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<title>Gerald Thomas &amp; Dry Opera Company</title>
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<tr>
<td class="press2">
<H1>O Mall-estar na era do p&oacute;s-tudo</H1>
<p class="byline">By Antonio Quinet</p>

<p>
Processado no Rio no final do ano passado, Gerald Thomas &eacute; reverenciado em Nova York com sua mais recente pea Anchor pectoris - os estados unidos da mente recomendada pelo jornal Village Voice. Esse t&iacute;tulo enigm&aacute;tico (em latim &acirc;ncora no peito) se refere &agrave; angina (quadro agudo de extrema dor precursor do infarto card&iacute;aco), e tem o significado para o autor de uma forte (de)press&atilde;o ps&iacute;quica. A pe&ccedil;a foi realizada em tr&ecirc;s semanas a convite da Diretora do La Mama (famoso teatro de vanguarda), Ellen Stewart, que o chamou em janeiro para estrear em mar&ccedil;o. E Gerald mudou-se de Londres ancorando em NY no m&ecirc;s seguinte. E foi escrevendo e ensaiando ap&oacute;s ter vivido uma deep pression durante a qual escreveu o livro in&eacute;dito Notas de suic&iacute;dio.</p>

<p> A pe&ccedil;a, autobiogr&aacute;fica e pol&iacute;tica, mostra as ang&uacute;stias e os desencantos do sujeito contempor&acirc;neo imerso nas mentiras e hipocrisias desse mundo do capital, da moda, do consumo, da televis&atilde;o e das guerras. Trata-se de um bel&iacute;ssimo espet&aacute;culo dominado por um jogo m&aacute;gico de luzes e uma trilha sonora deslumbrante que fornecem o enquadramento a atores com vigorosa interpreta&ccedil;&atilde;o. Todo o espet&aacute;culo &eacute; gravado, inclusive as falas dos atores que dublam a si pr&oacute;prios.  &Eacute; surpreendente! Tanto o efeito quanto o motivo de tal procedimento. Na terra do Tio Sam, o sindicato dos atores exige que a produ&ccedil;&atilde;o de uma pe&ccedil;a deposite em uma conta tr&ecirc;s mil d&oacute;lares por ator como "medida protetora". O recurso, freq&uuml;entemente empregado em pe&ccedil;as Off Broadway com pouca verba (na verdade, as pe&ccedil;as dos melhores grupos de vanguarda), &eacute; a dublagem para caracterizar o espet&aacute;culo n&atilde;o como teatro mas como performance e assim poder n&atilde;o s&oacute; realizar o espet&aacute;culo como tamb&eacute;m dar emprego aos atores (!) Esperemos que essa moda n&atilde;o pegue no Brasil. Tirando partido desse procedimento, em princ&iacute;pio limitador, Gerald Thomas fez da trilha sonora um grande personagem!</p>

<p> Para fazer sua cr&iacute;tica c&aacute;ustica e divertida da sociedade contempor&acirc;nea, em especial a americana, Gerald Thomas provoca com a quest&atilde;o que percorre toda a pe&ccedil;a: o mundo de hoje n&atilde;o d&aacute; vontade de se matar? A pe&ccedil;a come&ccedil;a com o pr&oacute;prio diretor no palco deixando escorrer sangue falso de um tubo que espreme em seu antebra&ccedil;o. Logo em seguida aponta para o ator que ira represent&aacute;-lo (Tom Walker, do Living Theater) que por sua vez aponta para outro ator (o sensacional Stephan Nisbet) constituindo assim a dupla (becketiana) que dialogar&aacute; durante toda a pe&ccedil;a. Os outros oito atores s&atilde;o outras tantas vers&otilde;es do personagem principal quando n&atilde;o encenam o que a dupla dialoga. A exce&ccedil;&atilde;o &eacute; o personagem da Musa Morta (interpretado hilariamente pela brasileira Fabiana Guglielmetti). Figura da alteridade, sarc&aacute;stica e inteligente, ela desperta de sua morte como uma dan&ccedil;arina cr&iacute;tica (refer&ecirc;ncia ao cartoon de Jules Pfeiffer dos anos sessenta). </p>

<p>A pe&ccedil;a &eacute; composta por quadros sucessivos numa narrativa entrecortada que tem como eixo os diferentes fatores que causam o mal-estar atual na civiliza&ccedil;&atilde;o. Sob um fundo suicida, o personagem principal representa o sujeito atual perdido "entre confus&atilde;o e clich&ecirc;", que sofre de "neurose pol&iacute;tica" e &eacute; atordoado por vozes interiores (como por exemplo, a voz de Bush convocando ao ataque ao Iraque). A pe&ccedil;a passa da guerra, com bombas, sirenes e vidros estilha&ccedil;ados, &agrave; cr&iacute;tica &agrave; televis&atilde;o representada por eletrochoques que um ator-espectador recebe do pr&oacute;prio aparelho de TV. E, em seguida, &agrave; cr&iacute;tica da sociedade de consumo com os marqueteiros nos enchendo os ouvidos e os ditames da moda que v&atilde;o at&eacute; &agrave; academia de gin&aacute;stica: vivemos num grande Shopping Center. Da&iacute; o Mall-estar cada vez mais crescente pois o sujeito n&atilde;o tem recursos para atender ao imperativo fashion: Compre! Indignado, ultrajado, o personagem, (desta vez brechtianamente did&aacute;tico), n&atilde;o suporta "o casamento entre o business e o governo" nem "o m&eacute;nage-&agrave;-trois entre as corpora&ccedil;&otilde;es, o governo e o servi&ccedil;o secreto".</p>

<p>O autor tamb&eacute;m nos aponta o fim das teorias e ideologias, ao som do R&eacute;quiem de Faur&eacute;. A dan&ccedil;arina anuncia o fim da metaf&iacute;sica, da metalinguagem e do p&oacute;s-modernismo. Estamos na &eacute;poca do p&oacute;s-tudo. E o sujeito est&aacute; sozinho, sua musa (que representa inspira&ccedil;&atilde;o e criatividade) est&aacute; morta. E quando desperta, &eacute; uma caricatura�que acaba sendo arrastada, numa cena engra&ccedil;ad&iacute;ssima, para a academia de gin&aacute;stica. �At&eacute; o analista-fil&oacute;sofo para quem ele fala &eacute; surdo! Mas canta... um rap em que analisa toda a pe&ccedil;a (composto e interpretado magnificamente por Stacey Raymond).</p>

<p>No final da pe&ccedil;a, o personagem &eacute; enterrado com a bandeira americana pois foi "desplugado". O que resta como ideal &eacute; morrer pela p&aacute;tria numa guerra idiota? Mas o personagem ressuscita mais uma vez . Ele v&ecirc; uma luz para a qual ele caminha ao som de Billy Holyday cantando Minha solid&atilde;o. A constata&ccedil;&atilde;o &eacute; a falta de projetos coletivos, falha nos la&ccedil;os sociais. Onde colocar a &acirc;ncora? Votar a favor de qu&ecirc;? Eis o recado de Anchor pectoris que mostra a fun&ccedil;&atilde;o de despertador que o teatro pode ter para sacudir a bela sociedade adormecida.</p>


<br><br>
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</table>
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</html>


Anon7 - 2021