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<title>Gerald Thomas & Dry Opera Company</title>
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<p>FOLHA DE SAO PAULO - 20 Janeiro 2011</p>
<p> </p>
<p>DEPOIMENTO / GERALD THOMAS ESPECIAL PARA A FOLHA</p>
<h1><strong>Diretora, que morreu no último dia 13, foi uma "mama" de coração enorme</strong><br>
</h1>
<p>Ano que vem faria 30 anos de amor, filiação, admiração e algumas brigas na minha relação com a minha Mama, Ellen Stewart. </p>
<p>Foi em 1982 que ela me mandou dar um workshop para atores, num andar que o La MaMa [grupo teatral] tem de espaço de ensaio na Great Jones Street [em Nova York], a um quarteirão dos teatros em si. </p>
<p>"Texto demais", ela berrava nos ensaios finais. "Mas é Beckett, Ellen, é um texto de Beckett." "Não importa: é texto demais." "Você quer que eu corte Beckett?" Sem resposta, ela sumia. </p>
<p>Ellen não gostava de teatro de texto, não importa qual autor. <br>
Entre brigas, carinhos, bajulos e críticas, esses 30 anos foram pontuados por algumas repetições engraçadas: "Welcome home baby and sit your ass right here" (Bem-vindo bebê e sente sua bunda aqui). </p>
<p>Num quarto mínimo, com a televisão sempre na maior altura, ela nos recebia e me pedia: "Honey, vá na geladeira e me traga uma 7 UP bem gelada".</p>
<p>Qual era a sua doença? O coração que não parava de crescer. Não, o que descrevo não é uma metáfora, e sim a mais pura realidade. </p>
<p>Ellen Stewart, a "mama" com o coração enorme, acabou morta por um coração grande demais. </p>
<p>Eu chegava de alguma ópera ou peça que havia montado na Europa e ela só queria mesmo saber se havia saído o nome do La MaMa no cartaz. E havia. Eu fazia questão de frisar que eu era fruto dela. Ela me inventou. E a partir da autoestima que ela me imprimiu, eu fui á luta. </p>
<p>O meu primeiro espetáculo que viajou saiu do La MaMa (era a Beckett Trilogy com o Julian Beck) e nos levou para o Theater am Turm, em Frankfurt (Alemanha), pelo crítico Peter Iden, da Frankfurter Rundschau. <br>
Ela, sentada na plateia durante, distribuía notas de dinheiro, mas não entendia uma palavra do que o administrador dizia. Eu falo alemão, Julian falava alemão e Judith Malina e George Bartnenieff haviam nascido na Alemanha. "Shut up everyone. I know what I'm doing" (Calem-se todos. Eu sei o que estou fazendo). </p>
<p><br>
Contou tudo errado, mas, num silêncio de admiração, gratidão e medo, não dissemos nada. A ovação que esse espetáculo recebeu em Frankfurt foi a última que Julian ouviria. Ele faleceu um mês depois. <br>
Algumas de minhas peças que foram pra NY não foram pro La MaMa e isso foi motivo de briga entre mãe e filho que não há como descrever. Vão do inferno pra baixo. <br>
"Flash and Crash Days", com as Fernandas, foi para o Lincoln Center: "Assim, eu não vou: nem tentem me levar porque você me traiu". </p>
<p><br>
Não, eu não havia traído ninguém. "Flash and Crash" havia sido convidado pelo festival Serious Fun (1992), e eu pedi um amigo que a pegasse de carro na rua 4 e a levasse ao complexo artístico onde também fica o Metropolitan Opera House, na 66. </p>
<p><br>
"Horrível aquela cena de masturbação entre mãe e filha. Como você pode pensar numa coisa suja como essa?" Nudez nunca foi um problema no La MaMa. Aquilo era pura cena de ciúme. <br>
Foram quase 30 anos de levá-la aos hospitais e dando-lhe a mão dentro de uma ambulância, tentando um quarto melhor, com vista pra rua. </p>
<p><br>
Foram quase 30 anos de um amor indescritível. O mesmo amor que ela teve quando cunhou o termo "experimental theater" (teatro experimental) nos anos 1960 e a mesma paixão que fez com que ela tirasse e salvasse o Grotowski [diretor de teatro polonês, 1933-1999], a força da Polônia de Jaruzelski [presidente entre 1989-1990]. </p>
<p><br>
Éramos todos adotados por ela, nós, as crianças que ela espalhou pelos teatros do mundo inteiro. Sim, De Niro, Pacino, Bob Wilson, Philip Glass, Charles Ludlam ou Harvey Fierstein e tudo que Firestein hoje chama de 80% do teatro americano. </p>
<p><br>
Estou perdido e envolto numa tristeza que não tem descrição. Mas sei que esses 30 anos me serviram pra muita coisa. Entre elas, não me lamentar. </p>
<p><br>
Sim, porque eu sou testemunha da dor física que ela sentiu nessas últimas décadas com um enorme sorriso nos seus lindos lábios. </p>
<p>GERALD THOMAS�� autor e diretor teatral.</p>
<br><br>
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