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<title>Gerald Thomas & Dry Opera Company</title>
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<H1>Gerald Thomas: Freud explica.</H1>
<p class="byline">by Ed�lcio Mosta�o</p>
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Gerald Thomas costuma ser tomado como um indiv�duo contradit�rio. Alguns o amam e outros o odeiam. Alguns o tomam por narcisista, outros por debochado, poucos percebem que ele apenas transita entre personas diferentes, de acordo com a situa��o. Encenador ou dramaturgo? Tanto faz, pois a identidade � sempre v�ria.</p>
<p>Em qualquer plano em que seja examinada, a identidade deve afigurar-se como uma quest�o, n�o como um padr�o est�tico; ou seja, ser tomada como agente din�mico problem�tico dentro de um racioc�nio operacional. Examinemos alguns pontos de vista sobre ela.</p>
<p>Conhecemos, do ponto filos�fico, tr�s acep�es em que a identidade surge configurada: em Arist�teles, designando uma das qualidades da subst�ncia quando percebida em duas mat�rias diversas (Metaf�sica, V, 1018); em Leibniz, tomada como padr�o de igualdade entre A e B quando os termos s�o postos em rela��o de substitui��o entre si (Demonstra��o das esp�cies); e aquela ampla, quando reconhecida como fruto de um crit�rio de conven��o, atrav�s de quaisquer instrumentos tomados como tal, como a linguagem, por exemplo.</p>
<p>Refutemos as duas primeiras, nesse caso, de vez que s�o empregadas como parte das opera�es l�gicas e afeitas a um discurso muito fechado e restrito, concentrando-nos nos universos cab�veis � terceira, base que ajudou a erigir os padr�es das ci�ncias humanas. Aquilo que aqui se ressalta, de imediato, � a condi��o do sujeito, uma vez que o que � chamado de identidade � uma constru��o cultural, nascida dentro dos mais variados sistemas de conven�es. Do ponto de vista antropol�gico/psicanal�tico, a identidade surge de um complexo de opera�es que visam, em �ltima inst�ncia, uma satisfa��o do sujeito em rela��o �s demandas externas.</p>
<p>Para Freud, nA Interpreta��o dos Sonhos, a quest�o surge a partir da identidade de percep��o, motivada atrav�s da elei��o de um objeto que responda ao sujeito suas necessidades perceptivas, resultante da concilia��o entre os processos prim�rio e secund�rio (inter-rela�es entre consciente e pr�-consciente). A identidade de pensamento, inst�ncia posterior que lhe permite racionalizar sobre a experi�ncia da percep��o, resulta de algum desinvestimento quanto ao prazer, sem deixar-se iludir pela sua intensidade. � neste sentido que ocupa posi��o assemelhada �quilo que a l�gica chama de princ�pio de identidade.</p>
<p>Interessante de ser notado, desde j�, � que a identidade de percep��o decorre de algum c�lculo e formato que estrutura os sonhos, ou seja, a condensa��o e o deslocamento quanto � elei��o de objeto, problematizando desde sua origem a quest�o identit�ria, imposs�vel de ser reduzida a mera oposi��o afeto versus raz�o.</p>
<p>Pode parecer uma tautologia dizer-se que a identidade resulta de uma identifica��o, se n�o se configurar com alguma precis�o este verbo, pass�vel dos usos transitivo e reflexivo. No primeiro caso, designa a a��o de reconhecer como id�nticas duas coisas diversas (�As duas assinaturas s�o id�nticas�); no segundo, a a��o de um sujeito reconhecer-se em outro (�Paulo identifica-se com Alfredo em sua paix�o por autom�veis�). Somente no segundo caso torna-se apropriado falar-se em identifica��o no n�vel do sujeito, pois ela vai implicar numa das in�meras acep�es que o termo pode admitir, tais como simpatia, cont�gio mental, proje��o e, sobretudo, imita��o.</p>
<p>Neste plano, conv�m ainda distinguir entre uma identifica��o heterop�tica e outra centr�peta, onde a primeira designa a identifica��o do sujeito com um outro e a segunda aquela que o sujeito faz de outro consigo pr�prio. No conjunto da obra freudiana, a identifica��o tornar-se-� uma quest�o central para examinar as in�meras e polivalentes situa�es atrav�s das quais um indiv�duo se constitui. �A identifica��o n�o � simples imita��o, mas apropria��o baseada na pretens�o a uma etiologia comum; ela exprime um �tudo como se� e relaciona-se com um elemento comum que permanece no inconsciente�, afirma Freud nA Interpreta��o. Algures, esse elemento ser� denominado fantasma, ensejando a pluralidade das pessoas ps�quicas, as diversas inst�ncias simult�neas que constituem o sujeito.</p>
<p>Para uma compreens�o mais ampla dessas inst�ncias devemos, necessariamente, refazer as diversas �idades� mentais que o sujeito atravessa, desde o est�gio oral at� o genital, cada uma legando tra�os mnem�nicos indel�veis em seu inconsciente que, em conjunto, formam seu imagin�rio. Outro aspecto matricial desse fen�meno est� ligado ao narcisismo, uma vez que ele se estrutura dialeticamente com as rela�es surgidas entre a �escolha narc�sica de objeto� e a pr�pria �identifica��o� (pais, pessoas com quem conviveu etc), ou seja, os modelos eleitos como fontes de prazer. Numa obra da maturidade, Psicologia Coletiva e An�lise do Ego, voltando � quest�o da estrutura��o da identidade, Freud recoloca-a nos seguintes termos: a) � uma forma origin�ria do la�o afetivo com o objeto (em n�vel pr�-edipiano, marcada pela rela��o oral ou canibalesca); b) como um substitutivo de uma escolha de objeto abandonado (a situa��o p�s-ed�pica, ap�s a elei��o do papel sexual); c) sem investimento sexual do outro, o indiv�duo pode com ele identificar-se a partir de um tra�o reconhecido comum (ambos gostam de cha-cha-cha, por exemplo).Este �ltimo aspecto possui relevante valor cultural, uma vez que � nele onde atuam as ci�ncias sociais, trabalhando especialmente naquelas duas acep�es anteriormente mencionadas: a da identifica��o heterop�tica e a centr�peta, ambas se referindo ao que ocorre �no lugar de�. Relevante, ainda, � a distin��o cab�vel entre introje��o, incorpora��o e interioriza��o, tr�s processos atrav�s dos quais a identifica��o costuma processar-se.</p>
<p>Os dois primeiros evidenciam, em modo transl�cido, que os processos mentais envolvidos remetem a uma opera��o corporal (ingerir, devorar, guardar dentro de si), s�miles ou desdobramentos da fase oral, em toda a cadeia metaf�rica que faz engendrar no imagin�rio. A interioriza��o, em paralelo, � mecanismo bem mais complexo, uma vez que o que est� em causa � a natureza daquilo que o indiv�duo assimila, quase sempre uma rela��o inter-subjetiva. Ou seja, nos dois primeiros casos, s�o introjetadas e incorporadas coisas (palp�veis ou reconhec�veis na esfera cultural, s�mbolos, signos, semioses), enquanto no segundo interiorizam-se v�nculos, rela�es, exemplos de conduta, comportamentos, dimens�es decorrentes da vida societ�ria.</p>
<p>Como as identifica�es s�o m�ltiplas e estruturadas segundo necessidades individuais d�spares, ocorre que elas, enquanto dimens�es dentro do fen�meno cultural, devem ser sempre tomadas e admitidas como sistemas relacionais, coerentes consigo mesmas, ainda que quase sempre pare�am um amontoado de processos heter�clitos, excludentes, n�o coerentes. � o que explica porque um sujeito agressivo e assassino possa, junto a algumas pessoas, ser tomado como um meigo ecologista e colecionador de selos, por exemplo, uma vez que sua l�gica interna n�o corresponde, necessariamente, �quela externa, vis�vel ou dada � percep��o de outrem.
<p>Gerald Thomas leu Freud na adolesc�ncia.</p>
<p>Florian�polis, julho de 2007.</p>
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