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<title>Gerald Thomas &amp; Dry Opera Company</title>
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<td class="press2">
<H1>Garg�lios, de Gerald Thomas: a nostalgia do sentido</H1>
<p class="subhead">July 11, 2011
</p>
<p class="byline">By Reinaldo Azevedo</p>
<img src="/images/press/gargolios-reinaldo-azevedo.jpg">
<p>H� dois anos, o teatro, ou a possibilidade de inova��o do teatro, teve uma m� not�cia. Gerald Thomas anunciou que estava caindo fora. N�o queria mais saber do of�cio. N�o era Jean-Paul Sartre dizendo que a literatura n�o fazia sentido diante do horror. Era Thomas dizendo que o teatro n�o fazia sentido diante da banalidade do mundo. Em setembro do ano passado, no entanto, ele estreouThroats, em Londres, com a London Dry Opera Company. Estava de volta. Era a sua leitura do mundo p�s-11 de Setembro, o evento traum�tico da civiliza��o ocidental que ele viu acontecer literalmente da janela de seu apartamento, em Nova York. Na mais absoluta escurid�o de sentido, a exemplo do resto do mundo, restou-lhe descer e se integrar �s brigadas civis que tentavam socorrer as v�timas.</p>
<p>Throats foi bem-recebida pela cr�tica, mas nem tanto pelo pr�prio Thomas. Percebia que o motivo que o levou a anunciar a ren�ncia ao teatro persistia na sua pr�pria pe�a. Que motivo? Eu o resumiria assim: o discurso SOBRE a realidade n�o dava conta da complexidade do mundo nem como pol�tica nem como arte; no primeiro caso, ele se mostrava reducionista; no segundo, ah, meus amigos, no segundo, o problema vem l� de longe, da mimese aristot�lica, segundo a qual, no drama, o veross�mil, o cr�vel, tem preval�ncia sobre o fact�vel.</p>

<p>Thomas decidiu eliminar de Throats qualquer sombra de discurso program�tico, organizador, eficiente para a p�lis (volto a este ponto daqui a pouco); decidiu tamb�m p�r fim a qualquer conforto ao espectador; os atores que est�o no palco n�o querem iludir ningu�m; s�o alegorias. O autor e diretor reduziu tamb�mThroats a escombros, e surgiu em seu lugar a performance Garg�lios, que ele trouxe ao Brasil, junto com o London Dry Opera Company. A maior parte do espet�culo, pois, se desenvolve em ingl�s, com algumas falas em portugu�s da atriz Maria de Lima, que � portuguesa. H� legendas.</p>

<p>Assisti no s�bado � pr�-estr�ia do espet�culo, que fica no SESC Vila Mariana at� o dia 24 de julho. Num palco tomado pelos mesmos escombros do 11 de Setembro, estranhos super-her�is disputam espa�o no div� de um Freud (Adam Napier) da civiliza��o, que usa vistosos sapatos femininos, vermelhos. Do teto do palco, pende uma mulher seviciada, e seu sangue se esvai em gotas numa esp�cie de pote macabro e sagrado, onde se persigna um mordomo elegantemente vestido (o espetacular ator Angus Brown). Num painel transl�cido, v�-se uma grande imagem, acho, de Os Dez Mandamentos, de Cecil B. DeMille. Thomas vai tratar do mundo desde o come�o. Ou desde o fim.</p>

<p>� in�til tentar perseguir o fio de uma narrativa linear. Num dado momento, Maria de Lima ensaia um discurso sobre a crise de valores do nosso tempo, em tom um tanto grandiloq�ente, que ficaria bem na boca de um desses petistas ou esquerdistas que d�o plant�o na esquina. Interrompe a fala e a submete ao rid�culo, dizendo ser uma porcaria de texto. Nada de falas program�ticas. Thomas � isto arrisco eu, ele n�o me disse � parece estar disposto a contestar tamb�m a contesta��o.</p>

<p>Os escombros das Torres G�meas que est�o no palco s�o menos uma met�fora do que uma meton�mia. Numa linguagem muitas vezes telegr�fica, cheia de cita�es, a performance � assim o pr�prio Thomas define o trabalho � eles s�o uma parte de algo muito maior que parece aos peda�os. Ali est� um retrato angustiado, sarc�stico, muitas vezes c�mico, de uma cultura ocidental que perdeu suas refer�ncias. Ousaria dizer que a linguagem a que Thomas recorre � transgressora, inc�moda, agressiva �s vezes, mas a for�a que a inspira tem uma matriz nost�lgica, conservadora quem sabe: o tempo em que havia hierarquia de valores.</p>

<p>N�o por acaso, um dos poemas � e acho que a Garg�lios � isto: um sucess�o de poemas � ironiza impiedosamente estes dias dos iPhones, Ipods, Facebook, redes sociais, a era, enfim, da horizontaliza��o da cultura, em que se misturam sagrado e profano, importante e desimportante, raso e profundo. Aqueles super-her�is alquebrados, impiedosamente psicanalisados por um Freud de sapatos vermelhos, s�o sobreviventes de uma cat�strofe do sentido. Sim, estamos diante de uma vis�o bastante pessimista do mundo. Um dos �timos momento do espet�culo, vejam l�, � o jogo de palavras entre �entender/ n�o entender�. Estamos esmagados pela informa��o. Faltam-nos id�ias formadoras.</p>

<p>O pr�prio Thomas participa do espet�culo, como um narrador. Mas um narrador muito particular: fala por meio de solos de um baixo, que pontuam a m�sica composta para o espet�culo por John Paul Jones, do Led Zeppelin.</p>

<p>� in�til falar e seria in�til n�o falar da briga que j� tivemos, Thomas e eu � se n�o o fa�o, algu�m o far�. E dela surgiu uma amizade fraterna, que nos gratifica a ambos. N�o escrevo sobre o espet�culo do meu amigo, mas sobre o trabalho de um autor e diretor sem receio de ousar sobre a pr�pria ousadia. Aprendemos a aprender na diverg�ncia, e elas existem, e compartilhamos algumas preocupa�es que considero civilizadoras.</p>

<p>De certo modo, aquele rompimento com o �teatro�, no sentido de um discurso program�tico, est� mantido. Thomas preferiu o desconforto. E o Brasil, voc�s ver�o, tamb�m est� no palco, especialmente quando se ironiza certo tatibitate do nosso verde-amarelismo cafona. Assistam Garg�lios. N�o busquem o conforto da narrativa, mas o desconforto do sentido.</p>

<br><br>
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</table>
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</html>


Anon7 - 2021