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<title>Gerald Thomas & Dry Opera Company</title>
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<td class="press2">
<p><strong>Gerald Thomas</strong></p>
<p>New York, October 30, 2013</p>
<h1><strong>Procure Saber- Que Palha�ada</strong></h1>
<img src="/images/chronicles/103013.jpg"><br>
<p>Esse movimento Procure Saber � uma palha�ada. Pessoas p�blicas se colocam na ribalta, no foco, na fogueira das vaidades. E, uma vez colocadas na fogueira das vaidades, � isso, paga-se o pre�o bom e o ruim, o do inferno e o do c�u. Querem o qu�? Somente docinhos, p�ezinhos ado�ados? Tem o pre�o do inferno tamb�m, faz parte. As pessoas querem ser retratadas como se fossem anjinhos? O que est�o escondendo? Aqui nos Estados Unidos, onde eu moro, ou em qualquer parte do mundo, existem biografias n�o autorizadas. Esses livros podem dizer absurdos e que fique para sempre o mist�rio porque haver� outras biografias que dizem outras coisas. Que fique a d�vida. Isso faz parte do ser-mito. Se o retratado quiser, que escreva sua autobiografia.</p>
<p>"Falo com a experi�ncia de quem teve megaproblema. O escritor Ruy Castro escreveu absurdos sobre a minha fam�lia no livro �Ela � Carioca� em 1999. Minha fam�lia � judaica, perdemos v�rias pessoas em campos de concentra��o e ele colocou que minha av� era amiga de Hitler e de Goebels. Tudo o que minha av� fez foi escapar desses carrascos. Ele podia ter checado comigo, podia ter me ligado, eu estava no Brasil ensaiando uma pe�a naquela �poca, mas n�o o fez. Soube recentemente que ele escreveu outros absurdos, que minha fam�lia tinha im�veis no Rio e em S�o Paulo, quando na verdade mor�vamos num apartamento de fundos, de sala e dois quartos, em Ipanema, na rua Prudente de Moraes. Ele disse que eu torrei o patrim�nio todo em teatro, uma mentira. Cheguei a ser prostituto aos 15 anos, aqui em Nova York. Optei por n�o tomar nenhuma medida judicial, apenas publiquei um artigo em um jornal e tive uma conversa com Luis Schwartz, dono da Companhia das Letras, que me pediu desculpas. Depois tamb�m falei com o Ruy por telefone que acusou o Ziraldo, meu ex-sogro, de ter dado essas informa�es a ele. E ficou por isso mesmo, n�o processei.</p>
<p>O Brasil � um pa�s de analfabetos, pouqu�ssimas pessoas v�o ler uma biografia. Os alfabetizados mal sabem ler jornal. Os que sabem ler est�o colocando foto de pizza no Facebook e eles est�o fazendo esse au� todo. Se a Paulinha Lavigne quer comparar o Brasil e os Estados Unidos, como fez na tev�, por que n�o aprende qual � o valor real de um pa�s que cria todos os movimentos civis? Todo movimento de libera��o, de contracultura, come�ou aqui. Se � para se mirar nos Estados Unidos, ent�o voltem para os pais fundadores, tranquem-se num quarto na Pensilv�nia, comecem a discutir os reais valores de uma sociedade e fa�am emendas � Constitui��o como as que existem aqui. A liberdade de express�o est� garantida na primeira emenda � Constitui��o americana. Toda a minha quest�o de vida, toda a minha obra � em rela��o � liberdade de express�o. Se meu teatro e minha obra inteira forem reduzidos a alguma coisa � � defesa da liberdade de express�o. Esse � o valor m�ximo que uma sociedade deve ter. Pague-se o pre�o que for. Mas acho que um pa�s que n�o passou por uma guerra verdadeira de independ�ncia, n�o viu sangue ser derramado, n�o sabe o valor real de lutar contra o colonizador, tem outros valores.</p>
<p>Chico Anysio se auto-descrevia como um deprimido, hiper ansioso e era assumidamente um ser em constante estado de busca uma categoria que o encaixasse ou o deixasse confort�vel, "outsider" que era. Em suas pr�prias palavras, "nascer e crescer no Cear� e conquistar o universo cultural brasileiro � mais dif�cil que nascer austriaco e conquistar a America". Chico se referia ao ex-governador da Calif�rnia, Arnold Schwartzenegger ou tantos estrangeiros (como Henry Kissinger, Margareth Albright) que exerceram tanto poder no pais mais poderoso do mundo.</p>
<p>E, tendo conquistado o Brasil, cometeu um erro do amor se unindo a Z�lia Cardoso de Mello, a mulher mais odiada de sua �poca. Mudaram-se pros Estados Unidos onde ele estava disposto a come�ar tudo de novo, do zero, sem falar o ingl�s fluente, alias, ingl�s nenhum. Chico Anysio tinha regras, mas as quebrava o tempo todo. Assim � a vida de um angustiado. E essas angustias � como estamos acostumados a ver desde Chaplin, Valentin, Buster Keaton at� Woody Allen, nascem do "desencaixe" e da profunda angustia de tentar e tentar achar uma maneira de sair dela.</p>
<p>Aqui nos Estados Unidos as pessoas publicam o que querem e depois os advogados v�o em cima. Se quiserem, podem fazer a mesma coisa no Brasil e passar o resto da vida perdendo tempo com advogados. Eu, simplesmente, ignoraria. N�o entendo por que pessoas do porte de Chico Buarque e Caetano Veloso perdem tanto tempo preservando uma imagem. Qual imagem? A obra deles n�o fala mais alto? O que eles t�m a perder? Eles s�o g�nios, n�o deviam prestar aten��o no que beltrano aqui ou fulano ali falam. N�o tem a menor import�ncia se um livrinho sai. No m�ximo, escreve um artigo rebatendo. Ler os artigos do Caetano tem sido constrangedor, ele est� se enrolando cada vez mais.
Considero tudo um absurdo. Ganhar dinheiro em cima das biografias � um absurdo. S�o celebridades milion�rias e o Brasil � um pa�s de miser�veis. Ser� que o problema deles � falta de talento? Ser� que eles n�o est�o conseguindo mais compor? Ser� que eles gostam da ditadura porque no regime militar eles compunham bem? Eu passei seis anos na Anistia Internacional em Londres defendendo presos pol�ticos brasileiros, exilados e desaparecidos. Comparada com a ditadura de Pinochet, no Chile, ou de Videla, na Argentina, a brasileira n�o era nada, embora tenha sido dur�ssima. E, claro, produziu uma arte brasileira em que se falou por entrelinhas, em letras de m�sicas como �C�lice� (Pai/afasta de mim esse c�lice) e �Sabi� (Vou voltar/sei que ainda vou voltar), em alus�o ao voto. Quando acabou a ditadura, cad� aquela genialidade toda? Abriram as gavetas e n�o tinha nada? � incr�vel como se comp�e bem quando existe um grande inimigo comum. A arte escondida � uma arte genial.</p>
<p>� muito triste porque gosto imensamente deles, como pessoas e como artistas. Caetano Veloso � um dos maiores poetas do Brasil. Quando eu sentava com Samuel Beckett, em Paris, na d�cada de 80, eu traduzia os poemas de Caetano para ele. Queria que ele entendesse quem era Caetano Veloso tal era o meu amor pela obra de Caetano. Dirigi show da Gal, �O Sorriso do Gato de Alice�, em 1994, no qual lidava com a obra de Caetano e de Gil o tempo todo. Degustava cada m�sica 80 vezes por dia ensaiando a Gal e via mais brilhantismo ainda. �Nine out of ten�, �Vaca profana�, s�o lind�ssimas. O tropicalismo � um grande movimento brasileiro, � uma das coisas mais importantes que aconteceram no Pa�s. Abasteceu o Brasil com brasileirismos maravilhosos. E agora vejo esse pessoal atr�s de valores lavignianos? � nojento e triste. Essas pessoas, que eu achava que n�o tinham mais nada a perder, se defendem de uma forma puritana, boba, est�pida e imbecil n�o sei do que e mancham a pr�pria biografia.</p>
<p>Gerald Thomas � dramaturgo</p>
<br><br>
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