culo que foi visto na estr&eacute;ia por pessoas que vieram de Nova Iorque e disseram: &quot;que loucura!&quot; &Eacute; um espet&aacute;culo que pode ser levado para qualquer lugar do mundo, e pode ser entendido musicalmente, porque &eacute; uma &oacute;pera e t&ecirc;m muitos elementos oper&iacute;sticos dentro dela. <em>Metamorfose</em> ainda n&atilde;o est&aacute; pronta. Quer dizer, &eacute; essa peculiaridade de teatro que estr&eacute;ia. Tem que estrear. Tem que estrear, tem que ser nove e quinze da noite, e a gente vai consertando com o tempo. Quer dizer, quem v&ecirc; o espet&aacute;culo daqui a um m&ecirc;s n&atilde;o vai ver o mesmo espet&aacute;culo. O mesmo ocorre com <em>Praga</em>. <em>Praga</em> tem quarenta e poucos minutos, quando, na verdade, teria que ter sessenta, porque simplesmente n&atilde;o h&aacute; tempo. E o perfeccionismo e a minuciosidade &eacute; uma obsess&atilde;o t&atilde;o caracter&iacute;stica que, enquanto aquela unha n&atilde;o estiver no lugar certo, em rela&ccedil;&atilde;o ao tapete, eu n&atilde;o consigo ultrapassar aquela cena e vai ficar sendo repetida at&eacute; conseguir entrar.</font></p>

<p><font size="3" color="#000000"><strong>Ant&ocirc;nio Carlos Ferreira:</strong> Gerald. Eu gostaria de interromper um pouquinho o debate sobre a sua pe&ccedil;a atual, sobre a <em>Trilogia Kafka </em>e colocar uma quest&atilde;o anterior, ainda com rela&ccedil;&atilde;o &agrave; cr&iacute;tica. Talvez at&eacute; seja meio folcl&oacute;rica, mas &eacute; inevit&aacute;vel em um debate como esse, [remeter] &agrave;quela grande pol&ecirc;mica que voc&ecirc; teve com o M&aacute;rio Henrique Simonsen [(1935-1997) ministro da Fazenda no governo de Ernesto Geisel entre 1974 e 1979], o ex-ministro e eventual cr&iacute;tico de &oacute;pera, com rela&ccedil;&atilde;o &agrave; montagem que voc&ecirc; fez do <em>Navio fantasma.</em> Eu queria saber o que voc&ecirc; acha dele como cr&iacute;tico, quem sabe, at&eacute; como economista. Porque acho que agora voc&ecirc; tamb&eacute;m est&aacute; liberado para critic&aacute;-lo como economista, n&atilde;o &eacute;?</font></p>

<p><font size="3" color="#000000"><strong>Gerald Thomas: </strong>Olha, o que aconteceu &eacute; o seguinte. A cr&iacute;tica literal me irrita de uma maneira profunda. Em primeiro lugar, eu acho que eles n&atilde;o deveriam ver os meus espet&aacute;culos. Porque o <em>Navio fantasma</em>, que lida com navios e lida com o mar, principalmente na cidade do Rio de Janeiro, que tem trinta e sete quil&ocirc;metros de orla mar&iacute;tima, entrar no palco e querer ver &aacute;gua &eacute; o &quot;fim da picada&quot;. N&atilde;o aceitar met&aacute;foras &eacute; o &uacute;ltimo ultraje sim, no caso. Em segundo lugar, n&atilde;o tenho d&uacute;vidas de que ele j&aacute; deve ter passado muitas luas-de-mel com um badejo [risos]. A frase &eacute; dele, gente! N&atilde;o &eacute; minha! Eu n&atilde;o tenho d&uacute;vidas. Deu no que deu e voc&ecirc;s julguem o resto. Agora, a briga come&ccedil;ou por um erro meu, um erro infantil, bestial meu, que quando a&nbsp; [TV] Cultura estava l&aacute;, gravando o programa ao vivo, foram me entrevistar entre um ato e outro. Primeiro me perguntaram sobre a cr&iacute;tica [dele] e eu o chamei de ladr&atilde;o e n&atilde;o devia ter feito isso, porque... n&atilde;o que eu n&atilde;o esteja chamando ele de ladr&atilde;o agora, [mas] eu teria que chamar todos os ministros, todos os deputados e todas as pessoas p&uacute;blicas de ladr&atilde;o tamb&eacute;m. Pode ser que nesse programa ainda, chame todos eles de ladr&atilde;o. Mas at&eacute; agora n&atilde;o chamei. Ent&atilde;o, isolar, transformar o Simonsen em um caso isolado &eacute; o fim da picada, enfim. Nunca me retratei publicamente em rela&ccedil;&atilde;o a isso. Agora, ele como cr&iacute;tico, ele &eacute; um entendedor, ele &eacute; um apreciador conservador de &oacute;pera. Isso n&atilde;o quer dizer que... N&atilde;o existem entendedores, voc&ecirc; entende? Existem criadores e existem pessoas que querem transformar e reinterpretar aquilo para uma outra m&iacute;dia que &eacute; o jornal, que &eacute; a cr&iacute;tica. Eu s&oacute; acredito em cr&iacute;tica como um acess&oacute;rio sensorial em rela&ccedil;&atilde;o ao que est&aacute; acontecendo. Em rela&ccedil;&atilde;o a isso, ele n&atilde;o se contradisse, ele fez o que sentiu. Ele n&atilde;o gostou. O n&atilde;o gostar dele [...] n&atilde;o gosto desse n&atilde;o gostar dele. Mas cada um tem o direito de se expressar como pode, e &eacute; isso. Quer dizer, o que &eacute; que eu acho como economista? Eu n&atilde;o sei, mas pergunte ao Brasil de hoje se voc&ecirc; acha que isso que est&aacute; acontecendo... Se o Brasil de hoje est&aacute; no que est&aacute; por causa do governo de hoje? Acho que n&atilde;o, n&atilde;o &eacute;? </font></p>

<p><font size="3" color="#000000"><strong>Ant&ocirc;nio Carlos Ferreira: </strong>Por falar nos governos anteriores, voc&ecirc; falou tamb&eacute;m do The Living Theater e, evidentemente, a gente se lembra do que eles passaram quando estiveram aqui. Foram presos, teve mil problemas, tudo. E, ao mesmo tempo, eu me lembro de uma outra face da sua biografia, que eu n&atilde;o coloquei aqui, mas foi na primeira vez que, inclusive, eu o conheci. Eu conheci voc&ecirc; a cerca de onze anos atr&aacute;s, eu era diretor de um jornal e voc&ecirc; surgiu l&aacute; como representante da Anistia Internacional [organiza&ccedil;&atilde;o n&atilde;o governamental que atua na &aacute;rea de direitos humanos]. Voc&ecirc; veio aqui, inclusive, fazer levantamentos sobre torturas e etc. Como &eacute; esse seu passado? Esse seu passado como membro da Anistia Internacional aqui no Brasil, em um pa&iacute;s que, na &eacute;poca, tinha tortura, censura &agrave; imprensa, no nosso caso, no seman&aacute;rio que eu dirigia, era censura &agrave; imprensa.</font></p>

<p><font size="3" color="#000000"><strong>Gerald Thomas:</strong> Bom, na &eacute;poca, eu trabalhava na Anistia, mas na sede que &eacute; chamada de Secretariado Internacional, que &eacute; em Londres, n&atilde;o &eacute;? Eu estava um pouco livre da tortura. Vim aqui algumas vezes levantar dados, mas acho que at&eacute; meio inc&oacute;gnito, na &eacute;poca. Eu n&atilde;o sei, por uma...</font></p>
<p><font size="3" color="#000000"><strong>Ant&ocirc;nio Carlos Ferreira:</strong> &Eacute;, tudo naquela &eacute;poca era meio inc&oacute;gnito.</font></p>

<p><font size="3" color="#000000"><strong>Gerald Thomas: </strong>Meio inc&oacute;gnito, &eacute;. Passava pelos <em>Lus&iacute;adas</em>, n&atilde;o &eacute;? Ou pelas receitas culin&aacute;rias [refere-se &agrave;s not&iacute;cias de jornais durante o regime militar que, quando censuradas, davam lugar a receitas e trechos de obras como<em> Os Lus&iacute;adas</em>, por exemplo, com forma de protesto]. Eu me sentia dentro de um vatap&aacute;, &agrave;s vezes. Era uma coisa engra&ccedil;ada. Eu estava fazendo teatro l&aacute; e estava pintando, e, um dia eu abro o jornal que eu lia, que era <em>The Guardian</em>, que &eacute; um jornal meio liberal na Inglaterra e vejo uma enorme reportagem sobre desaparecidos no Brasil. Eu j&aacute; n&atilde;o estava em contato com o Brasil h&aacute; muitos anos nessa &eacute;poca. E fiquei absolutamente assustado com aquilo, porque eu achava... Eu tinha no&ccedil;&atilde;o de que estava acontecendo isso, mas o Chile era a grande coisa na &eacute;poca, n&atilde;o &eacute;? Setenta e cinco mil executados em um est&aacute;dio de futebol. Pinochet, aquela ditadura horr&iacute;vel. Esse era o par&acirc;metro que se tinha no mundo. Ent&atilde;o, a Am&eacute;rica Latina estava mais ou menos coberta pelo... Pela preocupa&ccedil;&atilde;o da Europa e dos Estados Unidos em rela&ccedil;&atilde;o a essa v&iacute;tima chamada Chile. Resolvi ligar para a Anistia Internacional e perguntar se o departamento que lidava com o Brasil estava munido das pessoas necess&aacute;rias e disse, j&aacute; no telefone, que falava perfeitamente bem o portugu&ecirc;s, que era um pouco brasileiro e que podia colaborar. No dia seguinte, eu estava no telex e n&atilde;o sa&iacute; de l&aacute;. Fiquei quatro anos dentro da Anistia Internacional. Foi um dos piores governos aqui, era um... Desaparecimento... diariamente [...] Converg&ecirc;ncia Socialista [grupo de esquerda da &eacute;poca que, mais tarde, militou dentro do PT e, posteriormente, originou o Partido Socialista dos Trabalhadores Unidos (PSTU)], pessoas que [...] enfim, grupos inteiros desapareciam e reapareciam. A sede do PCdoB [Partido Comunista do Brasil] foi invadida e pessoas como Pedro Pomar [(1913-1976) fundador do PCdoB e redator-chefe do jornal <em>A Classe Oper&aacute;ria</em>. Foi executado pela repress&atilde;o no dia 16 de dezembro de 1976], foram assassinadas. Elza Pomerati ou Monserati, eu n&atilde;o me lembro...</font></p>

<p><font size="3" color="#000000"><strong>Ant&ocirc;nio Carlos Ferreira:</strong> </font><font size="3" color="#000000">Monnerat.</font></p>
<p><font size="3" color="#000000"><strong>Gerald Thomas: </strong>Monnerat [militante comunista e guerrilheira no Araguai]. Rholine Sonde Cavalcante em Itamarac&aacute; e Carlos Alberto... Olha, os nomes voltam de repente. E eu, eu senti...</font></p>
<p><font size="3" color="#000000"><strong>Ant&ocirc;nio Carlos Ferreira: </strong>E voc&ecirc; fazendo os relat&oacute;rios.</font></p>

<p><font size="3" color="#000000"><strong>Gerald Thomas:</strong> &Eacute;, entrando em contato com o Superior Tribunal Militar, almirante H&eacute;lio Leite, na &eacute;poca. Escrevendo por telex direto para ele e com todas as oitenta. Na &eacute;poca, eram oitenta e nove centrais da Anistia no mundo mobilizando pessoas para que mandassem telegramas pedindo a soltura urgente dessa pessoa. Uma coisa que se chamava Campaign for the Abolition of Torture (</font><font size="3" color="#000000">CAT)</font><font size="3" color="#000000"> - Campanha pela Aboli&ccedil;&atilde;o da Tortura - que tinha que ser rel&acirc;mpago. Voc&ecirc; acaba n&atilde;o saindo da Anistia, vinte e quatro horas do seu dia s&atilde;o dedicadas &agrave;quilo. Eu percebi que era a &uacute;nica pessoa, ent&atilde;o, que estava lidando com o Brasil efetivamente. E descobri que, como essa &eacute;poca era muito repressiva, existiam muito poucas... Existia muito pouca no&ccedil;&atilde;o, por exemplo, de pessoas aqui em S&atilde;o Paulo, em rela&ccedil;&atilde;o ao que estava acontecendo em Ponta Por&atilde;, Mato Grosso e Cear&aacute;. E eu comecei a centralizar informa&ccedil;&otilde;es que, mais tarde, de uma forma muito legal, virou o Comit&ecirc; Brasileiro da Anistia </font><font size="3" color="#000000">(CBA)</font><font size="3" color="#000000"> - Ira Maia e Eli [Borges], Raimundo Moreira no Rio. E enfim... S&atilde;o Paulo tamb&eacute;m, com o Cardeal [Paulo Evaristo] Arns. Aqui em S&atilde;o Paulo, o jornal <em>Movimento</em>, enfim, tudo isso levou a um congresso de exilados e banidos brasileiros em Roma em 1979, o que, por acaso, casualmente, foi coincidir com a promulga&ccedil;&atilde;o da [Lei da] Anistia em 1979. E meu trabalho acabou e eu voltei para o teatro.</font></p>

<p><font size="3" color="#000000"><strong>Ant&ocirc;nio Carlos Ferreira: </strong>Nesse tempo todo, voc&ecirc; ficou fora do teatro.</font></p>
<p><font size="3" color="#000000"><strong>Gerald Thomas:</strong> N&atilde;o. Eu, na medida do poss&iacute;vel, eu fazia teatro tamb&eacute;m. Mas, &agrave;s vezes, eu ficava, literalmente, vinte e quatro horas dentro da Anistia Internacional porque, na medida em que ia saindo um telex, eu pelo r&aacute;dio amador, recebia a not&iacute;cia de que uma outra pessoa tinha sido presa ou espancada. <a href="javascript:;" onmouseover="return overlib('Vladimir Herzog, jornalista, conhecido tamb&eacute;m como &quot;Vlado&quot;, assassinado pelos &oacute;rg&atilde;os de repress&atilde;o durante a ditadura militar no Brasil, em epis&oacute;dio que desencadeou os primeiros grandes protestos, inclusive da imprensa internacional, que acabaram por levar &agrave; abertura pol&iacute;tica. Trabalhou em v&aacute;rios &oacute;rg&atilde;os da imprensa, inclusive na TV Cultura, onde era diretor de jornalismo quando foi convocado, apresentando-se na noite de 24 de outubro de 1975, para depoimento junto ao DOI-Codi (Destacamento de Opera&ccedil;&otilde;es de Informa&ccedil;&otilde;es/ Centro de Opera&ccedil;&otilde;es de Defesa Interna), em S&atilde;o Paulo, para prestar esclarecimentos sobre suas liga&ccedil;&otilde;es com o PCB (Partido Comunista Brasileiro), e onde foi torturado. Em 25 de outubro de 1975, aos 38 anos, estava morto com laudo oficial de suic&iacute;dio por enforcamento. A divulga&ccedil;&atilde;o da foto famosa, onde &eacute; evidente a fraude, provocou horror e perplexidade. No dia 31 de outubro de 1975, foi realizado um culto ecum&ecirc;nico em mem&oacute;ria de Herzog na Catedral da S&eacute;, do qual participaram 8.000 pessoas, num protesto silencioso contra o regime, que se ampliaria ao longo do tempo.', ABOVE, RIGHT, WIDTH, '280');" onmouseout="return nd();" style="cursor: default; text-decoration: none; color: #F00; z-index: 2; text-align: left;">Vladimir Herzog</a> que morria, Manoel Fiel Filho [metal&uacute;rgico] que morria tamb&eacute;m. E...</font></p>

<p><font size="3" color="#000000"><strong>Mario Prata: </strong>Gerald. Eu queria te fazer uma pergunta sobre um, dois, tr&ecirc;s, quatro, cinco, seis, sete brasileiros. Voc&ecirc; quer os sete de uma vez, ou...</font></p>
<p><font size="3" color="#000000"><strong>Gerald Thomas:</strong> ...aquela chamada metralhadora!</font></p>
<p><font size="3" color="#000000"><strong>Ant&ocirc;nio Carlos Ferreira:</strong> Um a um, bem curtinho.</font></p>
<p><font size="3" color="#000000"><strong>Mario Prata:</strong> N&atilde;o. Bem curtinho. Chacrinha [(1916-1988) apresentador de programas de audit&oacute;rio para a televis&atilde;o, criador de um estilo &uacute;nico e inconfund&iacute;vel]?</font></p>

<p><font size="3" color="#000000"><strong>Gerald Thomas:</strong> Eu desconhe&ccedil;o.Sei da fama que ele tem, vi um programa de televis&atilde;o, mas n&atilde;o convivi os anos em que o Chacrinha foi extremamente importante. Eu s&oacute; sei disso atrav&eacute;s de textos do Caetano, do Jorge Mautner, do Gilberto Gil, do H&eacute;lio Oiticica.</font></p>
<p><font size="3" color="#000000"><strong>Mario Prata:</strong> Est&aacute; legal. Est&aacute;. Essa aqui vai ser dif&iacute;cil voc&ecirc; falar pouco, mas, em todo o caso. Jos&eacute; Celso [(1937-), ator e dramaturgo, criador do <a href="javascript:;" onmouseover="return overlib('O Teatro Oficina foi criado em 1958 por um grupo de estudantes da Escola de Direito do Largo de S&atilde;o Francisco, em S&atilde;o Paulo, entre eles o diretor Jos&eacute; Celso Martinez Corr&ecirc;a, considerado hoje a grande figura do teatro escola. Distinguiu-se de outras companhias teatrais por ousadias c&ecirc;nicas e por ter absorvido v&aacute;rias vertentes das artes c&ecirc;nicas internacionais, dando-lhes um cunho eminentemente brasileiro. A primeira grande realiza&ccedil;&atilde;o do elenco ocorreu em 1963, com a pe&ccedil;a &lt;i&gt;Pequenos burgueses&lt;/i&gt;, de G&oacute;rki, dirigida por Jos&eacute; Celso. Por&eacute;m, foi a estr&eacute;ia de &lt;i&gt;O rei da vela&lt;/i&gt;, em 1967, que elevou a condi&ccedil;&atilde;o de companhia para escola, trazendo para o teatro id&eacute;ias do movimento art&iacute;stico brasileiro - Oswald de Andrade e a antropofogia - que repercutiram em outras artes, como m&uacute;sica e cinema. O Oficina continua inovador e pol&ecirc;mico no in&iacute;cio do s&eacute;culo XXI.', ABOVE, RIGHT, WIDTH, '280');" onmouseout="return nd();" style="cursor: default; text-decoration: none; color: #F00; z-index: 2; text-align: left;">Teatro Oficina</a> de S&atilde;o Paulo</font><font size="3" color="#000000">]?</font></p>

<p><font size="3" color="#000000"><strong>Gerald Thomas:</strong> </font><font size="3" color="#000000">Eu acho o Jos&eacute; Celso, uma pessoa que cabe perfeitamente dentro deste pa&iacute;s, e infelizmente, cobram dele a realiza&ccedil;&atilde;o teatral. Acho que cabe neste pa&iacute;s uma pessoa que s&oacute; fala desembestadamente e revoltadamente contra coisas e a favor de outras. Como o <a href="javascript:;" onmouseover="return overlib('Uma das grandes refer&ecirc;ncias do cinema brasileiro, Glauber Rocha (1939-1981) &eacute; o nome mais famoso do movimento conhecido como Cinema Novo. Sua carreira come&ccedil;ou em Salvador onde produziu seu primeiro curta, em 1942. A partir de 1950, passa a retratar a realidade brasileira com uma linguagem simples e sem grandes produ&ccedil;&otilde;es ou efeitos, abordando temas fortemente ligados ao subdesenvolvimento do pa&iacute;s. Em 1963 foi premiado no festival internacional de cinema da Tchecoslov&aacute;quia com &lt;i&gt;Barravento&lt;/i&gt;. Em 1964, com &lt;i&gt;Deus e o diabo na terra do sol&lt;/i&gt; conquistou o Grande Pr&ecirc;mio no Festival de Cinema Livre da It&aacute;lia. E, finalmente com &lt;i&gt;Terra em transe&lt;/i&gt; conquistou o Pr&ecirc;mio da Cr&iacute;tica do Festival de Cannes. Partiu para o ex&iacute;lio em 1971 e, depois de visitar v&aacute;rios pa&iacute;ses da Am&eacute;rica Latina e &Aacute;frica, onde produziu &lt;i&gt;O le&atilde;o de sete cabe&ccedil;as&lt;/i&gt; e &lt;i&gt;Cabe&ccedil;as cortadas&lt;/i&gt;, passou a morar em Portugal onde adoece. Retorna ao Brasil em 1981, ano em que falece.', ABOVE, RIGHT, WIDTH, '280');" onmouseout="return nd();" style="cursor: default; text-decoration: none; color: #F00; z-index: 2; text-align: left;">Glauber</a> nos &uacute;ltimos anos da vida dele. Eu acho que cabe perfeitamente isso.</font></p>
<p><font size="3" color="#000000"><strong>Mario Prata: </strong>Xuxa [apresentadora de programa infantil]. </font></p>

<p><font size="3" color="#000000"><strong>Gerald Thomas: </strong>sil&ecirc;ncio... </font></p>
<p><font size="3" color="#000000"><strong>Mario Prata: </strong></font><font size="3" color="#000000">Nunca viu?</font></p>
<p><font size="3" color="#000000"><strong>Gerald Thomas:</strong> At&eacute; j&aacute; passei os olhos, mas, te confesso que n&atilde;o acho nada. Acho que... sempre brinco assim: se a cultura brasileira desaparecer, n&atilde;o adianta nada continuar a Xuxa, n&atilde;o &eacute;?</font></p>

<p><font size="3" color="#000000"><strong>Mario Prata:</strong> Nelson Rodrigues [(1912-1980) importante e pol&ecirc;mico dramaturgo, jornalista e escritor. Dentre suas obras, pode-se destacar <em>Vestido de noiva</em>, <em>Engra&ccedil;adinha</em>, <em>Perdoa-me por me tra&iacute;res</em>, encenadas por diversas gera&ccedil;&otilde;es de atores brasileiros].</font></p>
<p><font size="3" color="#000000"><strong>Gerald Thomas:</strong> &Eacute; um dos maiores g&ecirc;nios da dramaturgia do mundo e, por isso, vou montar os textos dele em Nova Iorque, &eacute; um dos...</font></p>

<p><font size="3" color="#000000"><strong>Mario Prata: </strong>Vai montar o qu&ecirc;, Gerald?</font></p>
<p><font size="3" color="#000000"><strong>Gerald Thomas:</strong> Eu vou montar <em>Dorot&eacute;ia,</em> <em>Anjo negro</em>, <em>Senhora dos afogados </em>e <em>&Aacute;lbum de fam&iacute;lia</em>; que s&atilde;o as quatro pe&ccedil;as definidas pelo S&aacute;bato Magaldi [cr&iacute;tico teatral] como m&iacute;sticas.</font></p>

<p><font size="3"><strong>Mario Prata:</strong> <font color="#ff0000"><font color="#000000">Caetano Veloso [compositor e cantor. Precursor do movimento Tropicalista]</font><br />
</font></font></p>
<p><font size="3"><strong>Gerald Thomas:</strong> Um absoluto g&ecirc;nio.</font></p>
<p><font size="3"><strong>Mario Prata:</strong><font color="#ff0000"> <font color="#000000">Sarney [presidente do Brasil entre 1985 e 1989].</font></font></font></p>
<p><font size="3"><strong>Gerald Thomas:</strong> O oposto do Caetano Veloso.</font></p>

<p><font size="3"><strong>Mario Prata</strong>: Obrigado.</font></p>
<p><font size="3"><strong>Ant&ocirc;nio Carlos Ferreira:</strong> Ent&atilde;o, mais um: Philip Glass, com quem voc&ecirc; est&aacute; trabalhando...</font></p>
<p><font size="3"><strong>Gerald Thomas:</strong> &Eacute;, eu trabalho...</font></p>

<p><font size="3"><strong>Ant&ocirc;nio Carlos Ferreira:</strong> ...que fez a m&uacute;sica da trilogia.</font></p>
<p><font size="3"><strong>Gerald Thomas</strong>: &Eacute;, eu trabalho com o Philip. Eu tenho uma rela&ccedil;&atilde;o muito de perto com o Philip. &Eacute; muito dif&iacute;cil eu v&ecirc;-lo como figura, &eacute; uma quest&atilde;o de dividir apartamento, casa e trabalho em conjunto, mas se eu estivesse um pouco do lado de fora disso, na terceira pessoa, o Philip &eacute; o maior revolucion&aacute;rio da m&uacute;sica moderna, na medida em que <font color="#ff0000"><font color="#000000">Stockhausen [(1928-2007) compositor e um dos fundadores da m&uacute;sica eletr&ocirc;nica] e</font><font color="#000000"> John Cage</font></font><font color="#000000"> </font>[(1912-1992) compositor de percuss&atilde;o. Buscava sempre experi&ecirc;ncias sonoras diversas. Inventou, por exemplo, o piano preprado onde se introduz objetos entre as cordas do instrumento, como peda&ccedil;os de papel, madeira, metal etc para que produzissem efeitos sonoros diversos. &Eacute; considerado o criador do <em>happening</em>. Uma de suas pe&ccedil;as mais conhecidas &eacute; <em>4'33' </em>(1952), com quatro minutos e 33 segundos de sil&ecirc;ncio] n&atilde;o existem, nem nunca existiram de verdade. S&atilde;o m&uacute;sicas que ningu&eacute;m consegue ouvir. S&atilde;o conceitualmente, important&iacute;ssimos. Colocar um microfone ligado dentro da &aacute;gua, ou tr&ecirc;s cachorros passeando em cima do piano, fazem um coment&aacute;rio vivo e importante, cr&iacute;tico. Ali&aacute;s, &eacute; o que eu tento fazer em teatro, entende? Essas pessoas, um coment&aacute;rio auto-incestuado, autof&aacute;gico com a m&uacute;sica em si. O Philip conseguiu o melhor dos dois mundos, conseguiu ser absolutamente emotivo e criar a revolu&ccedil;&atilde;o est&eacute;tica da m&uacute;sica ao mesmo tempo.</font></p>

<p><font size="3"><strong>Kleber de Almeida:</strong> Gerald, o seu trabalho como ilustrador em jornal, tem alguma import&acirc;ncia em sua vida?</font></p>
<p><font size="3"><strong>Gerald Thomas:</strong> &Eacute; o que me sustentava durante muitos anos.</font></p>
<p><font size="3"><strong>Kleber de Almeida: </strong>S&oacute; para sustentar, n&atilde;o &eacute;?</font></p>

<p><font size="3"><strong>Gerald Thomas:</strong> &Eacute;, porque jornal &eacute; uma coisa que est&aacute; enrolando peixe no dia seguinte. Eu vi os meus desenhos, v&aacute;rias vezes, enrolando peixes no dia seguinte.</font></p>
<p><font size="3"><strong>Ant&ocirc;nio Carlos Ferreira: </strong>N&atilde;o diga isso, porque todos n&oacute;s aqui sobrevivemos gra&ccedil;as a esse papel, que embrulha peixe no dia seguinte.</font></p>
<p><font size="3"><strong>Kleber de Almeida: </strong>O jornal tamb&eacute;m que &eacute; interessante... </font></p>

<p><font size="3"><strong>Gerald Thomas: </strong>&Eacute; o <em>New York Times</em></font></p>
<p><font size="3"><strong>Kleber de Almeida:</strong> Tamb&eacute;m n&atilde;o estaria embrulhando peixe com um jornal qualquer.</font></p>
<p><font size="3"><strong>[risos]</strong></font></p>
<p><font size="3"><strong>Gerald Thomas:</strong> A melhor experi&ecirc;ncia, a melhor coisa de ter trabalhado para um jornal foi participar do <em>news room </em>[reda&ccedil;&atilde;o] , diariamente e ver como &eacute; que funciona aquela loucura toda. Um jornal real, quer dizer, que tem correspondentes no meio de Singapura ou no meio de Jacarta, ligando direto, relatando os fatos; n&atilde;o transmitindo <em>Reuters</em>, <em>UPI</em> [<em>United Press Internacional</em>], <em>Agence France Press</em> essas coisas todas. &Eacute; o &quot;caoticismo&quot; das oito horas da noite, chamado deadline do <em>hold press</em> [segurem as prensas], do <em>stop press</em> [parem as prensas], voc&ecirc; saber que uma primeira p&aacute;gina &eacute; feita em cinco minutos e ela pode mudar se o Reagan morrer&nbsp;[presidente dos Estados Unidos no ano desta entrevista, 1988] ou o Gorbatchev<font color="#ff0000"> </font>morrer [substituiu Andrei Gromyko na presid&ecirc;ncia da Uni&atilde;o Sovi&eacute;tica em 1988]. &Eacute; uma coisa fascinante e eu tentava, dentro disso tudo, fazer com que uma sombrinha sa&iacute;sse bonitinha e que fosse ret&iacute;cula e n&atilde;o fosse tra&ccedil;o e brigava na sala de velox [sala de montagem da ilustra&ccedil;&atilde;o para o jornal; e o velox, possivelmente, se tratava de um tipo de papel fotogr&aacute;fico]. Mas foi fascinante nesse sentido, s&oacute; que depois de cinco anos cansa, cansa profundamente.</font></p>

<p><font size="3"><strong>Vivien Lando: </strong>Gerald...</font></p>
<p><font size="3"><strong>Ant&ocirc;nio Carlos Ferreira</strong>: Queria o que Vivien?</font></p>
<p><font size="3"><strong>Vivien Lando:</strong> Eu queria te acoplar tr&ecirc;s perguntas aqui. A primeira &eacute; a seguinte: voc&ecirc; quer ser c&eacute;lebre?</font></p>

<p><font size="3"><strong>Gerald Thomas: </strong>Eu j&aacute; sou c&eacute;lebre.</font></p>
<p><font size="3"><strong>Vivien Lando: </strong>Voc&ecirc; &eacute; c&eacute;lebre?</font></p>
<p><font size="3"><strong>Gerald Thomas:</strong> Ora! Para quem essas pessoas todas est&atilde;o olhando?</font></p>

<p><font size="3"><strong>Vivien Lando:</strong> Vai ver que &eacute;...</font></p>
<p><font size="3"><strong>Gerald Thomas: </strong>S&atilde;o para o... Agora, lhe digo mais, devem ser para contradi&ccedil;&atilde;o de cor que est&atilde;o olhando. </font></p>
<p><font size="3"><strong>[mostra o isqueiro amarelo]</strong></font></p>
<p><font size="3"><strong>Vivien Lando:</strong> &Eacute; para o amarelo.</font></p>

<p><font size="3"><strong>Ant&ocirc;nio Carlos Ferreira</strong>: Esses s&atilde;o os quinze minutos amarelos na obra dele. Quinze segundos</font></p>
<p><font size="3"><strong>Gerald Thomas:</strong> Pronto. J&aacute; acabou. J&aacute; acabou.</font></p>
<p><font size="3"><strong>[interrompido]</strong></font></p>
<p><font size="3"><strong>Gerald Thomas:</strong> </font><font size="3">...o engra&ccedil;ado &eacute; que... A&iacute; falam de mod&eacute;stia. Voc&ecirc; n&atilde;o &eacute; modesto, voc&ecirc; &eacute; narcis&iacute;stico, voc&ecirc; &eacute; megaloman&iacute;aco. Eu sou realista &ldquo;p&ocirc;&rdquo;. Quer dizer, que absurdo, n&atilde;o &eacute;? E, se isso aqui n&atilde;o &eacute; celebridade, o que &eacute;? </font></p>

<p><font size="3"><strong>Vivien Lando: </strong>Acho que &eacute; fama.</font></p>
<p><font size="3"><strong>Gerald Thomas:</strong> &Eacute; s&oacute; o reconhecimento de um fato. Se eu gosto disso? N&atilde;o, eu n&atilde;o participo. Voc&ecirc; nunca vai me ver em restaurantes p&uacute;blicos. Voc&ecirc; nunca vai me ver sendo bajulado por ningu&eacute;m. Tenho uma vida profundamente exclusivista e detesto carinho, nesse sentido.</font></p>

<p><font size="3"><strong>Vivien Lando:</strong> &Eacute;. N&atilde;o. &Eacute; que o Caetano falou outro dia no programa, que ele sabia que ia ser famoso, mas que ele queria ser c&eacute;lebre. Quer dizer, tem uma diferen&ccedil;a estabelecida a&iacute;.</font></p>
<p><font size="3"><strong>Gerald Thomas:</strong> <font color="#000000">Semiol&oacute;gica, disso a&iacute;...</font><font color="#000000"> O que Foucault diria de c&eacute;lebre?&nbsp;[o fil&oacute;sofo Michel Foucault (1926-1985) foi autor de v&aacute;rias obras: <em>Vigiar e Punir </em>(1975), <em>Hist&oacute;ria da loucura</em> (1978), <em>Hist&oacute;ria da sexualidade </em>(1985), <em>Arqueologia do Saber</em> (1985).&nbsp;Em <em>As palavras e as coisas -</em> uma arqueologia das ci&ecirc;ncias humanas (1966), livro que o tornou conhecido em todo mundo, explora os atravessamentos entre&nbsp;linguagem, hist&oacute;ria e cultura].</font> Bom, ele diria, em primeiro lugar, que a palavra lembra c&eacute;rebro, que quer dizer intelig&ecirc;ncia, o que eu tamb&eacute;m sou profundamente. N&atilde;o sei... Tudo isso &eacute; <em>a posteriori</em>, n&atilde;o &eacute;? Eu n&atilde;o vou ter a menor import&acirc;ncia daqui a vinte anos.</font></p>

<p><font size="3"><strong>Vivien Lando:</strong> Voc&ecirc; tem certeza disso?</font></p>
<p><font size="3"><strong>Gerald Thomas: </strong>Eu tenho absoluta certeza disso.</font></p>
<p><font size="3"><strong>Aimar Labaki:</strong> Dentro dessa pergunta. Quando voc&ecirc; respondeu para o Kleber, voc&ecirc; citou Beckett e citou Duchamp. E no <em>Processo</em>, voc&ecirc; entra e ilumina a sua par&oacute;dia de Brecht. Voc&ecirc; acha que a tua obra possa vir a ter a mesma import&acirc;ncia? Voc&ecirc; se leva t&atilde;o a s&eacute;rio assim?</font></p>

<p><font size="3"><strong>Gerald Thomas:</strong> N&atilde;o. Eu n&atilde;o... Eu tenho perfeita no&ccedil;&atilde;o da mediocridade da minha obra perante a obra dessas pessoas. Total, quer dizer, n&atilde;o adianta mentir sobre isso...</font></p>
<p><font size="3"><strong>Ant&ocirc;nio Carlos Ferreira:</strong> Ali&aacute;s, Gerald, tem uma pessoa aqui na plat&eacute;ia que me passou uma pergunta, por escrito, dizendo assim: Olha, voc&ecirc; criticou a condi&ccedil;&atilde;o de famosos brasileiros da General Motors, da Volkswagen, voc&ecirc; fuma Gitane, voc&ecirc; acha tudo ruim? Ent&atilde;o, ele pergunta se quando voc&ecirc; olha para o espelho, voc&ecirc; acha algum defeito em voc&ecirc; mesmo.</font></p>

<p><font size="3"><strong>Gerald Thomas: </strong>Todos. Eu me acho fe&iacute;ssimo, por exemplo, mas me acho profundamente interessante, ao mesmo tempo. Nada &eacute; monol&iacute;tico, certo? Eu s&oacute; fumo Gitane, porque, n&atilde;o &eacute; por causa da marca, mas &eacute; porque o fumo &eacute; um fumo negro. Inadulterado. A&iacute; eu vou te dar uma li&ccedil;&atilde;o, dizendo assim, as companhias como a British American Tobaco </font><font size="3">(BAT), Souza Cruz, essas coisas, fabricam cigarros que s&atilde;o banhados em mil e trezentos produtos qu&iacute;micos e eu, realmente, n&atilde;o quero me sujeitar a esse tipo de absurdo. E esse cigarro vem do Nordeste [mostra a caixa]. O fumo vem do Nordeste do Brasil; Bahia, Pernambuco, mas &eacute; industrializado na Fran&ccedil;a, e quando eu viajo, eu trago. S&oacute; isso.</font></p>

<p><font size="3"><strong>Vivien Lando: </strong>Deixa-me acoplar as outras duas, a&iacute;. A maior cr&iacute;tica que eu ouvi de todos os seus espet&aacute;culos e que tenho como cr&iacute;tica tamb&eacute;m, &eacute; que falta uma coisa chamada emo&ccedil;&atilde;o, que pode ou n&atilde;o ser dada por um recurso est&eacute;tico, est&aacute; certo? &Agrave;s vezes funciona, &agrave;s vezes n&atilde;o. Na maioria das vezes, as pe&ccedil;as que eu vi - foram quatro - eu n&atilde;o senti a emo&ccedil;&atilde;o. Eu queria saber como voc&ecirc; v&ecirc; isso? Se voc&ecirc; inclui nisso aquela coisa do ator, que voc&ecirc; falou, &ldquo;stanislawisquiana&rdquo;, etc e tal...</font></p>

<p><font size="3"><strong>Gerald Thomas:</strong> Se voc&ecirc; quiser ter emo&ccedil;&atilde;o, mate um membro da sua fam&iacute;lia. &Eacute; a melhor maneira de voc&ecirc; ter emo&ccedil;&atilde;o. Ou atropele um desconhecido qualquer. Quando voc&ecirc; saltar do carro, a tua perna vai estar tremendo de emo&ccedil;&atilde;o. Ou, ent&atilde;o, vai ver <em>Rambo</em>, &eacute; emocionante, isso &eacute; ineg&aacute;vel. Vai ver filmes que primam por isso. Eu lido com uma emo&ccedil;&atilde;o...</font></p>

<p><font size="3"><strong>Vivien Lando:</strong> S&oacute; que quando voc&ecirc; monta Nelson Rodrigues... voc&ecirc; est&aacute; montando o dramaturgo mais emocionante brasileiro, pelo menos.</font></p>
<p><font size="3"><strong>Gerald Thomas: </strong>Emocionante. A palavra emo&ccedil;&atilde;o passa pelo lado mais subjetivo, mais descaracterizado da nossa personalidade como condicionador de julgamentos e de prop&oacute;sitos. Como voc&ecirc; pode classificar emo&ccedil;&atilde;o? Uma pessoa pode delirar com uma linha reta que encontra uma curva l&aacute; em cima. Eu, por exemplo, deliro com isso.</font></p>

<p><font size="3"><strong>Vivien Lando:</strong> Voc&ecirc; se emociona com seus espet&aacute;culos?</font></p>
<p><font size="3"><strong>Gerald Thomas:</strong> Eu? N&atilde;o. Porque eu nunca vejo os meus espet&aacute;culos. Eu os comando da coxia. Ent&atilde;o, n&atilde;o tenho a menor id&eacute;ia do que est&aacute; acontecendo, de frente, n&atilde;o &eacute;? Depois do ensaio geral eu fico l&aacute; atr&aacute;s e fico at&eacute; o &uacute;ltimo dia l&aacute; atr&aacute;s.</font></p>

<p><font size="3"><strong>Vivien Lando:</strong> E voc&ecirc; pretende que eles emocionem?</font></p>
<p><font size="3"><strong>Gerald Thomas:</strong> Volta aquela... Essa pergunta &eacute; acoplada &agrave;s perguntas que iniciaram esse debate. N&atilde;o quero nem saber. Se emocionam, maravilha. Se n&atilde;o emocionam, mais maravilha ainda. Existe uma emo&ccedil;&atilde;o...</font></p>
<p><font size="3"><strong>Vivien Lando: </strong>Gerald. E agora...</font></p>

<p><font size="3"><strong>Gerald Thomas:</strong> Existe uma emo&ccedil;&atilde;o, existe um ponto onde a raz&atilde;o encontra com a emo&ccedil;&atilde;o. Essa talvez seja a mais brilhante e inteligente forma de se sentir uma emo&ccedil;&atilde;o. Chorar porque algu&eacute;m morreu... </font></p>
<p><font size="3"><strong>Vivien Lando</strong>: N&atilde;o &eacute; dessa que eu estou falando.</font></p>
<p><font size="3"><strong>Gerald Thomas:</strong> Esse tipo de emo&ccedil;&atilde;o n&atilde;o me fala aos test&iacute;culos.</font></p>

<p><font size="3"><strong>Vivien Lando: </strong>Agora, s&oacute; para encerrar aqui. O que &eacute; que voc&ecirc; acha que o bom diretor, principalmente no Brasil, precisa ter como caracter&iacute;sticas pessoais.</font></p>
<p><font size="3"><strong>Gerald Thomas: </strong>Eu j&aacute; n&atilde;o acredito em diretor. Eu acredito como uma pessoa que faz uma obra. Eu acredito em um pintor, criador, obcecado, vision&aacute;rio. Dirigir uma pe&ccedil;a e n&atilde;o fazer nada, para mim, e ser parasita, s&atilde;o a mesma coisa. Contratar um figurinista, contratar um cen&oacute;grafo, contratar um iluminador e mandar os atores irem para l&aacute; e para c&aacute;, pegar um queijo e uma outra pessoa, para mim n&atilde;o quer dizer absolutamente nada, &eacute; t&atilde;o v&aacute;lido quanto um diretor de tr&acirc;nsito, ou menos ainda, porque um diretor de tr&acirc;nsito lida com coisas reais.</font></p>

<p><font size="3"><strong>Ant&ocirc;nio Carlos Ferreira: </strong>Gerald, eu queria que voc&ecirc; respondesse a &uacute;ltima pergunta do programa, da Maria Am&eacute;lia, por favor.</font></p>
<p><font size="3"><strong>Maria Am&eacute;lia Rocha Lopes:</strong> Rapidinho. Voc&ecirc; &eacute; filho de m&atilde;e inglesa, pai alem&atilde;o e &eacute; carioca. Eu queria saber se voc&ecirc; vai &agrave; praia, j&aacute; viu desfile de escola de samba e foi ao futebol no Maracan&atilde;?</font></p>

<p><font size="3"><strong>Gerald Thomas: </strong>N&atilde;o vou &agrave; praia, porque estou morando em S&atilde;o Paulo.</font></p>
<p><font size="3"><strong>Maria Am&eacute;lia Rocha Lopes:</strong> N&atilde;o ri. Voc&ecirc; est&aacute; no Rio.</font></p>

<p><font size="3"><strong>Gerald Thomas:</strong> Se voc&ecirc; me indicar uma praia em S&atilde;o Paulo, eu irei nela. Quando eu estou no Rio, eu vou &agrave; praia. Eu acho que o desfile, o samba enredo e a proposta visual da Vila Isabel [escola de samba carioca] esse ano foi uma das coisas mais... Qual era a palavra?</font></p>
<p><font size="3"><strong>Maria Am&eacute;lia Rocha Lopes:</strong> Emocionantes.</font></p>
<p><font size="3"><strong>Gerald Thomas:</strong> Emocionantes. Pela intelig&ecirc;ncia...</font></p>

<p><font size="3"><strong>Maria Am&eacute;lia Rocha Lopes: </strong>A emo&ccedil;&atilde;o cabe na escola de samba, mas n&atilde;o no teatro.</font></p>
<p><font size="3"><strong>Gerald Thomas:</strong> Pela intelig&ecirc;ncia da op&ccedil;&atilde;o das pessoas que fizeram esse desfile, pela intelig&ecirc;ncia. Veja, onde a emo&ccedil;&atilde;o encontra com a raz&atilde;o? N&atilde;o era aquela coisa, seios de fora s&oacute; por ter com brilhantina, aquela bobagem absoluta. A Vila Isabel foi uma coisa emocionante. Se voc&ecirc; pegar um fiapo de couro comum, ele n&atilde;o &eacute; emocionante, n&atilde;o &eacute;? Contextualizado ou descontextualizado, como a Vila Isabel estava, foi absolutamente emocionante. &Eacute;... Acho o futebol uma das coisas mais fant&aacute;sticas do mundo. S&oacute; n&atilde;o participo da febre dele porque n&atilde;o tor&ccedil;o por ningu&eacute;m. Acho umas jogadas absolutamente sensuais e musicais. Acho uma verdadeira &oacute;pera, para dizer a verdade.</font></p>

<p><font size="3"><strong>Ant&ocirc;nio Carlos Ferreira: </strong>Eu queria agradecer a presen&ccedil;a de Gerald Thomas aqui no <strong>Roda Viva</strong>. Queria agradecer tamb&eacute;m a presen&ccedil;a dos cr&iacute;ticos e jornalistas que estiveram aqui fazendo perguntas e ao p&uacute;blico presente. E o programa <strong>Roda Viva</strong> volta na pr&oacute;xima segunda-feira, as nove e vinte e cinco da noite. Uma boa noite a todos.</font></p>

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Anon7 - 2021