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<title>Gerald Thomas & Dry Opera Company</title>
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<p>FOLHA DE SAO PAULO - 15 de Setembro de 2001</p>
<p><strong>GERALD THOMAS</strong></p>
<p> ESPECIAL PARA A FOLHA, EM NOVA YORK</p>
<p><strong>COMENTÁRIO</strong><br>
</p>
<h1><strong>"Nação Zumbi"</strong></h1>
</p>
<p>Um dos problemas menos comentados nessa tragédia são as pessoas que estão desaparecidas. Não falo dos mortos desaparecidos. Falo dos que sofreram ataques de pânico e amnésia perante o ataque e estão perdidos, vivos, mas perdidos, perambulando.</p>
<p>
Andando pelas ruas do East Village, em Manhattan, vê-se em quase todo poste de luz uma foto e informação de pessoas que sequer estavam perto da área chamada de "ground zero".<br>
A polícia estima em quase mil essas pessoas dentro da ilha de Manhattan, apáticas em algum ponto obscuro, quem sabe debaixo da George Washington Bridge, lado oposto do local do ataque.</p>
<p>
São os zumbis. Ando pelas ruas olhando bem na cara das pessoas, consciente de que uma entre elas pode ser a foto no poste. É difícil dizer. A expressão de vazio está na cara de quase todos os jovens. Os mais velhos têm algo de revanche em sua Gesthalt.</p>
<p>
Há aqueles que sentem orgulho pelo tamanho do machucado que a nação sofreu, sem que sua fundação ou seus princípios tenham sido abalados. E há aqueles que fazem fila para aplaudir os verdadeiros heróis, ou seja, bombeiros, polícia e equipes de salvamento.</p>
<p>
Sim, eles merecem a maior ovação do mundo, seu único lema é a sobrevivência da população. Isso é uma coisa muito americana e que poucas outras nacionalidades entendem. É uma espécie de heroísmo que muitas vezes vejo sendo ridicularizado por nações com menos auto-estima. Mais uma vez provam que são -e merecem ser- a espinha dorsal de uma sociedade cultivada, evoluída.</p>
<p>
Infelizmente, os políticos não são assim. É difícil acreditar no que dizem. Existe um "acting", um jogo sendo jogado o tempo todo, o incessante jogo de interesses, suas lutas internas e seus conchavos, mesmo perante tamanha tragédia. Ao contrário dos verdadeiros heróis da brigada de incêndio, os políticos têm de mostrar seu serviço por meio da retórica.</p>
<p>
Esse império das meias-verdades é tão traiçoeiro que os dois evidentes "inimigos número 1" do país foram financiados, numa triste ironia do passado, pelo dinheiro ganho pela retórica e pelo jogo de interesses desses políticos.</p>
<p>
É o caso de Bin Laden, usado contra os russos no Afeganistão, e o de Saddam Hussein, colocado lá para "afundar" o fundamentalismo fanático do aiatolá Khomeini.<br>
Todos são íntimos e esse ataque há de revelar uma caça à própria cria que se soltou e se rebelou violentamente. Tragédia ainda maior é o curso da própria história, suas justificativas mentirosas, vidas descartáveis e valores efêmeros.<br>
Bin Laden e Hussein também são zumbis, já que se escondem na sombra e vivem em tocas kafkianas, escapando e vagando como eternos covardes.</p>
<p>
O nova-iorquino teve mais uma prova do orgulho que reina entre o povo dessa cidade e seus verdadeiros heróis fardados. E, passado o primeiro impacto desse inesquecível capítulo da história, o que estará em jogo será a conotação que o termo "reconstrução" tomará nos próximos dias.</p>
<p>
Reconstruir não é erguer novos prédios ou limpar as ruas. A "reconstrução" será um árduo processo. Ele depende do embasamento cultural de seus líderes.</p>
<p>
Fiquei de manhã fazendo "relief work" perto do "ground zero". Caía um dilúvio como raramente vi. Terror e dilúvio e nenhum Noé ou arca à vista. Ninguém parava de trabalhar. E de bom humor.<br>
O solo ficou mais pesado pela chuva e várias estruturas de metal "derrapavam", ferindo as equipes de salvamento, que não deram o braço a torcer um só momento. Parabéns a todos, santo Deus.</p>
<p>GERALD THOMAS�� autor e diretor teatral.</p>
<br><br>
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