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<title>Gerald Thomas & Dry Opera Company</title>
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<td class="press2">
<p><strong>Gerald Thomas</strong></p>
<p>New York, March 23, 2011</p>
<h1><strong>A Escolinha do Tadeusz Francisco Kantor Anysio</strong></h1>
<p>Todo mundo ria muito com o Chico. Era tudo riso, sorriso e gargalhada. Eu, inclusive. Mas comecei a tra�ar uns paralelos entre o Chico critico e o Professor Raymundo demag�gico e apelativo e, gra�as a deus, cheguei a algumas conclus�es.</p>
<p>"A Classe Morta" de Tadeusz Kantor, � um dos espet�culos que mais definiram o teatro pos moderno � quase sem texto, quase oposto a Pina Bausch � j� que a movimenta��o dos atores nada tinha a ver com dan�a. Kantor criou espet�culos inesquec�veis.</p>
<p>E atrav�s da "Classe Morta" e "Wielepole Wielepole" comecei a notar a que Chico Anysio fazia criticas severas � acidas � sulf�ricas, a imbecilidade da "cultura baixa" (t�o reverenciada no Brasil) e lutava ferozmente, com humor, contra o analfabetismo.</p>
<p>Chico Anysio se auto-descrevia como um deprimido, hiper ansioso e era assumidamente um ser em constante estado de busca uma categoria que o encaixasse ou o deixasse confort�vel, "outsider" que era. Em suas pr�prias palavras, "nascer e crescer no Cear� e conquistar o universo cultural brasileiro � mais dif�cil que nascer austriaco e conquistar a America". Chico se referia ao ex-governador da Calif�rnia, Arnold Schwartzenegger ou tantos estrangeiros (como Henry Kissinger, Margareth Albright) que exerceram tanto poder no pais mais poderoso do mundo.</p>
<p>E, tendo conquistado o Brasil, cometeu um erro do amor se unindo a Z�lia Cardoso de Mello, a mulher mais odiada de sua �poca. Mudaram-se pros Estados Unidos onde ele estava disposto a come�ar tudo de novo, do zero, sem falar o ingl�s fluente, alias, ingl�s nenhum. Chico Anysio tinha regras, mas as quebrava o tempo todo. Assim � a vida de um angustiado. E essas angustias � como estamos acostumados a ver desde Chaplin, Valentin, Buster Keaton at� Woody Allen, nascem do "desencaixe" e da profunda angustia de tentar e tentar achar uma maneira de sair dela.</p>
<p>Eu ainda tinha coluna bimensal na Folha quando resolvi defender o Chico e sua escolinha
revelando alguns segredos que o mortal telespectador n�o sabia, j� que o chamado "patrulhismo ideol�gico" caiu de pau no trabalho dele.</p>
<p>Quando saiu minha coluna, la por 1997, juntei o Chico ao Tadeusz Kantor e muita coisa mudou. Ningu�m acreditou , muito menos o pr�prio Chico Anysio. Mas a minha compara��o era real, honesta e valida.</p>
<p>Chico e eu:</p>
<p>Eu estava quieto no meu apartamento em Brooklyn , NY, quando recebo um telefonema dele � tamb�m em NY (em Manhattan, na Park Avenue) ainda casado com a Z�lia Cardoso de Mello.</p>
<p>"Oi Gerald. Aqui � o Francisco. Aqui quem fala � um deprimido que chamam por ai de Chico Anysio". Combinei de pega-lo em sua casa e o levei pra um restaurante italiano (Bice, se n�o me engano) na rua 54, muito popular naquela �poca.</p>
<p>E ele veio munido. Munido de emo��o por estarmos ali, jogados e confusos, aos prantos por um reconhecimento da chamada "vanguarda" mais que merecido.</p>
<p>E munido tamb�m de uns 15 scripts pra cinema, que escrevia as d�zias, as pencas, por kilo, por dia, algumas pe�as de teatro, livros a serem publicados e tr�s mil id�ias para a televis�o.</p>
<p>"Veja bem Gerald: eu critico o sistema de "ser" do brasileiro no canal que ajudei a consolidar � a TV Globo � e fazia isso com o endosso do Boni. Agora que o Boni se foi, n�o sei mais se perten�o ou n�o ao jogo que se tem que fazer".</p>
<p>Fiquei muito impactado com um dos roteiros: "The Friar", que trazia fora da sacola, na mao.
"Gerald, por favor fa�a isso chegar nas m�os do Sean Connery". "Sean Connery?" "Sim, precisa ser ele, escrevi pra ele".
Fiz chegar as m�os do ex 007, mas Connery estava com um espet�culo na Broadway e com uma verdadeira agenda lotada at� sei la quando. Connery gostou do que leuy e marcava e desmercava reuni�es, ate que desisti.</p>
<p>"O que eu fa�o aqui, Gerald?" Senti a amargura
e sua dor. E n�o exagero. E tive uma id�ia.</p>
<p>Sou muito amigo de Hugh Hudson (Carruagens de Fogo, Revolution com Al Pacino � tive um debate publico no fest de cinema do Leon Kacoff em 2008 com o Hugh em Sampa e outro em Londres). Ligamos pro Hugh em Londres e ele se entusiasmou com "The Friar".</p>
<p>Pronto. Miss�o cumprida.</p>
<p>Eu e Chico nos encontr�vamos com uma certa regularidade (n�o muita, mas alguma) e fal�vamos muito de projetos e mais projetos. O homem era compulsivo.</p>
<p>Corta. Estamos no Rio, anos depois. Eu estava � literalmente numa tremenda depress�o quando recebo uma liga��o dele pro meu quarto de hotel: "to mandando um carro te pegar ai, vem jantar aqui". Era o Chico "paiz�o" querendo retribuir. Veio um Monza velho, caindo aos peda�os com um motorista. Pegamos um engarrafamento daqueles surreais e pensei na roubada.</p>
<p>Isso j� foi em 2000 e ele j� estava casado com outra e a mans�o era no final do Recreio dos Bandeirantes . Mostrou-me a casa com orgulho, cada canto, onde pintava, onde escrevia, mas, infelizmente a comida estava�deixa pra la. Ningu�m jantou mesmo, nem ele.</p>
<p>Como na �poca eu tinha um programa de bate papos no UOL, resolvi voltar no dia seguinte pra filmar uma <a id="nav2" href="http://geraldthomas.net/T-Chico-Anisio.html" class="servlink" target="_new">conversa informal</a> que acabou ficando seria.
<p>E era um tal de receber emails dele "o armaz�m do Francisco". "estou fechando o Armaz�m, volto mais tarde." Eram, sem exagero, uns 20 desses por dia, com conte�do grande.</p>
<p>Em 2003 quando (de novo no Rio), eu fui preso por mostrar a bunda pra plat�ia de estr�ia de Trist�o e Isolda no Municipal, o Chico foi o primeiro a ir no meu hotel em Ipanema, se anunciar na recep��o e subir pra me acalmar.</p>
<p>Eu , debaixo dos cobertores tremendo por ter feito o que fiz e sabendo do processo que ainda estava por vir, Chico sentou-se do meu lado, segurou a minha m�o e disse: "O professor Raymundo aqui vai dar um jeito, n�o se preocupe" . E do quarto mesmo, come�ou a ligar pra advogados, desembagadores, ministros da justi�a em Bras�lia, etc.</p>
<p>Percebi, sem querer, que est�vamos numa cena do The Friar , de sua autoria: � quando um seminarista comete uma heresia e recebe a visita de um bispo que o reprime severamente mas, por tr�s das portas, faz tudo pra promove-lo.</p>
<p>N�o posso deixar de registrar que Chico Anysio, assim como muitos outros comediantes brasileiros s�o seres fant�sticos e universais. E mesmo que so se reconhe�a (num primeiro momento) a est�tica fajuta e os berros da era do radio, por tr�s dessa falsa fachada, existe um ser profundo, triste e comovente. Assim como a pr�pria mascara do teatro que ri enquanto chora e vice versa.</p>
<br><br>
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