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<title>Gerald Thomas & Dry Opera Company</title>
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<H1>Garg�lios: um tapa na cara do fanatismo cultural</H1>
<p class="subhead">August 15, 2011
</p>
<p class="byline">By Bruno Fracchia - Tribuna de Santos</p>
<p><b>Bruno Fracchia � ator e escritor. Iniciou suas atividades art�sticas em 1998, quando realizou seu primeiro curso de interpreta��o. Formando em Teoria Teatral pela Universidade de S�o Paulo, Fracchia j� estudou com nomes como Cleyde Yac�nis, Aguinaldo Silva, Lu�s Alberto de Abreu, Silvia Fernandes, Luiz Fernando Ramos e Maria Thais. � um dos criadores da sinopse da telenovela Fina Estampa, de Aguinaldo Silva, no ar em agosto deste ano, �s 21h, na TV Globo.
</b></p>
<p>Os escombros do World Trade Center. Mundo em ru�nas. Conte�do, exposi��o da nossa desestabilizada sociedade? Forma, cena proibitiva a qualquer estabilidade referencial. H� muito, mundo moderno n�o cabe nas conven�es c�nicas.</p>
<p>P�s-Segunda Guerra, g�nios se perguntaram "teatro para qu�, para quem e por qu�?". Fizeram hist�ria. Seis d�cadas depois, numa sociedade p�s-Guerra Fria, p�s-dram�tica, p�s-moderna (e de todos os outros p�s-poss�veis e imagin�veis), de atentados terroristas, de novo levante de juventude retr�gada (mesmo quando supostamente revolucion�rias) e onde tudo se descarta a toque de caixa, o diretor de Garg�lios compartilha com o p�blico a inquieta��o: "para que e qual o teatro de nosso tempo?"</p>
<p>Pelo conte�do e forma utilizados por Gerald Thomas, qualquer texto nos moldes da l�gica dominante n�o d� conta de comunicar a experi�ncia (boa ou m�, a depender do receptor), que � assistir a um de seus trabalhos. Deste modo, os melindres que tinha em classificar meus artigos ca�ram por terra. A um teatro que n�o se encaixa em nenhuma forma, por que tentaria escrever uma cr�tica? Com esta obra, tentativa melhor de di�logo �, sem d�vida, a elabora��o de um texto reflexivo que aborde quest�es extra-cena, �nica forma de n�o limitar (injusta e indevidamente) toda a potencialidade art�stica existente neste espet�culo.</p>
<p>Com Garg�lios, Gerald n�o apresenta apenas um espet�culo, mas tamb�m um projeto de vida, em uma cena na qual fala n�o s� do seu artesanato teatral, mas de todo e qualquer Teatro. O diretor da London Dry Opera Company n�o ignora a intoler�ncia pol�tica e religiosa de nossos tempos e ao por esta quest�o em pauta numa pe�a com dramaturgia fora dos padr�es, Gerald nos oferece a possibilidade de refletir sobre in�meras quest�es da atualidade, dando autonomia para que cada espectador complete a hist�ria com quest�es que lhe toquem. Particularmente, Garg�lios me levou a refletir sobre uma esp�cie de fundamentalismo que todos conhecem, mas preferem tapar os olhos e fingir que n�o o v�em: o fundamentalismo art�stico.</p>
<p>Estava ansioso na poltrona como h� muito n�o ficava. Afinal, pela primeira vez assistiria a um espet�culo de uma das principais refer�ncias da hist�ria da cena teatral brasileira. A expectativa era grande. Quando menos esper�vamos, eis que Gerald irrompe em cena. Eu e a maioria do p�blico presente esper�vamos que ele fizesse agradecimentos, falasse de suas expectativas e sa�sse de cena para dar in�cio ao espet�culo. Quer�amos o Trivial? Melhor ir a outro lugar. Sem que percebamos, o espet�culo j� come�ou. O diretor faz um longo n�mero de contrabaixo (improvisado a partir da trilha criada por John Paul Jones), j� gerando uma inquietude no p�blico, que pela primeira vez na noite � tirado de sua zona de conforto: como assim, o diretor em cena? Mas e a pe�a? E a ilus�o teatral? Ali�s, e a beleza da cena geraldiana? Eis que ela surge ao levantar da cortina.</p>
<p>Uma cena impactante, em que se v� uma mulher nua, pendurada, tendo ao fundo uma cenografia que aponta os escombros do World Trade Center. S�o imagens que da forma como postas em cena possibilitam uma frui��o est�tica. Era o que esperava ver. Ali�s, mais do que eu esperava, pois esta "degusta��o" n�o se configura em exibicionismo art�stico e eu n�o imaginava uma cena de grande formalismo que j� ao ser posta se relacionasse com seu tempo. Mais uma vez, desinforma�es de um jovem artista.</p>
<p>Se o "pr�logo" n�o � convencional, n�o � o conjunto da dramaturgia que o seria.Garg�lios apresenta uma hist�ria, fragmentada, n�o linear, n�o dram�tica (do ponto de vista que n�o segue uma estrutura textual da pe�a bem feita e que possibilite catarse nos espectadores), mas ao mesmo tempo repleta de dramaticidade. N�o tr�gica, mas repleta tamb�m de tragicidade. Confuso? De modo algum. � que talvez me falte bagagem para saber concretizar em palavras a recusa do teatro geraldiano em se filiar a alguma forma (moldada anteriormente seja l� por quem).</p>
<p>Na hist�ria da pe�a, super-her�is nos escombros do World Trade Center v�o parar no psiquiatra, numa imagem tem forte simbologia: num mundo em escombros, em que as cat�strofes naturais, pol�ticas e os atos individuais insanos (como o massacre na Noruega, que surpreendente mente chegou a ser motivo de piadas infames no facebook, assim como o massacre na escola da periferia do Rio de Janeiro) nos deixam cada vez mais desorientados ("I don�t undestand, Sir", repetem os personagens), nem mesmo super-her�is podem nos dar suporte. Tivesse os direitos da Marvel e/ou da DC Comics, Batman, Super-homem, Lanterna Verde e Homem Aranha certamente estariam no palco, impotentes e perdidos, seja pela queda das Torre G�meas, seja pelas crian�as que morrem de fome e de AIDS no continente africano (e n�o s� nele). Os impotentes super-her�is de Garg�lios pedem ajuda a um psicanalista que se ap�ia em vermelhos saltos altos. � a desconstru��o de qualquer seguran�a. Mais uma forma de Gerald desconstruir qualquer referencial em que possamos tentar nos estabilizar.</p>
<p>Gerald nos traz um projeto de vida, pois p�e em cena um espet�culo que vai al�m de quest�es tem�ticas. Atrav�s da forma e do conte�do, ele nos d� a possibilidade de refletirmos sobre a pr�pria arte. "O que � arte?" talvez seja uma das perguntas mais recorrentes do mundo contempor�neo: Garg�lios � uma obra de arte. � uma obra de arte? �. Sem d�vida. N�o serei eu a negar que gosto n�o se discute. Entretanto, uma coisa s�o gostos, outras s�o fatos. Gostar ou n�o gostar n�o � crit�rio para "atestar" (ou n�o) a qualidade de um trabalho. E � fato este espet�culo ser uma obra art�stica.</p>
<p>Tenho a impress�o que de todas as artes, o teatro � a mais abstrata, mesmo para seus praticantes. Parece-me que � a �nica pr�tica em que os artistas s� admitem o seu fazer como a �nica forma poss�vel, contribuindo decisivamente para a forma��o de p�blicos que tamb�m pensem de forma fundamentalista, repudiando um espet�culo porque n�o se encaixa naquela forma que gosta de assistir.</p>
<p>N�o acredito que olhemos um quadro ou uma escultura como entretenimento, emitindo ju�zo de valor e comparando pintores e escultoras de escolas diferentes. Picasso � menos pintor do que Da Vinci? Benedito Calixto menor do que Tarsila? Insisto (num recurso repetitivo � laGarg�lios) Nosso gosto (que deve existir, felizmente) n�o � (pelo menos n�o deveria ser) crit�rio para defini��o de qualidade de uma obra. Podemos gostar mais de Da Vinci do que de Salvador Dali, mas isso n�o quer dizer que um seja melhor que o outro. No meio teatral, por defici�ncia de muitos formadores, raramente aprendemos a desenvolver esse olhar plural, verdadeiramente art�stico. Da� a exist�ncia de diretores, atores e espectadores fundamentalistas.</p>
<p>Devido � exist�ncia deste fundamentalismo, pensei que assistiria a um abandono em massa. Felizmente, fui injusto. De onde estava, consegui contar 3 ou 4 xiitas indo embora. Talvez n�o julgassem a pe�a como um bom teatro; talvez n�o a julgassem nem mesmo como arte teatral (ah, os ju�zes). Uma pena que tenham mentes estreitas. Estes fundamentalistas lembraram-me um trecho de O Inimigo do Povo, de Ibsen: "o p�blico n�o precisa de ideias novas. Do que ele precisa � das boas e velhas id�ias recebidas". Ibsen escreveu essa fala no final do s�culo XIX, num teatro moderno para a �poca, que falava de pessoas conservadoras, dito por um personagem retr�gado e conservador e para um p�blico que subia nas cadeiras, protestando contra as quest�es levantadas pelo dramaturgo. Mais de um s�culo depois, as coisas n�o mudaram muito. Ibsen hoje � cl�ssico, portanto antigo. Se Ibsen � antigo, aqueles que ficaram horrorizados com ele s�o o que? E o que dizer dos que abandonaram a apresenta��o de Garg�lios?</p>
<p>Quanto ao processo de montagem, Gerald deixou de lado um espet�culo pronto para ser apresentado no Brasil para come�ar tudo do zero, saindo da zona de conforto para a zona de risco. Mas "o que vem a ser a arte que n�o se nutre do risco? N�o � nada", afirma o diretor no programa de Garg�lios. Perfeito. Foi no risco que Ibsen, Tchekhov, Strindberg, Stanislavski, Brecht, Guarnieri, Boal, Bob Wilson, Mchoukine, Z� Celso e tantos outros g�nios surgiram. Certamente, muitos an�nimos tamb�m arriscaram, mas fracassaram em suas experi�ncias. Ainda assim, s�o muito mais valorosos do que os c�lebres (ou n�o) que insistem em permanecer na zona de conforto.</p>
<p>Al�m de n�o ter assistido trabalhos de Gerald anteriormente, li pouca coisa a respeito de suas produ�es. O suficiente para identificar procedimentos comuns ao longo de sua obra mas que n�o s�o se configuram como sinais de comodismo e sim como demonstra�es de valores art�sticos que o diretor acredita e os quais utiliza para comunicar o objetivo maior de suas produ�es. Um exemplo � uma declara��o de um estudo de Flora Sussekind e David George em que eles apontaram que "o registro de voz, sua manipula��o t�cnica e sua disponibiliza��o � como um elemento estruturante da escritura dramat�rgica e c�nica dos espet�culos � � um aspecto fundamental do teatro de Gerald Thomas". Isto � n�tido em Garg�lios, mas n�o de forma a constituir virtuosismo ou finalidade, mas sim um dos meios para comunicar as quest�es tem�ticas do espet�culo.</p>
<p>Imposs�vel n�o destacar os atores e o distanciamento cr�tico adotado pelo diretor. O elenco � uniforme, nenhum int�rprete destoa, revelando se pertence (ou n�o) a escolas de interpreta��o diferentes uma das outras. Essa uniformidade de elenco, rara mesmo em coletivos brasileiros, � mais um dos pontos a valorizar nesta obra. Todos s�o atores-performers com ex�mio trabalho corporal e vocal.</p>
<p>Quanto � abordagem tem�tica, Gerald se apropria de um conte�do de trag�dia moderna, sem procurar nem a piedade e terror da trag�dia cl�ssica (segundo Arist�teles), nem o melodrama barato. A frui��o est�tica e in�meros recursos que n�o nos permitem esquecer que estamos em um teatro n�o nos permitem fugir para as l�grima alucin�genas. O teatro de Thomas n�o � um teatro da ilus�o (como o diretor e os contra-regras expostos em cena bem provam). Como o professor Jos� da Costa bem exp�e em Teatro Brasileiro Contempor�neo, "Thomas n�o trabalha um teatro como representa��o do real". Eis a� mais um dos diferenciais do diretor: �bvio, f�cil e c�modo seria falar do real apelando para um suposto realismo e/ou naturalismo em cena. Mas a� Thomas geraria no m�ximo um mau document�rio. � no trabalho gerado pela busca de uma forma n�o convencional para falar de sua �poca que o diretor cria, fazendo arte e diferenciando-se uma vez mais da m�dia dos diretores brasileiros.</p>
<p>Imperd�vel o espet�culo. Para abrir os horizontes de qualquer artista e entender a pot�ncia desta arte que praticamos. Garg�lios � uma oportunidade imperd�vel para aprendermos a refletir social e artisticamente. A pseudocr�tica do tipo "n�o gostei porque eu�." mais do que nunca aqui n�o tem vez e s� atesta a mediocridade do sujeito que se expressa desta forma.Garg�lios � para gostar ou n�o gostar? Pode at� ser, mas principalmente para aprendermos a justificar o gosto ou n�o gosto nos porqu�s da proposta da pe�a, buscando as fundamenta�es apoiados na pr�xis testemunhada e n�o na nossa v� filosofia de wikip�dia.</p>
<p>Sai do teatro muito feliz e aliviado por finalmente ter assistido Gerald Thomas. Quase cometi a ignor�ncia de por op��o n�o assistir a Paulo Autran. Levo no peito a frustra��o de n�o ter assistido Raul Cortez. Em rela��o a Gerald, gostando ou n�o, deste fundamentalismo n�o morrerei.</p>
<p>Lembro-me quando em aula na Universidade, Luiz Fernando Ramos (professor e cr�tico da Folha) disse que Anti-Cristo (de Lars Von Trier) deveria ser assistido para entendermos o que � uma obra de arte. N�o importa se gostamos ou n�o, mas n�o podemos negar que este filme � uma obra de arte. Somente ap�s assistir ao filme (e, atrav�s de crit�rios subjetivos, n�o gostar), entendi o que ele queria dizer:gostando ou n�o, n�o se pode negar que Anti-Cristo � uma obra de arte. Assim como Garg�lios.</p>
<p>Vida longa a Garg�lios? Vida longa ao teatro de Gerald Thomas. Na careta cena brasileira, faltam mais chacoalh�es como os dele. Que sirva de refer�ncia principalmente aos amadores e estudantes. Afinal, � principalmente nas m�os deles que est�o as possibilidades de renova��o da cena teatral.
<p>A Gerald Thomas, e todo o elenco de Garg�lios, meu muito obrigado. </p>
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