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<title>Gerald Thomas &amp; Dry Opera Company</title>
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<p>October 26, 2015</p>
<p><strong>GERALD THOMAS</strong></p>

<h1><strong>Cent�simo anivers�rio de <i>A Metamorfose</i> de Kafka</strong></h1> (texto original, encomendado pela Folha de S Paulo)

<p>�A Metamorfose� � 100 years old today.

<p>Gerald Thomas � Folha de S Paulo</p>


<p>Kafka escreveu <i>A Metamorfose</i> porque n�o aguentava mais o emprego como corretor de seguros e o horrendo ritual de ter que temer o chefe, o Chefe dos Chefes, os Chefes invis�veis e os absurdos hor�rios estipulados por essas entidades. O c�u eternamente cinza, as roupas cinzas, as peles mais que cinzas, tudo sempre frio e antip�tico e anti-sem�tico e a Europa naquele estado de que ningu�m aguenta mais.</p>

<p>Kafka deu um BASTA ! �CHEGA! N�o aguento mais a vida de humano, porra!�. Pronto. Foi isso. Ao contrario de �Cotidiano�, de Chico Buarque (Todo dia ela faz tudo sempre igual/ Me sacode as seis horas da manh�/Me sorri um sorriso pontual/E me beija com a boca de hortel�), o personagem de <i>A Metamorfose</i> teve uma �ber crise, mandou o mundo dos humanos a merda e transformou-se num repugnante verme.</p>

<p>Franz Kafka odiava seu pai, odiava sua vida, odiava a si pr�prio. Pode-se enxergar o �kafkianismo� em varias etapas da nossa sociedade quando ela se torna insuport�vel, sufocante, burocr�tica e aterrorizante. Talvez o personagem �Joseph K� de O Processo, em que ele � preso por crimes que n�o cometeu e n�o consegue provar sua inoc�ncia, morrendo no final, ou na mais que cruelColonia Penal, em que o condenado sofre torturas na pr�pria carne com maquinas gravando em sua pele os crimes que havia cometido.</p>

<p>Kafka � o mais genial dos autor de todos os tempos. E n�o � dif�cil explicar por que.</p>
<img src="/images/chronicles/kafka-100-years.jpg"><br>

<p>Dependendo em que idioma voc� o le, Kafka � o �nico autor que transcende a natureza humana at� a mais baixa e nojenta condi��o de verme, logo na primeira pagina. Ele consegue isso em uma s� pagina.</p>

<p>Tive contato com <i>A Metamorfose</i> aos nove anos de idade, ou um pouco depois. Meu pai lia para mim, em alem�o. N�o � a toa que eu nunca mais consegui dormir desde ent�o. D�cadas mais tarde, j� sentado na Biblioteca do Museu Britanico, li-o em ingl�s, fiz compara�es, sai puto (como sempre saio quando os tradutores traem os autores) e fui �kafkear l� pela Great Russell Street.</p>

<p>Vinte anos para a frente e me deparo com a proposta de montar a minha <i>Trilogia Kafka</i>. Caramba! E agora? Bete Coelho, Daniela Thomas, Luiz Damasceno e a �troupe� da Cia de �pera Seca ali sentados diante do enorme desafio. Tres adapta�es que sairiam do Brasil, viriam para Nova York e iriam terminar justamente em Viena.</p>

<p>Por que ser� que complicam tanto algo que, na verdade, � t�o simples? Saco! Die Verwandlung nada mais � do que <i>A Transforma��o</i>, pombas. Por que ent�o misturar Ov�dio com leves insinua�es Hom�ricas no meio? Pra qu�? Pra que transformar um �verme� num besouro (ou barata), se verme � um termo aleg�rico que se aplica a humanos quando se sentem o �fim da picada�?</p>

<p>Seja como for, o que ficou na hist�ria � que Gregor Samsa � uma barata. Melhor para mim, pois o p�ster do espet�culo acabou sendo o corpo de uma barata tendo um bico de pena como cabe�a. E isso mata a charada: a barata que escreve. Mas a sintaxe est� errada pois perpetuei o erro e mantive a ideia da barata ou besouro quando o �BASTA, PORRA! NAO SOU MAIS UM DE VOCES !!!!!, o berro de independ�ncia de Gregor, est� mesmo mais para um desses vermes que se arrastam e deixam uma gosma, do que para a ideia de barata.</p>

<p><i>A Metamorfose</i> � um romance miseravelmente triste em que o autor n�o se esconde atr�s de nada. � Kafka ali o tempo todo. E quando, quase no final do livro, o pai irritado de Gregor, joga uma ma�� nele para afugent�-lo, a fruta gruda nas costas do bicho e apodrece nele, nas costas dele. Esse � um dos momentos mais tristes do livro e � nesse momento que conseguimos ouvir a tosse de Franz Kafka e enxergar o seu rep�dio em estar vivo. Vivo e, no entanto, morto. Morto e, no entanto, n�o morto o suficiente para ser declarado um �falecido�.</p>

<p><i>A Metamorfose</i>, mais do que qualquer outro livro de Kafka, ou mais do que qualquer outro livro na hist�ria da literatura, � um testamento de que a �nica forma de comunica��o entre seres humanos � atrav�s da extrema crueldade, da tortura mental e da dor f�sica. A escrita de Kafka nos faz ranger os dentes, mesmo que se leia esse livro pela vig�sima vez e no quinto idioma. E � tamb�m, al�m de tudo, o maior tratado de que nascemos e estamos aqui, mas n�o sabemos por qu�. E a �nica forma de provarmos que estamos vivos � carimbando diariamente um livro que reza que a �nica forma de exist�ncia � atrav�s da desist�ncia, � atrav�s da constata��o de que os port�es se fecham para n�s, que nossas luzes se apagam e que aquela imensa dor que sentimos, essa puta dor, s� tender� a piorar a cada dia, pior e pior, e cada vez pior at� que consigamos atingir a transforma��o final, ou seja, a <i>Metamorfose</i>.</p>




<p>GERALD THOMAS�� autor e diretor teatral.</p>


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Anon7 - 2021