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<title>Gerald Thomas &amp; Dry Opera Company</title>
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<tr><td class="header" align="left" height="100" style="background-image:url('/images/hd-chronicles.jpg')">
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<tr>
<td class="press2">
<h1>AS VELHAS RA�ZES</h1>
<p class="subhead">Gerald Thomas explica como conheceu o escritor e fala da dura recep��o que sua principal pe�a teve nos EUA</p>
<p class="byline">GERALD THOMAS<br>ESPECIAL PARA A FOLHA, EM NOVA YORK</p>
<P>
<strong>2005 foi um ano de dramaturgia p�ssima. A popularidade de Bush, assim como a de Lula, despencou, faliu</strong></P>
<P>
Happy Birthday", Sam!!! Cem anos, quem diria? Eu estava com voc� naquele dia tr�gico em que voc� recebeu a carta de um morto, um morto alegoricamente assassinado por um ciclista em Londres: teu melhor amigo de tantas d�cadas: Alan Schneider, teu diretor, aquele que te abriu as portas para a Am�rica; aquele que dirigiu "Esperando Godot" com Zero Mostel e Burgess Meredith t�o brilhantemente.<BR><BR>
Schneider, americano, estava indo depositar uma carta no correio de Hampstead, em Londres, e, ao voltar, olhou pro lado errado. Foi atropelado por um ciclista, bateu com a cabe�a no meio-fio e morreu.<BR><BR>
Tr�s dias depois voc� recebia a carta dele e quase chorava enquanto me explicava que a origem de "Godot" vinha, de fato, de um ciclista, um campe�o do Tour de France, chamado Godeaux que, um dia, decidiu n�o aparecer mais na reta final. E o povo ficou esperando. Isso o intrigou, e voc� tomou o evento como exemplo, e o exemplo acabou virando uma esp�cie de met�fora horr�vel: meio s�culo depois, um pequeno e an�nimo Godeaux londrino atropelou o teu grande amigo.
Porque voc� me aceitou, arredio que era, t�mido, alto demais assim como uma escultura de Giacometti, de quem tanto gostava? Voc� s� via cinco ou seis pessoas e detestava "festas"! Esse fedelho que escreve... At� hoje n�o entendo! Mas te agrade�o tanto, Sam!<BR><BR>
Eu te escrevia, do meu nicho no Brooklyn, p�ginas e mais p�ginas pelo correio: demoravam exatamente sete dias para que chegassem ao teu apartamento, no bulevar St. Jacques. E exatamente 14 dias depois, na minha caixa postal na Prince Street, no Soho, l� estava: um cart�o seu com letras quase ileg�veis, dizendo pouco ou quase nada, mas nesse vazio era muito o que voc� transmitia. O teu mero "yours Sam" no final do cart�o era uma emo��o incont�vel para mim... Eu, que conhecia teus textos, quase todos eles de cor...
Como foi que essas indas e vindas come�aram mesmo? Ah sim! Num dos cart�es, um tom diferente dos outros: "Se por acaso, um dia, talvez, quem sabe, estiver passando por Paris, talvez, poder�amos nos encontrar...". Peguei o primeiro avi�o.<BR><BR>

<B>A mem�ria</B>
Beckett n�o estava l�. Fui � toa? Eu ligava pra Jerome Lyndon, seu editor, que me dizia que Beckett estava em sua casa de campo, em Ussy. Eu fiquei, n�o por acaso, na espelunca de sempre, o Hotel La Louisianne.<BR><BR>
Depois de horas esperando um telefonema que n�o vinha, n�o ag�entava mais de fome e sa� pra comprar um croissant na esquina. Na volta, recebo um recado da telefonista de que um tal de monsieur Beckett havia ligado e que ligaria de novo, precisamente �s 19h. Quase enlouqueci.<BR><BR>
Da� por diante n�o foi propriamente uma amizade: n�o se faz amizade com um mito. Justamente aquele que, de fato, escreveu de punho pr�prio "Finnegan's Wake" (Joyce j� estava quase cego e ditava pra Beckett). Ah... Hum... Hamm...
Ele reclamava profundamente da dor de suas m�os artr�ticas. Entre um expresso e outro e uma cigarrilha Caf� Creme, tirava do bolso da manta uma daquelas garrafas de metal amassadas, bebia um gole de "irish malt". "Can never escape the old roots, you see?" (n�o se consegue escapar as velhas ra�zes, entende?). Quanta mem�ria!
Muitos n�o gostam de voc� at� hoje. Outros, como o ex-cr�tico de teatro do "New York Times", Walter Kerr, renunciaram ao cargo por sua causa. Ap�s 25 anos reinando na cr�tica e fechando (ou fazendo lotar) espet�culos, Kerr percebeu que "Esperando Godot" era de fato "a mais importante pe�a do s�culo".<BR><BR>
Pe�a essa que demolira na d�cada de 50, quando Schneider a encenara nos EUA pela primeira vez, dizendo se tratar de "uma pe�a em que nada acontece, em dois atos". Kerr se despediu de seu p�blico dizendo que Beckett era o mais importante autor teatral e pediu desculpas por ter arruinado tantas vidas: pois, n�o tendo enxergado a genialidade em Beckett, quem sabe quantas outras ele tamb�m n�o teria obliterado?
<BR><BR>
<em>Gerald Thomas � diretor teatral</em>



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</td></tr>
</table>
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</html>


Anon7 - 2021