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<title>Gerald Thomas & Dry Opera Company</title>
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<td class="press2">
<p><strong>Gerald Thomas</strong></p>
<p>New York, March 23, 2011</p>
<p> FOLHA DE S. PAULO - ILUSTRADA</p>
<h1><strong>Ser� que voc� ficou velho, Z� Celso?</strong></h1>
<p>Artista insens�vel parece ser um termo contradit�rio. Pior ainda � quando o artista repete a voz med�ocre da classe m�dia pasteurizada, achatada, emburrecida pelo denominador comum baix�ssimo da m�dia cultural.</p>
<p>Estou estarrecido� N�o, minto, estou somente decepcionado pelas declara�es recentes do Z� Celso relativas � arte maravilhosa de Bob Wilson. Z� comparou Wilson a uma revista ilustrada, a uma esp�cie de embrulho com papel de presente.</p>
<p>Justamente no momento de sua estr�ia de "Cacilda!", em que ele tinha mais � que falar sobre o seu pr�prio trabalho, Z� Celso -obviamente inseguro e confuso (envergonhado talvez)- resolveu optar por ecoar, vergonhosamente, a opini�o da classe m�dia de 30 anos atr�s, que enxergava em Wilson o "artista incompreens�vel".</p>
<p>Ao mesmo tempo em que � tr�gica essa constata��o, � engra�ado ler que ele acusava Wilson de "bater sempre na mesma tecla", quando ele, Z� Celso, n�o faz outra coisa h� tr�s d�cadas: o discurso social, pol�tico e cultural do Z� � o mesmo. Sua arte sofre (ou � enaltecida) justamente pelo fato de que o diretor- autor mant�m uma convic��o determinada e nada o tira desse patamar.</p>
<p>Pois � justamente esse o caso de Wilson. Esse tamb�m sofre (ou � glorificado) nas obsessivas repeti�es de suas f�rmulas.</p>
<p>Wilson (que nunca ouviu falar em Z� Celso) � o teatr�logo mais importante e mais prolixo desses �ltimos 30 anos, trabalhando (sem parar) nos maiores palcos do mundo e tendo a maior verba dispon�vel em teatro para realizar seus trabalhos.</p>
<p>Ser� que � isso que enfurece o Z�? Wilson tem todo o dinheiro de que precisa e se apresenta (ainda sob vaias da classe m�dia) no Metropolitan Opera House, no Thalia de Hamburgo, no Schaunbuehne de Berlim, na Opera de Zurique ou no festival de Salzburgo.</p>
<p>Mas n�o se iludam. Aqueles que o patrocinam ainda ouvem desaforos da classe conservadora. Alguns velhinhos de cabe�a branca ainda s�o vistos se levantando no meio de seus espet�culos e saindo pela porta em protestos ruidosos.
Ser� que um desses velhinhos de cabe�a branca, em Hamburgo ou em Munique, poderia ter sido o Z�?</p>
<p>Ah, sim! Os trabalhos de Bob Wilson todos se parecem uns com os outros, se repetem, se assemelham numa propor��o alucinante? Ora, mas que novidade!!! E Mozart? E Wagner? E Di Cavalcanti? E Glauber? Como � que um artista como o Z� pode cometer justamente esse erro? Como � que ele pode beirar o fascismo, o racismo, o preconceito mais prim�rio que � o de julgar "vazio" e "inintelig�vel" tudo aquilo que ele n�o entende?</p>
<p>N�o � justamente contra esse preconceito raso e perigoso que o Z� lutou a vida toda? N�o � justamente contra essa falta de generosidade e de di�logo entre est�ticas e ideologias que o Z� lutou a vida inteira? Voc� ficou velho, Z�?
<p>Sim, sem d�vida as obras de Wilson se parecem. Ali�s, s�o todas uma a cara da outra. Mas n�o poderia ser diferente. Wilson � mais que um teatr�logo, mais que um pintor, mais que um mero diretor de teatro.</p>
<p>Wilson � um vision�rio, um autor de um vocabul�rio extenso, um artista-autista que foi buscar em sua cegueira e em sua inabilidade discursiva uma outra maneira de penetrar o mundo emocionante da arte ao vivo.</p>
<p>Mas o que dizer, por exemplo, de Mondrian ou de Paul Klee? O que dizer da arquitetura de Frank Lloyd Wright ou de Niemeyer? Ou Shakespeare, Matisse? Sim, os maiores artistas da humanidade t�m um "red thread" (uma terr�vel "parec�ncia", uma obsess�o repetitiva) que os acompanha, deprime, revolta, assombra, mas que �, em �ltima inst�ncia, aquilo que chamamos de estilo ou "assinatura do artista".</p>
<p>Ser� que posso acreditar que o Z� Celso acusa Bob Wilson de possuir aquilo que os maiores mestres da sensibilidade humana tiveram: uma assinatura?
A arte de Wilson nasceu onde a do Living Theatre morreu. Z� pegou emprestado a arte do Living, do Julian Beck e de Judith Malina, que, na d�cada de 60 e 70, acreditavam que, berrando, bradando e enchendo os ouvidos da plat�ia com refr�es e chav�es do idealismo de contracultura "flower power" iriam mudar a mentalidade geral do status quo para sempre.</p>
<p>Que falha! Que bobagem! Ingenuidade pura! O pr�prio Julian (que eu tive o privil�gio de dirigir na "Trilogia Beckett", em Nova York, pouco antes de sua morte) confessou que havia se equivocado no que dizia respeito � sua falta de sutileza e de sedu��o.</p>
<p>Julian confessava assustado que Beckett havia dominado muito mais genialmente a maneira de transmitir sua arte, justamente porque havia conseguido camufl�-la com pequenas cascas e camadas que a plat�ia (num gesto intuitivo e participante) precisava descascar com curiosidade, para chegar ao cerne da quest�o.</p>
<p>Quem gosta da arte �bvia? Quem gosta de ouvir jarg�es e quem se sente motivado por eles? Ser� que algu�m saiu de punho em riste de alguma "pe�a revolucion�ria" para ir fazer sua revolu��o?</p>
<p>N�o, evidente que n�o. Pior que isso. A plat�ia que v� atores de punho em riste, berrando jarg�es, sente-se defendida, afastada, sente-se currada pelo excesso de "verdade" vinda do palco e vai para casa se sentindo humilhada.
Essa "verdade" pertence aos gurus, aos papas, aos representantes de um suposto deus.</p>
<p>O verdadeiro artista tem � pacto com o diabo, com a d�vida, com a hesita��o.
Ele precisa, sem a menor sombra de d�vida, rearrumar os conceitos est�ticos e morais da plat�ia com pinceladas dissimuladas, sutis e, �s vezes, deliberadamente mentirosas, para que a sua mensagem seja interpretada pelo p�blico com as mesmas nuances existenciais que o pr�prio mist�rio da vida proporciona.</p>
<p>Com certeza, o Z� n�o � conhecido pela sua sutileza. Sua arte est� longe do cochicho, da sedu��o e do namoro.</p>
<p>Notem bem: escrevo tudo isso porque adoro o Z�. J� provei isso com in�meros textos no passado. H� tr�s ou quatro anos escrevi que seu "Ham-let" era o "maior espet�culo da terra" e seu "Gracias Senhor" at� hoje n�o me sai da mem�ria.</p>
<p>Mas me assusto quando vejo que ele n�o quer enxergar que Wilson -assim como Beckett- fez em seu teatro a jun��o de v�rias artes, de v�rias imagens, de v�rias filosofias.</p>
<p>Assusto-me quando ou�o o Z� repetir o jarg�o da classe conservadora americana e europ�ia de d�cadas atr�s. Justamente por se autodenominar um anarquista, um alegre, um feliz e esperto bobo da corte, assusto- me quando <b>vejo que esse ser ador�vel que se chama Z� Celso Martinez Corr�a, pode, em quest�o de alguns poucos anos, passar a ser simplesmente um bobo.</b></p>
<p>GERALD THOMAS � autor e diretor teatral</p>
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