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<title>Gerald Thomas & Dry Opera Company</title>
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<p>November 1, 2015</p>
<h1><strong>VERME logo na primeira página: "Metamorfose" � 100 anos</strong></h1>
<p>Gerald Thomas � Folha de S Paulo</p>
<div style="text-align: center"><img src="/images/press/110115-capa-metamorfose.png" align="middle"><br></div>
<p>Kafka � uma confus�o. � todo Austro-H�ngaro que � o todo Tcheco e que � todo Eslavo e que � todo uma Praga. Praga mesmo! Praga dessas que as pessoas rogam para si mesmas ou contra as outras, de guetos a guetos povoados por judeus miseravelmente tristes ou ciganos horrivelmente deprimidos, todos imersos numa �Mittle-Europa� e seus eternos e intermin�veis conflitos �tnicos onde um bairro fala alem�o e execra o que fala turco que execra o que fala alban�s e assim por diante. No meio disso tudo, um magrelo chamado Franz Kafka.</p>
<p>Era 1915, uma �poca quase igual a de agora. Claro, havia uma Primeira Grande Guerra Mundial em andamento, mas de resto, quase tudo igual. Hordas de refugiados pegando embarca�es pra l� e pra c�. Hordas tentando marchar para fora das zonas de conflito e morrendo nos trilhos, morrendo nos campos, morrendo de fome e de �dio e morrendo porque eram de uma ra�a e n�o de outra, morrendo porque acreditavam num deus e n�o no outro. A coisa gira, mas muda pouco.</p>
<p>Kafka escreveu A Metamorfose porque n�o aguentava mais o emprego como corretor de seguros e o horrendo ritual de ter que temer o chefe, o Chefe dos Chefes, os Chefes invis�veis e os absurdos hor�rios estipulados por essas entidades. O c�u eternamente cinza, as roupas cinzas, as peles mais que cinzas, tudo sempre frio e antip�tico e antissemita e a Europa naquele estado de que ningu�m aguenta mais.</p>
<p>Kafka deu um BASTA! �CHEGA! N�o aguento mais a vida de humano, porra!� Pronto. Foi isso. Ao contrario de �Cotidiano�, de Chico Buarque (�Todo dia ela faz tudo sempre igual/ me sacode �s seis horas da manh�/Me sorri um sorriso pontual/E me beija com a boca de hortel�), o personagem de �A Metamorfose� teve uma �ber crise, mandou o mundo dos humanos � merda e transformou-se num repugnante verme.</p>
<p>Franz Kafka odiava seu pai, odiava sua vida, odiava a si pr�prio. Pode-se enxergar o �kafkianismo� em varias etapas da nossa sociedade quando ela se torna insuport�vel, sufocante, burocr�tica e aterrorizante. Talvez o personagem Josef K, de �O Processo�, em que ele � preso por crimes que n�o cometeu e n�o consegue provar sua inoc�ncia, morrendo no final, ou na mais que cruel Col�nia Penal, em que o condenado sofre torturas na pr�pria carne com m�quinas gravando em sua pele os crimes que havia cometido.</p>
<div style="text-align: center"><iframe src="https://player.vimeo.com/video/11671603" width="500" height="375" frameborder="0" webkitallowfullscreen mozallowfullscreen allowfullscreen></iframe> <p><a href="https://vimeo.com/11671603">Gerald Thomas "Um Processo"</a> from <a href="https://vimeo.com/user1873464">The Dry Opera Co.</a> on <a href="https://vimeo.com">Vimeo</a>.</p></div>
<p>Kafka � o mais genial dos autor de todos os tempos. E n�o � dif�cil explicar por qu�.</p>
<p>Dependendo em que idioma voc� o l�, Kafka � o �nico autor que transcende a natureza humana at� a mais baixa e nojenta condi��o de verme, logo na primeira p�gina. Ele consegue isso em uma s� pagina.</p>
<p>Tive contato com �A Metamorfose� aos nove anos de idade, ou um pouco depois. Meu pai lia para mim, em alem�o. N�o � a toa que eu nunca mais consegui dormir desde ent�o. D�cadas mais tarde, j� sentado na Biblioteca do Museu Brit�nico, li-o em ingl�s, fiz compara�es, sa� puto (como sempre saio quando os tradutores traem os autores) e fui �kafkear� l� pela rua Great Russell Street, onde fica o museu.</p>
<p>Vinte anos para a frente e me deparo com a proposta de montar a minha Trilogia Kafka. Caramba! E agora? Bete Coelho, Daniela Thomas, Luiz Damasceno e a �trupe� da Cia. de �pera Seca ali sentados diante do enorme desafio. Tr�s adapta�es que sairiam do Brasil, viriam para Nova York e iriam terminar justamente em Viena.</p>
<p>Por que ser� que complicam tanto algo que, na verdade, � t�o simples? Saco! �Die Verwandlung� (t�tulo original, em alem�o) nada mais � do que �A Transforma��o�, pombas. Por que ent�o misturar Ov�dio com leves insinua�es Hom�ricas no meio? Para qu�? Para que transformar um �verme� num besouro (ou barata), se verme � um termo aleg�rico que se aplica a humanos quando se sentem o �fim da picada�?</p>
<p>Seja como for, o que ficou na hist�ria � que Gregor Samsa � uma barata. Melhor para mim, pois o p�ster do espet�culo acabou sendo o corpo de uma barata tendo um bico de pena como cabe�a. E isso mata a charada: a barata que escreve. Mas a sintaxe est� errada pois perpetuei o erro e mantive a ideia da barata ou besouro quando o �BASTA, PORRA! N�O SOU MAIS UM DE VOC�S!!!!!�, o berro de independ�ncia de Gregor, est� mesmo mais para um desses vermes que se arrastam e deixam uma gosma, do que para a ideia de barata.</p>
<p>�A Metamorfose� � um romance miseravelmente triste em que o autor n�o se esconde atr�s de nada. � Kafka ali o tempo todo. E quando, quase no final do livro, o pai irritado de Gregor, joga uma ma�� nele para afugent�-lo, a fruta gruda nas costas do bicho e apodrece nele, nas costas dele. Esse � um dos momentos mais tristes do livro e � nesse momento que conseguimos ouvir a tosse de Franz Kafka e enxergar o seu rep�dio em estar vivo. Vivo e, no entanto, morto. Morto e, no entanto, n�o morto o suficiente para ser declarado um �falecido�.</p>
<div style="text-align: center"><img src="/images/press/110115-cubo-metamorfose.jpg" align="middle"><br></div>
<p>A escrita de Kafka nos faz ranger os dentes, mesmo que se leia esse livro pela vig�sima vez e no quinto idioma. E � tamb�m, al�m de tudo, o maior tratado de que nascemos e estamos aqui, mas n�o sabemos por qu�. E a �nica forma de provarmos que estamos vivos � carimbando diariamente um livro que reza que a �nica forma de exist�ncia � atrav�s da desist�ncia, � atrav�s da constata��o de que os port�es se fecham para n�s, que nossas luzes se apagam e que aquela imensa dor que sentimos, essa puta dor, s� tender� a piorar a cada dia, pior e pior, e cada vez pior at� que consigamos atingir a transforma��o final, ou seja, a Metamorfose.�A Metamorfose�, mais do que qualquer outro livro de Kafka, ou mais do que qualquer outro livro na hist�ria da literatura, � um testamento de que a �nica forma de comunica��o entre seres humanos � atrav�s da extrema crueldade, da tortura mental e da dor f�sica.</p>
<p>GERALD THOMAS, autor e diretor teatral, dirigiu a Trilogia Kafka nos anos 1980</p>
<div style="text-align: center"><img src="/images/press/110115-metamorfose-fsp1.jpg" align="middle"><br></div><BR>
<div style="text-align: center"><img src="/images/press/110115-metamorfose-fsp2.jpg" align="middle"><br></div><BR>
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