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<title>Gerald Thomas & Dry Opera Company</title>
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<td class="press2">
<h1>UM DIA IREMOS DESAPARECER</h1>
<p class="subhead">DIRETOR TEATRAL V� EM NOVA ORLEANS UMA EXCE��O DENTRO DOS EUA COMPAR�VEL A NOVA YORK, E NA M�SICA LOCAL, SEU PR�PRIO CANTO F�NEBRE PROF�TICO</p>
<p class="byline">GERALD THOMAS<br>ESPECIAL PARA A FOLHA, EM NOVA YORK</p>
<P>
Eu geralmente me incomodo quando vejo algum dramaturgo usando uma trag�dia natural ou uma guerra, por exemplo, para tra�ar met�foras com o mundo fantasioso e l�dico do palco ou da prosa. Mas o evento Katrina, a partir do pr�prio nome, e a devasta��o de uma cidade t�o singular como Nova Orleans, me provocam arrepios t�o fortes como os eventos de 11 de Setembro em Nova York ou a invas�o do Iraque ou o tsunami do ano passado misturado com as fotos que via em crian�a de Hiroshima. Cat�strofes naturais misturadas a pol�tica. A mis�ria humana misturada ao mais puro sadismo e aos conchavos humanos, seus piores preconceitos e fetiches mal resolvidos.<BR><BR>
� que em Nova Orleans, assim como em Nova York, "estamos e n�o estamos" (assim como numa pe�a de Samuel Beckett ou em Shakespeare) nos Estados Unidos da Am�rica. Sim, por acaso essas duas cidades se encontram em solo norte-americano, mas talvez, se perguntada, a maioria norte-americana, digo, o pov�o norte-americano, repudiaria esses nichos de "alien�genas impuros" (talvez eu devesse incluir aqui San Francisco tamb�m, por seu liberalismo sexual gay). Claro, estou exagerando.<BR><BR>
N�o, n�o teremos mais uma lua sobre Bourbon Street, como cantava Sting, h� v�rios discos atr�s. A cultura "cajun" (crioula-francesa) � algo obscura para a maioria dos norte-americanos. Paup�rrima para os padr�es primeiro-mundistas, Nova Orleans fala um ingl�s que muitos norte-americanos (mesmo os sulistas) t�m dificuldade de entender. Est� al�m do "jive" ou da "slang" -"It's as cajun as a mudpie". V� entender! � um ingl�s teatral. Fala-se muito com as m�os.
Com a �gua subindo e subindo, eu imaginei duas cenas. Tennessee Williams completamente b�bado em seu quarto de hotel se "afogando" em m�goas, literalmente (como de fato fazia), e a mais bela met�fora j� criada em teatro: o pr�logo que Peter Brook encenou para "A Tempestade", em Hanover, h� d�cadas: colocou uma caravela de papel�o na cabe�a de um ator africano que bebia e bebia e bebia, at� cair.<BR><BR>
N�o h� tempestade mais bem representada e, no que diz respeito aos ex-escravos at� hoje numa posi��o inferior (apesar da "affirmative action" e outras medidas pol�ticas e sociais), os negros de Nova Orleans poderiam ser esses n�ufragos da encena��o de Brook. Ele e Williams, ambos n�ufragos no teatro, mas secos e bem nutridos. Vamos deix�-los pra l�.
Katrina n�o poderia ser personagem de Beckett, pois Beckett n�o � devastador, apesar de suas pe�as destru�rem, rasgarem a alma do ser humano com a falta de palavras ou perspectivas. Talvez fosse uma personagem feminina: aquela menina do Paul Auster que procura, na terra esquecida e perdida, um ente querido que n�o encontra. Sim, voltamos ao mestre irland�s em "The Lost Ones", uma prosa Beckettiana cheia de nichos; artif�cio que Auster plagiou, ou meramente pegou emprestado em que seres vagam � procura de outros seres.<BR><BR>
No dia em que escrevo, seres em Nova Orleans, seres quase submersos ainda buscam seus entes perdidos, e o n�mero de mortos est� anunciado pelo prefeito na casa da dezena de milhar. � realmente dif�cil para qualquer artista ficar imune -ou impune- a essas imagens. Elas se ramificam porque, em quest�o de um dia, o homem virou bicho, o ser humano virou lixo e as etnias foram comprimidas a um s� s�lido bloco de lama e fezes naquele solo onde se berra e canta "God Bless America" mais vezes por dia do que se vai ao banheiro.<BR><BR>
<strong>Canto f�nebre</strong><BR>
Mesmo assim essas interpreta�es liter�rias ou dram�ticas de eventos catastr�ficos me incomodam. Estou diante de uma fogueira de vaidades, e os fatos n�o mentem e... Ver pela televis�o corpos inchados boiando, ou gente h� uma semana nos telhados sufocadas pelo pr�prio ar, ou de dor e de peste, confrontadas com o cheiro da finitude, assim como se estiv�ssemos em plena Idade M�dia, num total Terceiro Mundo, � imensamente desconcertante. Mas me pergunto se nos sentir�amos assim se isso n�o estivesse acontecendo nos Estados Unidos e, principalmente, na terra que nos deu o jazz.
A identifica��o com a cultura brasileira se d� por a�. � como se a popula��o que criou o jazz e o Mardi Gras e se apropriou do vodu j� estivesse predestinada, j� soubesse que em seu futuro algo nesse estilo fosse acontecer. "Um dia iremos desaparecer", diz Caliban em "A Tempestade", de Shakespeare (ou ser� Trinculo?), numa ilha dominada por Pr�spero e pela bruxa Sycorax. "Um dia iremos desaparecer e portanto vamos criar a m�sica do lamento, do jazz ao blues, e vamos desfilar nossas fantasias ao som de trompetes bem altos pra que todos nos ou�am, n�s, os NEGROS MISER�VEIS do SUL!, com uma batida lenta dos tambores, assim como se faz num FUNERAL!!!"<BR><BR>
Pensamento intuitivo e l�gico! Mais l�gico do que qualquer ci�ncia pudesse prever. A resposta lenta do governo ter� sido porque ela reflete a repugn�ncia norte-americana por esses nichos de "outcasts"? A falta de manuten��o dos diques ter� sido por qu�? Porque, mais cedo ou mais tarde, cidades como Nova Orleans j� renderam o que tinham que render (ou seja, grande parte de seus jovens est� lutando no Iraque, ou melhor, j� morreu l�) e sua m�sica se esgotou? Nova Orleans estava mesmo se tornando um "problema criminal", assim como o Rio de Janeiro, com assaltos a turistas etc.? �, n�o h� mesmo jeito de escapar de um paralelo dramat�rgico. Mas ainda n�o sei bem qual, j� que ainda n�o h� desfecho. Estamos em pleno primeiro ato.<BR><BR>
Katrina foi uma mulher maldosa ou um esp�rito "vodu�sta" maldito que retornou para castigar a regi�o do rio Mississippi. E como a desgra�a ainda est� em progresso e n�o se sabe aonde vai dar, n�o se pode compar�-la a nada, absolutamente nada. Katrina � somente um esp�rito. N�o se compara mesmo ao tsunami que arrastou Sri Lanka, Tail�ndia e Indon�sia no ano passado para o buraco mais fundo da humanidade. Aqui estamos vivendo e presenciando um drama que ainda n�o terminou, sendo que o Presidente da Rep�blica est�, como sempre esteve, omisso, ausente, atrasado em seu estado de quase onipresen�a.<BR><BR>
Acho que daqui a um ano poderemos fazer alguma coisa disso tudo. Minto. Hoje completamos quatro anos desde os ataques que derrubaram o World Trade Center, evento que vi da minha janela em Williamsburg, Brooklyn. At� hoje n�o sei o que fazer daquilo ou com aquilo. O mundo mudou de tal forma que o pensador ou o criador est� com o mosaico destru�do ainda.
A iconoclastia e o desconstrutivismo do s�culo 20 n�o deixou pedra sobre pedra. E, sem esses pilares -coisa de "fin-de-si�cle"-, temos a aut�psia da aut�psia da aut�psia de tudo. Estilha�os por todos os lados. J� declarei minha guerra contra esse tsunami cultural chamado "desconstrutivismo": CHEGA! Quando nos colocarmos moralmente de p� -e bota uns bons dez anos nisso-, quem sabe olharemos para Nova Orleans com melancolia e colocaremos no iPod alguma coisa que lembre o jazz com alguma nostalgia, muita vergonha, e certamente muita raiva e tristeza.
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<em>Gerald Thomas � diretor teatral</em>
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