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<title>Gerald Thomas & Dry Opera Company</title>
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<p> Adeus a Paulo Autran - Ilustrada de segunda, 15 de Outubro, Folha de S Paulo</p>
<img src="/images/press/autran.jpg">
<h1>Paulo Autran dominou os truques dos mestres</h1>
<p class="subhead">
Ator falava como Laurence Olivier e fisgava o público com seu olhar
</p>
<p class="byline">GERALD THOMAS<br>
ESPECIAL PARA A FOLHA</p>
<p>Chego do velório e percebo que Paulo Autran morreu no Dia da Criança. Não poderia ter escolhido dia melhor. Talvez seja por isso que esse "ator/símbolo de si mesmo" tenha escolhido um dia como esse e tenha deixado sua mulher, Karin Rodrigues, com um sorriso lindo estampado na cara.</p>
<p>Num momento relaxado, indo buscar sua Karin na peça "O Médico e o Monstro" (há mais de dez anos), ele, Ney Latorraca e eu só falávamos cretinices.
Sugeri que f�ssemos visitar Haroldo de Campos, que morava a três quarteirões do Tuca, e Paulo brincou: "Mas eu tenho que me vestir de "concreto"? Símbolos?
Há um mês e meio, ele estava sentado na minha platéia no Sesc Anchieta, numa quarta-feira, justamente duas semanas depois que ele mesmo havia sido "tombado" enquanto vivo, o que é raríssimo.</p>
<p>Sim, o visionário Danilo Santos de Miranda resolveu transformar o teatro do Sesc Pinheiros em teatro Paulo Autran. E o próprio Paulo pediu que fosse o grandíssimo Marco Nanini quem fizesse as cerim�nias da ocasião. Assim como no filme "Quero Ser John Malkovich", agora, finalmente, podia se "estar dentro" de Paulo Autran pagando ingresso. Ele riu disso entre um trago e outro (maldito cigarro!) enquanto discutíamos algo sobre o Terceiro Reich.</p>
<p>"Estar dentro", dizia Paulo, "tem muitas conotações". E ríamos... O espetáculo que acabara de ver era o meu "Rainha Mentira" e lidava com campos de concentração, mas o sempre bem-humorado intérprete (diferente de ator que representa) estava se referindo a coisas mais leves, obviamente.
Sempre estive ao lado desse homem, e sempre "combinamos algo pra daqui a um ano" mas nunca compartilhamos o palco. Curioso. Fomos até chamados de "elitistas" pelo atual ministro da Cultura.</p>
<p>O restaurante Piselli era o nosso cruzamento acidental mais freq�ente em Sampa e lá falávamos de tudo, assim como fazíamos ao longo desses 23 anos, desde a casa de Tonia Carrero, quando eu a dirigia (junto com Sergio Britto, em "Quartett", de Heiner Mueller), em sua própria minimansão, onde Paulo e Karin se hospedavam, no Rio. </p>
<p><b>Ator erudito</b></p>
<p>Ele era um ator e não um representador. Era um intérprete, alguém que vive em todas as épocas, especialmente no futuro e vê tudo no passado. Paulo é, ainda no presente, um educador, um erudito como poucos nesta classe teatral. Ao contrário de tantos que andam por aí, com ele as conversas podiam perambular entre as razões da Primeira e da Segunda Guerra Mundial, os filósofos gregos, a queda do Império Romano, a divisão da China pós-Revolução Cultural de Mao...</p>
<p>E seu registro de voz era estranhíssimo. Fora da língua portuguesa, digo, brasileira. Ele falava exatamente no mesmo registro ("pitch") que Laurence Olivier. E, assim como uma criança, tinha a curiosidade de olhar para o céu e observar estrelas. Mas no teatro transformava as estrelas em refletores e nos devolvia a luz de uma l�mpada que batia em sua pupila e nos fisgava, não importa em que ponto ou fundura do palco ele se encontrava. Truques de grandes mestres, já que carisma não se explica.</p>
<p>Ele olhava a imensidão do universo com a mesma intensidade que o urdimento do teatro. Essa vivência é muito difícil de explicar. Mas Paulo será muito difícil de explicar porque, mesmo enfermo, ele não parava de ir ao teatro, de querer enxergar novos talentos, de querer estar no palco por eles, ou melhor, através deles.</p>
<p>O ator morre todos os dias, no momento em que se veste de personagem. Morre de novo quando o personagem morre ou quando a cortina fecha ou quando o público o aplaude ou na solidão do seu camarim.</p>
<p>Quem morreu na última sexta foi uma grandiosa criança chamada Paulo Autran, cujo legado não nos deixará nunca.</p>
<p>Quem sabe ele está estudando um novo método qualquer pra poder nos surpreender novamente. Vai com Deus, meu querido. Fique em paz!</p>
<p><b>GERALD THOMAS</b> é autor e diretor de teatro</p>
<p><b>Comentario</b></p>
<p>Lindo texto, chorei. Sabe o que é triste Gerald? é que o Paulo Autran, em 2006, falava de um totalitarismo no Brasil,que imperava no Ministério da Cultura. Quando olho o site do MINC e os jornais do Brasil e percebo que o Ministro Cantante não se pronunciou, não emitiu nenhuma nota de pesar, eu penso: O ator Paulo Autran tinha plena razão e eis o ministro a camuflar a morte de um grande homem com o despreso, tornando-o invisivel. No Brasil, o brasão é a utopia.</p>
Alexandre Vargas
<br><br>
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